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Ingmar Bergman reinventou o universo mágico, onírico,
de "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust
com o seu tocante "Morangos Silvestres" ("Smultronstället"),
de 1957, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim
do ano seguinte. As semelhanças entre ambos, um deles
talvez a maior, ou das maiores, densas e intelectivas
obras escritas da literatura ocidental, e o outro um
dos filmes mais ensimesmados e introspectivos da história
do Cinema (e cinema de verdade, com fortes influências
da vanguarda mais efervescente do expressionismo alemão,
que teve seu auge na década de 20), não são poucas.
Pode-se até, guardadas as devidas proporções, logicamente
e dentro do contexto pretendido, arriscar-se a dizer
que "Morangos Silvestres" é, em parte, uma das
essências de "Em Busca do Tempo Perdido" transposta
para a telona.
A trajetória do médico e professor universitário sueco
Isak Borg - vivido pelo ator também sueco Victor Sjöström
- que, na velhice, em uma viagem à cidade de Lund, para
onde deve se deslocar a fim de receber um título honorífico
da universidade local, recorda sua vida passada e seus
momentos mais felizes e mais tristes, lembra em muito
o narrador de "Em Busca do Tempo Perdido", alter-ego
proustiano, a quem o escritor francês anima personagisticamente
para contar o vasculhamento reminiscência por reminiscência
e os seus aspectos na psiquê humana. Esses fatos idos,
perdidos no tempo, mas trazidos à memória através da
imaginação e do processo criativo mental mais elegante
e vívido, tanto nas páginas dos livros quanto nas imagens
em movimento e nos diálogos profundos do filme, nessa
analogia forçada com "Smulstronstället - Morangos
Silvestres". O que se procurará mostrar, embora
minimamente, daqui em diante é essa relação e o quanto
talvez Ingmar Bergman tenha utilizado a obra máxima
de Proust para ilustrar seus devaneios, incursões e
perscrutações idiossincráticas através dos seus personagens
e suas indagações mentais.
Um dos pontos altos de "Morangos Silvestres" é
o sonho que o professor Isak tem: resolve, influenciado
pelo mesmo, ir de carro, e não de avião, para percorrer
o caminho até Lund, onde irá receber o prêmio. Essa
decisão é cabal no contexto bergmaniano: ao percorrer
todo o caminho por via terrestre, Isak Borg faz como
o já vivido personagem proustiano em "O Tempo Redescoberto",
além de tomos fundamentais de sua magnânima obra, como
"O Caminho de Swan" e "A Sombra das Raparigas
em Flor": relembra sua infância, os passeios nos
Campos Elísios com a empregada Françoise, os encontros
secretos nos mesmos Champs Elysées com Gilberte,
as andanças pelo caminho de Guermantes, e a paixão adolescente
por Albertine, tudo permeado pela família Swan e os
altos círculos parisienses, bem como as paisagens dos
balneários de Balbec e de Combray, além de notar a região
de Alsácia-Lorena.
O universo proustiano é riquíssimo em detalhe e descrição
dos momentos do passado, que ao serem relembrados, adquirem
na memória uma vivacidade tal qual o feixe perceptual
humano de transformar impressões em idéias, em sua intensidade.
Assim, do ponto de vista perceptual, percorrer de uma
impressão ida, gasta pelo tempo, em uma idéia atual,
ou da idéia passada e já relembrada e vivida tantas
vezes, para uma impressão atual de um universo onírico
presente, é algo que só uma mente de quem viveu tantos
momentos em sua existência, e os guardou ardentemente,
pode lembrar e reminiscer como imagem mental, tornando
vívida estas cenas.
O pesadelo do Professor Borg o faz confrontar a morte,
objetivo principal das páginas finais e derradeiras
de "O Tempo Redescoberto", volume final de "Em
Busca do Tempo Perdido": o alter-ego de Proust também
sente a presença deste mal metafísico inevitável, e
caminha ao encontro do mesmo ao concluir sua obra-prima.
Ao "ver" mentalmente Sara colhendo morangos no jardim
de sua casa (Sara foi uma paixão adolescente de Borg
- aqui interpretada pela atriz Bibi Andersson - como
Albertine fora para o narrador proustiano), o professor
tem nesse momento a transfiguração atemporal e eterna
de seu momento existencial mais mágico e atual: num
estado mental transcendente espacial e temporalmente,
os sentimentos e introspecções estão presentes, onde
passado, presente e o porvir fundem-se numa única e
inefável realidade ficcional que é, no fundo, o momento
vivido, a perpetuação presente omnitemporalmente de
todos os momentos fundidos num só. Assim é com Proust
também, e haveria muito, mas muito mesmo a dizer a mais
aqui, porém encerro este rápido ensaio citando e comentando
umas das tantas frases de um dos maiores contistas,
escritores e ficcionistas do século XX que é Jorge Luis
Borges, cuja literatura lembra muito a proustiana, especialmente
a de não-ficção: "Todo encontro casual é marcado".
Este talvez seja um dos motes fundamentais de todas
as inspirações bergmanianas trespassadas em "Morangos
Silvestres", bem como está presente também em Proust.
Que a memória mantenha viva em nossas mentes, gênios
sagrados com suas idéias brilhantes como Borges, Proust
e Bergman, pois sem eles a literatura e o cinema perdem,
e muito. Com eles vivos dentro de nossas mentes e influindo
em nossos universos imaginativos interiores, nada importa
tanto, senão a busca incessante pelo tempo perdido,
redescoberto em nosso íntimo e na profundidade de nosso
ser.
Borges também disse: "A alegria de compreender é
maior do que a alegria de ver e de viver". Para
o intelectual contemplativo, nisto reside um ideal -
entender a realidade que o cerca, mesmo que esta seja
não existente externamente, mas que tenha conteúdo mental
no seu âmago, de modo privado. Algo próprio a
um mundo particular de sensações e lembranças, de impressões
e idéias, enfim, da sua vida enquanto um ser que pensa
e sente, que pensa com as paixões da alma e sente com
os desígnios mentais.
* Homenagem a Ingmar Bergman, Marcel Proust
e Jorge Luis Borges
MORANGOS SILVESTRES (Smulstronstället,
1957)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco: Victor Sjöström, Bibi Andersson, Ingrid
Thulin.
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