PREDADOR SEGUNDO NIETZSCHE
Alexandre Mesquita
 
 
O sangue ferve porque o chão do deserto é quente, poderia ser o cartão de apresentação de Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007) dos competentes e criativos - mas que nem sempre acertam o ponto - diretores, produtores, roteiristas e irmãos Joel e Ethan Coen.

Baseado no sucesso editorial de Cormac McCarthy, a história é ambientada no começo dos anos 1980 e tem como pano de fundo o panorama predominantemente desértico da fronteira entre EUA e México. Sol, caveiras de vacas e vegetação rasteira se contrapõem ao até agora mais contundente filme dos Coen, o encharcado de neve Fargo. Mas o contraste é meramente paisagístico: são filmes idênticos no que os irmãos cineastas estão sempre querendo dizer - sobre a presença e a ausência de sentido no ser humano. Seus personagens tem um olhar demorado para o mundo, seus psicopatas são de fala econômica, e erros, de quem quer que seja, levam exponencialmente a mais erros.

Desta vez o jogo de equívocos é iniciado por uma mal-sucedida negociação de drogas, no meio do deserto, entre mexicanos. Quase todos os envolvidos morrem. Um sujeito com pinta de vaqueiro, Llewelyn Moss (Josh Brolin), caçava ali por perto e encontra no fúnebre cenário uma mala com dois milhões de dólares. Contrariando todos os manuais de vida tranqüila, ele leva o dinheiro para casa e depois volta ao cenário do crime aparentemente porque um dos mexicanos não estava bem morto: moribundo, clamava por água. O vaqueiro é pego com a mão na massa. Pela sobrevivência, ele dá início a uma fuga estabanada e sangrenta, pois atrás dele entra em cena o super-psicopata, que nunca teve mãe - segundo a própria -, Anton Chigurh (Javier Bardem). Armado com um tubo de pressão usado para matar gado, uma espingarda com um silenciador que parece uma latinha de refrigerante, e um cabelo-espetáculo, Chigurh é um cara que aplica na prática sua sabedoria, viver e morrer depende da vontade de uma moeda jogada para cima. Sempre um passo atrás dos dois está o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), apenas contabilizando mortes e puxando assunto sobre seu lugar nesse mundo cada vez mais sangrento.

Um traço típico que flui dos Coen é o humor negro. Em Onde os Fracos... ele aparece ótimo, pois além de provocar risos está a serviço da narrativa. Um exemplo: Llewelyn, fugindo, ainda sem saber como está sendo perseguido, chega a um motel de beira de estrada e esconde a mala com o dinheiro no duto de ventilação na parede do quarto. Quando, mais tarde, volta para pegá-la, ele não tem idéia de quem é Chigurh e muito menos que o matador está a alguns metros de sua porta lá fora. Llewelyn, tentando com uma vara improvisada pescar a mala no duto, está tranqüilo, se achando o cara mais esperto do mundo. Então Chigurh abre a porta e entra atirando, só que invade o quarto errado, e encontra traficantes mexicanos. Ele mata todos, mas na briga sai tiro até de metralhadora. No quarto ao lado um Llewelyn estático e de olhar arregalado finalmente se dá conta da onde se meteu.

E nós também.

Oitenta por cento do filme, excetuando as participações do xerife, transcorre num bem construído duelo entre mocinho e bandido com tiroteios, mortes e fugas pela janela, de fácil acompanhamento desde que não se queimem neurônios tentando compreender como as coisas chegaram a tal ponto (por que Llewelyn foi burro de voltar ao local do crime, ou por que Chigurh mata tanto, ou por que o Xerife sempre está atrasado e nunca adiantado com relação aos crimes?). As motivações dos personagens têm uma parte hermética. Então o roteiro, talvez confiando nesta hermeticidade, encaminha o final seguindo uma perigosa opção. Eu particularmente odeio filmes com anti-clímax, a não ser que o anti-clímax seja justificado, faça pensar e tal. Aí eu continuo odiando, mas pelo menos reconheço grandeza. O perigo de Onde os Fracos... está em ele fornecer um desfecho que alguns poderão classificar como um profundo e bem pensado estudo sobre uma série de coisas, e outros poderão dizer, com a mesma legitimidade, que é preguiçoso e até meio vagabundo.

Pelo desempenho do elenco, direção competente, diálogos bons e principalmente pela opinião de todo mundo que tem o poder de conferir grandes prêmios, mesmo que às vezes soe como "Tá, toma e não me enche mais o saco", dou, meio emburrado, um passo de confiança, acreditando que os Coen fecharam a história como ela deveria ser concluída. Para sustentar minha teoria, tentarei abrir o cadeado da Caixa de Pandora dos personagens e entender sua construção motivacional.

