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SACANAGENS
DO MUNDO INTERIOR
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Alexandre
Mesquita
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As peças estão implícitas na palavra-título O Orfanato
(El Orfanato, Espanha/México, 2007) e são rapidamente
colocadas em cena.
Crianças brincando. Casal em sintonia. Filho que vê coisas.
Casarão. Creio haver uma possível combinação entre elas
cujo resultado compõe um lugar escuro, cheio de janelas
fechadas, barrando a boa vontade do Sol, onde vive a carência
e a busca de provar que não é um rejeitado da vida. Estamos
falando do mundo interno de quem desde pequenino se viu
sem família. Assustadores e/ou indefesos podem ser os
personagens que moram nesta só pessoa.
Saberemos que Laura (Belén Rueda) era órfã. Foi adotada
quando menina, deixando para trás cinco amigos no orfanato.
Tornou-se adulta e também adotou para ser mãe. Resgata,
portanto, no filho Simon (Roger Príncep) uma pequena parte
de sua trajetória, talvez para preencher lacunas dentro
da premissa que "histórias que se assemelham, se somam".
Sim, pois além da adoção, Laura, retorna com Simon e Carlos
(Fernando Cayo), o marido médico, a morar novamente na
enorme casa que fora um dia seu orfanato, com a intenção
de reativá-lo.
Resgate. Origens. Histórias que se somam.
Simon, sem ninguém para brincar, diz que fez amigos imaginários
na casa. Essas crianças, que cabeça fértil. Porém,
informações que o garoto não deveria saber surgem de sua
boca. Aparentemente, um dos amigos imaginários era bem
informado. Coisas abrindo, fechando e rangendo, não necessariamente
portas, vão compondo uma cama de pregos para as angústias.
Num dia de festa, Simon teima em mostrar para Laura uma
pequena casa em seu quarto, onde mora um dos amigos fictícios.
Surta quando a mãe diz que não tem tempo. Laura perde
a paciência e dá um tapa no filho. Indignado, Simon desaparece.
Ele, que já largava papos de morar na Terra do Nunca.
Laura choca-se ao descobrir que os amigos imaginários
do filho tem intimidade até para lhe cumprimentar.
Resgate. Origens. Histórias que se somam. O pavor.
O filme entra no jogo do "pode ser ou não". O roteiro
de Sergio G. Sánchez é competente e combatente. Não traz
nenhuma revolução para o terror/suspense, mas propõe-se
com garra (deve ter sido escrito e reescrito várias vezes)
a realizar um produto muito bem amarrado utilizando elementos
tradicionais (o que é tão difícil quanto propor o novo).
Casa imensa, antiga, de corredores vazios e passagens
secretas, com gente inicialmente incrédula, e portanto,
à mercê de barulhos vindos da onde não deveriam.
A mão do diretor estreante Juan Antonio Bayona atesta
que há fantasmas, ele só não garante se são reais ou sacanagem
da imaginação. A lente da câmera observa os personagens
a partir de sombras e buracos na parede, tangencia o mistério.
E, de repente, a música curta, aguda e maciça de Fernando
Velázquez salta de algum canto como um punhal no ouvido.
Isto desde o começo, não aparentando seguir motivos lógicos.
Parece, esta música, ser uma besta interessada apenas
no medo da platéia. Para nós, pobres mortais (nunca essa
expressão serviu tanto), em nossa poltrona até carrossel
de parquinho, ou conchinha de praia, pode trazer problema
para os nervos - e conseqüentemente, para a poltrona.
O trabalho do diretor reflete-se também nas interpretações.
Não há ninguém que se sobressaia, mas nenhum ator deixa
o filme morrendo de vergonha quando aparece. E Geraldine
Chaplin, como uma médium, enriquece.
Porém, um pecado, verbalizar demais pontos importantes
em vez de mostrá-los acontecendo. Uma coisa é dizer que
fulano fez. Outra, poderosa, é fulano fazendo. Esta última
permite sintonizar melhor no clima da importância de fulano
para o contexto. Como exemplo, eu citaria a morte do menino
do capuz, bastante significativa para o desenrolar da
trama. Se fosse colocado mais flashback sobre ela, algumas
boas sacadas do filme seriam melhor percebidas ou valorizadas.
Outro pecado é a sensação de déjà vu. O Orfanato
encontra semelhanças com Escuridão, A Espinha
do Diabo e O Labirinto do Fauno, com participações
especiais de O Chamado, Sexta-Feira 13,
Poltergeist, entre outros. É um pouco incômoda,
faz com que a conclusão não chegue, para os mais atentos,
a ser surpreendente como o intencionado (algo como o que
aconteceu com Os Outros e O Sexto Sentido,
por exemplo).
Estas duas ressalvas comprometem a película na sua intenção
de obra-prima. Mas é um bom produto, feito com cuidado
e bem conduzido a um final que provoca vontade de rever
para confirmar se as peças realmente vão para o encaixe.
Amar os outros e encontrar o amor perdido de si mesmo.
Atingir a felicidade no sorriso daqueles que a conseguiram.
Mensagem para pessoas de mundo interno sombrio: abram
suas janelas e deixem entrar o sol em sua história.
Nem que morram tentando.
O ORFANATO (El Orfanato, Espanha/México,
2007)
Direção: Juan Antonio Bayona.
Elenco: Belén Rueda, Roger Príncep, Fernando Cayo,
Geraldine Chaplin.
COTAÇÃO: *** |
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