CARONA FURADA
Ricardo Rangel
 
 

O que dizer desta refilmagem de "A Morte pede Carona" (The Hitcher, 2007), clássico dos anos 80 com Rutger Hauer e C. Thomas Howell, que surpeendeu a uma geração de cinéfilos? Não há nada, absolutamente nada de bom, a dizer. Não sou contra refilmagens, pelo contrário até, creio que na absoluta falta de criatividade dos roteiristas de suspense e terror atuais - e já faz um tempo que é assim - , um bom remake até é válido, como foi o caso de "O Massacre da Serra Elétrica", por exemplo. Este, quase uma exceção dentre os tantos sofríveis que tivemos que aturar, como "A Profecia", "Horror em Amityville", e até o "Psicose" do Gus Van Sant, que apesar de bom diretor em outros filmes, não acrescentou nada com a sua refilmagem.

Mas, fazer uma bomba destas, com atores péssimos e sem expressão alguma, roteiro fraquíssimo, e sem emoção qualquer que prenda o espectador, aí já é demais! Este "A Morte Pede Carona" é tudo de ruim: em si mesmo, o filme é lamentável, e na comparação com o original, então, nem se fala (aliás, não há como comparar com o original, em termos de qualidade). Para piorar a situação, a maioria das cenas foram literalmente copiadas mesmo (lembrei-me do caso "171" versus "Nove Rainhas", apesar do remake não ser um mau filme, foi feito no esquema "copiar e colar"... a diferença é aquele tinha atores mais que razoáveis, como John C. Reilly, Maggie Gyllenhaal e Diego Luna), e outras levemente alteradas, porém sem o menor sentido.

O enigmático caroneiro psicopata John Ryder, interpretado magistralmente no original pelo então ótimo Rutger Hauer - na época, em plena forma e no auge da carreira, com grandes atuações e sucessos como o replicante caçado por Deckard em "Blade Runner", e também com atuação marcante em "O Feitiço de Áquila" - , que sugeria uma estranha relação com Jim Halsey (C. Thomas Howell, jovem astro de uma geração rica que acabou caindo num certo ostracismo das telas logo depois), dá lugar desta vez ao insosso, sonolento e patético Sean Bean (o Boromir da trilogia "O Senhor dos Anéis"), que, com o perdão do trocadilho, roda e derrapa solenemente no papel. Como Jim Halsey, está o também inexpressivo Zachary Knighton (um clone piorado e feioso de Ashton Kutcher), que nesta "versão" viaja com a chata namorada Greice (Sophia Bush, uma Débora Secco ianque), diferentemente do Halsey genuíno, que não tinha que aturar conversas tão ridículas e vazias no interior do seu carro - um modelo clássico dos anos 80.

Nem vou dizer que destruíram o original, porque este "filme" não deveria ser comparado ao mesmo, exceto pela história e pelo título: por si mesmo, é bastante ruim, e na comparação, simplesmente não existe. Não assista a isto, fique com o legítimo: a refilmagem é cópia de qualidade duvidosa, sem talento, sem emoção, sem nada a acrescentar ou a dizer. Que a Platinum Dunes, produtora encabeçada por Michael Bay (que já foi mais caprichoso no passado) como um de seus associados, e outras companhias que também adoram fazer refilmagens, nos poupem de coisas assim. Na busca por grana, a falta de criatividade às vezes se associa com a incompetência: escalar um novato como Dave Meyers para diretor de um longa é aposta de risco, que aqui não vingou. O espectador mais atento está cansado disso, e não tem mais tempo e dinheiro a perder.

Criem, pensem, façam coisas diferentes e inovadoras... não parece tão difícil assim. E se querem encher seus bolsos de dinheiro, senhores produtores hollywoodianos, pelo menos que o façam dignamente, e não abusando da paciência e da boa vontade do seu público.

A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher, 2007)

Direção: Dave Meyers.

Elenco: Sean Bean, Zachary Knighton, Sophia Bush.

COTAÇÃO: *