O CINEASTA E OS ESCRITORES DA ALMA -
UMA PEQUENA INCURSÃO *
Ricardo Rangel
 
 

Ingmar Bergman reinventou o universo mágico, onírico, de "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust com o seu tocante "Morangos Silvestres" ("Smultronstället"), de 1957, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim do ano seguinte. As semelhanças entre ambos, um deles talvez a maior, ou das maiores, densas e intelectivas obras escritas da literatura ocidental, e o outro um dos filmes mais ensimesmados e introspectivos da história do Cinema (e cinema de verdade, com fortes influências da vanguarda mais efervescente do expressionismo alemão, que teve seu auge na década de 20), não são poucas. Pode-se até, guardadas as devidas proporções, logicamente e dentro do contexto pretendido, arriscar-se a dizer que "Morangos Silvestres" é, em parte, uma das essências de "Em Busca do Tempo Perdido" transposta para a telona.

A trajetória do médico e professor universitário sueco Isak Borg - vivido pelo ator também sueco Victor Sjöström - que, na velhice, em uma viagem à cidade de Lund, para onde deve se deslocar a fim de receber um título honorífico da universidade local, recorda sua vida passada e seus momentos mais felizes e mais tristes, lembra em muito o narrador de "Em Busca do Tempo Perdido", alter-ego proustiano, a quem o escritor francês anima personagisticamente para contar o vasculhamento reminiscência por reminiscência e os seus aspectos na psiquê humana. Esses fatos idos, perdidos no tempo, mas trazidos à memória através da imaginação e do processo criativo mental mais elegante e vívido, tanto nas páginas dos livros quanto nas imagens em movimento e nos diálogos profundos do filme, nessa analogia forçada com "Smulstronstället - Morangos Silvestres". O que se procurará mostrar, embora minimamente, daqui em diante é essa relação e o quanto talvez Ingmar Bergman tenha utilizado a obra máxima de Proust para ilustrar seus devaneios, incursões e perscrutações idiossincráticas através dos seus personagens e suas indagações mentais.

Um dos pontos altos de "Morangos Silvestres" é o sonho que o professor Isak tem: resolve, influenciado pelo mesmo, ir de carro, e não de avião, para percorrer o caminho até Lund, onde irá receber o prêmio. Essa decisão é cabal no contexto bergmaniano: ao percorrer todo o caminho por via terrestre, Isak Borg faz como o já vivido personagem proustiano em "O Tempo Redescoberto", além de tomos fundamentais de sua magnânima obra, como "O Caminho de Swan" e "A Sombra das Raparigas em Flor": relembra sua infância, os passeios nos Campos Elísios com a empregada Françoise, os encontros secretos nos mesmos Champs Elysées com Gilberte, as andanças pelo caminho de Guermantes, e a paixão adolescente por Albertine, tudo permeado pela família Swan e os altos círculos parisienses, bem como as paisagens dos balneários de Balbec e de Combray, além de notar a região de Alsácia-Lorena.

O universo proustiano é riquíssimo em detalhe e descrição dos momentos do passado, que ao serem relembrados, adquirem na memória uma vivacidade tal qual o feixe perceptual humano de transformar impressões em idéias, em sua intensidade. Assim, do ponto de vista perceptual, percorrer de uma impressão ida, gasta pelo tempo, em uma idéia atual, ou da idéia passada e já relembrada e vivida tantas vezes, para uma impressão atual de um universo onírico presente, é algo que só uma mente de quem viveu tantos momentos em sua existência, e os guardou ardentemente, pode lembrar e reminiscer como imagem mental, tornando vívida estas cenas.

O pesadelo do Professor Borg o faz confrontar a morte, objetivo principal das páginas finais e derradeiras de "O Tempo Redescoberto", volume final de "Em Busca do Tempo Perdido": o alter-ego de Proust também sente a presença deste mal metafísico inevitável, e caminha ao encontro do mesmo ao concluir sua obra-prima. Ao "ver" mentalmente Sara colhendo morangos no jardim de sua casa (Sara foi uma paixão adolescente de Borg - aqui interpretada pela atriz Bibi Andersson - como Albertine fora para o narrador proustiano), o professor tem nesse momento a transfiguração atemporal e eterna de seu momento existencial mais mágico e atual: num estado mental transcendente espacial e temporalmente, os sentimentos e introspecções estão presentes, onde passado, presente e o porvir fundem-se numa única e inefável realidade ficcional que é, no fundo, o momento vivido, a perpetuação presente omnitemporalmente de todos os momentos fundidos num só. Assim é com Proust também, e haveria muito, mas muito mesmo a dizer a mais aqui, porém encerro este rápido ensaio citando e comentando umas das tantas frases de um dos maiores contistas, escritores e ficcionistas do século XX que é Jorge Luis Borges, cuja literatura lembra muito a proustiana, especialmente a de não-ficção: "Todo encontro casual é marcado".

Este talvez seja um dos motes fundamentais de todas as inspirações bergmanianas trespassadas em "Morangos Silvestres", bem como está presente também em Proust. Que a memória mantenha viva em nossas mentes, gênios sagrados com suas idéias brilhantes como Borges, Proust e Bergman, pois sem eles a literatura e o cinema perdem, e muito. Com eles vivos dentro de nossas mentes e influindo em nossos universos imaginativos interiores, nada importa tanto, senão a busca incessante pelo tempo perdido, redescoberto em nosso íntimo e na profundidade de nosso ser.

Borges também disse: "A alegria de compreender é maior do que a alegria de ver e de viver". Para o intelectual contemplativo, nisto reside um ideal - entender a realidade que o cerca, mesmo que esta seja não existente externamente, mas que tenha conteúdo mental no seu âmago, de modo privado. Algo próprio a um mundo particular de sensações e lembranças, de impressões e idéias, enfim, da sua vida enquanto um ser que pensa e sente, que pensa com as paixões da alma e sente com os desígnios mentais.

* Homenagem a Ingmar Bergman, Marcel Proust e Jorge Luis Borges

MORANGOS SILVESTRES (Smulstronstället, 1957)

Direção: Ingmar Bergman.

Elenco: Victor Sjöström, Bibi Andersson, Ingrid Thulin.