A COMPLEXA LIBERDADE SELVAGEM
Alexandre Mesquita
 
 
Um sonho. Entrei num armazém abandonado em que havia um helicóptero recém abatido na porta. Encontrei uma moça manejando uma metralhadora de grosso calibre, entrincheirada atrás de um sofá. Perguntei o que significava aquilo e ela, apontando a arma para mim, revelou-se Branca de Neve. Deus disse: " faça-se a luz", mas não disse que o Homem tinha de pagar por ela no final do mês, filosofou. Havia uma conta de luz de valor elevado no chão ao seu lado. Com voz raivosa, completou que não se pode confiar o secador de cabelos aos anões - Dengoso era o que mais gastava. Nossa!, exclamei, saindo de fininho com a desculpa que seria interessante explorar melhor o armazém e seus três metros quadrados. Nesse instante, Branca de Neve começou a disparar contra a porta e janelas, venham desgraçados, venham, é só isso que vocês conseguem fazer? Há há há. Tudo silenciou. Acho que os anões a mataram e/ou vice-versa.

O mundo é muito conto de fadas até chegar a hora de rachar as contas.

Contas, compromissos, sociedade urbana, prisão.

Na época, interpretei o sonho como meu subconsciente celebrando o rito de passagem da adolescência para a fase adulta. Hoje ele me parece guardar uma simbiose temática com o filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, EUA, 2007) de Sean Penn, baseado no livro de John Krakauer.

Nele há muitas frases insistentes sobre as vantagens de viver na natureza. A natureza é a verdadeira vida, ser livre é estar na natureza, etc., coisas que eu mesmo já sabia aos cinco anos de idade, quando queria jogar bola fazendo dois limoeiros de trave, nos quais às vezes eu tinha de dar uns pontapés para as bolas caírem, detalhe, isso sem a permissão do vizinho, e no quintal do próprio, que às vezes eu dava uns pontapés também. Os diálogos naturebas fazem o filme correr o risco de ser chamado de eco-auto-ajuda. Até, se for o caso, tudo bem. O problema não é o conteúdo, mas sim passar legitimidade, não cair no tipo faça que eu digo, não faça o que eu faço. É fácil falar que a natureza é tudo de melhor, difícil é sair da poltrona confortável, fazer algo, tomar uma atitude. Pois na tela conhecemos um cara que, caminhando por cima de todas as conseqüências, fez.

Christopher McCandless (Emile Hirsch) é um garoto pós-faculdade, que todo dia circula pelo trânsito enlouquecido de Nova York, pelo ar poluído da Cidade do México, pelas favelas de Rio e São Paulo e outros lugares caóticos contidos dentro dele mesmo. Pela transição brutal chamada grito de liberdade, largou o futuro determinado pelo pai (William Hurt), autoritário e automático (o qual o filme insiste em apontar como o grande causador), e pela mãe (Marcia Gay Harden), submissa e de aparências, e adotou por novo nome Alexander Supertramp (traduzindo o sobrenome: "Supervagabundo"). Com vinte e dois anos, mochila nas costas, mergulhou nos EUA pregando a beleza pura e a liberdade oxigenada dos sem-vínculos, dos sem compromisso eleitoral, dos sem conta de luz. Apenas ele e a natureza sem fronteiras - bem, um emprego de vez em quando para poder viver com mais tranqüilidade na natureza sem fronteiras. Chris encontra os mais variados personagens e situações, e vai colhendo tudo sob forma de aprendizado, alguns bacanas, outros duros, mas todos o ajudando a trilhar a peregrinação para seu grande sonho, viver meses sozinho no Alasca, a liberdade total enfim. Paralelamente à trajetória de Chris, acompanha-se através da irmã (Jena Malone) o drama da família, que o tratava feito um boneco de controle remoto gastador de pilhas, e que se viu órfã quando ele botou a mochila nas costas. O amor familiar pelo filho brotou tarde demais.

Na Natureza Selvagem marca o quarto trabalho de Sean Penn na direção de um longa-metragem, sendo que ele também escreveu o roteiro deste. Ao manobrar um filme com inclinações para cair facilmente no politicamente correto banal - até em alguns momentos cai -, personagem principal destilando papos ingênuos demais, o grande ator foi muito feliz na opção de mostrar que a palavra selvagem, se por um lado simboliza a competitiva e difícil vida urbana de hoje, por outro pode ser mais dura e cruel quando fala dela mesma, a própria vida na natureza.

A narrativa off em primeira pessoa de Christopher, pautada por uma fluência poética e dividida em capítulos de fases de sua vida, delineia com louvor as jornadas exterior e interior do personagem. Paralelamente conhecemos os pensamentos da irmã, contando o lado da família. Há um grande trabalho dos atores, todos exemplares, sem exceção.

Uma obra que transpira legitimidade por ser dona de fatos reais contados de uma maneira que respeita a vocação de cada seqüência. Muitas são lentas, mas não modorrentas. Os personagens secundários ajudam, afagam, revelam, guardam segredos, dão conselhos, e fazem tudo isso porque estão pedindo ajuda também.

Tive outro sonho e descobri que a Branca de Neve não morreu, simplesmente vendeu a metralhadora para pagar a conta. Onde quer que a realidade esteja, ela é dura e, paciência. É a moral do filme. Mas há o trunfo da liberdade, sim. Está subliminar, conquistada nas entrelinhas. O velho esquecido de si mesmo que de repente sobe uma montanha, o casal de hippies quase separado que respirou o ar da praia, lembrou porque era hippie e deu-se uma segunda chance, a excursão do colégio na floresta onde o garoto não teve coragem de fugir com os colegas para mergulhar no rio, dizendo "azar" para a carraspana que tomaria depois, o inacreditável caso no luau onde a garota mais bonita e popular de todas de repente deu bola para o nerd, que ficou aterrorizado com a sorte e não soube o que fazer. Possibilidades que surgiram para os velhos, hippies, nerds, homens de negócios contidos dentro de cada um de nós, mas que foram levadas ao extremo por alguém que se intitulou Supervagabundo.



NA NATUREZA SELVAGEM (Into the Wild, EUA, 2007)

Direção: Sean Penn.

Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Hal Holbrook, Jena Malone, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart.

Cotação: ****