Primeiro, o xerife Ed Tom Bell na pele de Tommy Lee Jones. Com um magistral olhar triste e perplexo, e voz gasta, quase empurrada para fora da boca à tapa, o ator mostra grande forma. É emocionante para mim ver Tommy Lee novamente fazendo jus à sua competência, e não ser somente o homônimo daquele baterista de rock, ex-marido da Pamela Anderson, sem o direito às cenas caseiras (desconfio que isso tenha ajudado a compor o magistral olhar triste). Tom Bell mantém um afastamento premeditado de todos os acontecimentos. Sempre chega depois, e depois do depois, vai para uma mesa tomar café e abrir um jornal nas notícias policiais, relembrando para o seu pateta ajudante, ou para o ouvido coitado que estiver na frente, os bons tempos onde homens da lei nem precisavam andar armados para controlar o mal da humanidade. Mas são histórias que podem ter sido aumentadas, segundo o próprio Bell. E daí entendemos que seu papel é o do xerife, mas sua missão é ser o alguém que perpetuará no boca-a-boca o duelo entre o cowboy Llewelyn e o bandido Chigurh. Ou seja, ele é o responsável pelo fermento que fará desta história uma lenda.

A aridez do deserto serve para esclarecer o olhar do mundo por Llewelyn Moss. O vaqueiro, um Josh Brolin irretocável, olha com secura a matança que encontra, parece que apenas é uma conseqüência banal de estar vivo. E geralmente o leva a decisões idiotas. Isso é devido à sua condição de ex-combatente do Vietnã? Ou simplesmente por ele ser uma conseqüência estúpida desses tempos estúpidos (creio que a segunda opção englobe a primeira)? Em uma passagem, no começo, para escapar de tiros e pitbulls, Llewelyn atira-se ao rio e é carregado por esse. Essa situação gruda no personagem como metáfora insistente. Toda hora Llewelyn foge, atira e se esconde com a mesma cara do início do filme, simplesmente seguindo o fluxo do rio.

Embora secundário, e sequer mencionado até agora, o personagem Carlson Welles, de Woody Harrelson, tem um papel emblemático sobre as intenções dos Cohen na escolha do final. Ele é o mascador de chicletes que diz saber tudo sobre Chigurh e por isso é contratado para pará-lo. Num filme de cowboy tradicional, Carlson duraria até o fim e quem sabe até seria o mocinho ou o conselheiro do mocinho. A participação de Harrelson é rápida e rasteira, o que leva a deduzir que ele existe para: primeiro, realçar a intenção de virar os filmes de cowboys de ponta-cabeça, e segundo, para mostrar que no Apocalipse as forças do mal tem finalmente seu grande campeão, Chigurh, que só mata, mata e mata.

Anton Chigurh, um Javier Bardem antológico e quase mitológico, corre o risco de se tornar maior do que o próprio filme. Busquei compará-lo a algo que eu já tenha visto antes. Os únicos candidatos vêm da ficção científica, o Exterminador do Futuro e o Predador (não o desrespeitado de hoje, mas aquele que levantava o Schwarzenegger pelo pescoço). E é este último, a criatura do espaço, que mais se aproxima do modus vivendi e da onipresença inabalável do psicopata.

Começa pela aparência esquisita. O cabelo lambido de Chigurh, também conhecido como a peruca que apavorou a Família Adams, lhe emoldura uma cara grande e assustadora (uma máscara para respirar oxigênio, já que, de onde ele vem só deve ter enxofre?). Apesar de poderosos, o Predador e Anton Chigurh podem ser feridos. É revelado pela primeira vez que Anton é humano, quando Llewelyn acerta-lhe um tiro e ele acusa o golpe. Mas tal como o caçador espacial, Chigurh para se recuperar usa toda uma tecnologia (conseguida no filme de forma engenhosa), que não é extraterrestre, entanto tem a eficiência de ser usada por quem lida muito bem com seu ofício. Ambos os personagens se justificam através de códigos de honra. Enquanto o Predador matava sozinho e com o que dispunha porque queria valorizar os ossos humanos como troféu, Chigurh persegue vítimas para dar uma escolha a elas, não de sabedoria, mas de sorte. Num mundo absurdo do jeito que está, por que a morte não pode começar por um simples cara e coroa? E a vítima ainda fica sabendo que morrerá por capricho.

Os dois, óbvio, não são idênticos. Porém, a principal diferença entre Predador e Anton Chigurh é filosófica. O Predador já se mostrou finito, desde que encare as pessoas certas nos lugares certos. Chigurh parece que vai, vai, e vai, sem encontrar ninguém à altura. Creio que ele evoluirá até descobrir que cara e coroa são duas faces da mesma moeda, e, portanto, encerrará sua oferta de viver ou morrer e ficará somente com a opção de a vítima morrer, unindo o útil ao agradável para ele. E sob essa nova perspectiva continuará indo, indo e indo. Um dia, disparará sua arma de pressão uma última vez, pois ninguém mais restará. Então Anton Chigurh sentará numa poltrona, erguerá as pernas para não sujar suas botas com o sangue do corpo tombado à frente, olhará para a câmera e revelará quem foi sua derradeira vítima parafraseando um famoso filósofo alemão.

"Deus morreu".


ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (No Country for Old Men, 2007)

Direção: Ethan e Joel Coen.

Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Woody Harrelson, Tommy Lee Jones, Kelly MacDonald.

COTAÇÃO: ****