É bem certo que a Saga dos Mitos e das Histórias
Fantásticas acompanha o homem desde os tempos das
cavernas quando o Mistério em relação ao Temor e a
Magia ainda eram sentimentos primários sujeitos à
configuração dos efeitos naturais e inusitados. Com
o aparecimento das primeiras Cidades, à medida que
os núcleos urbanos se desenvolviam, os Ritos Iniciáticos
Religiosos ganhavam cada vez mais contornos complexos.
Desde então, a tradição da Oralidade das Histórias
Mitofantásticas, também conhecidas como Jornadas Míticas
de Deuses e Heróis (Arquétipos), narradas por Aedos,
Xamãs e Sacerdotes atravessaram o tempo de gerações
a geração, chegando à Modernidade através da
Literatura, depois pelas Telas do Cinema...
Mas, o que são Arquétipos Míticos? Enfim, são
questões que tentaremos responder daqui por diante...
I. Mito
É bem verdade que Mitologia antecede a invenção do Cinema, porém,
também é verdade que o Cinema é, por excelência, uma
Arte Narrativa que costuma Contar Histórias. Então
é hora de vermos como o Cinema e a Mitologia se entrelaçam.
Concernentemente, se o Cinema é um meio de Contar uma História,
por sua vez, o Mito é uma forma de Narrativa Fantástica
que aparece em versões folclóricas, preceitos religiosos,
lendas antigas, contos e histórias fabulosas e parábolas
pedagógicas cujas personagens são animadas pelos xamãs,
Aedos, sacerdotes, Poetas, Escritores, Sábios e Prosadores
junto à imaginação do ouvinte/leitor.
No caso da Mitologia Heroica, quando contada,
ambos, narrador e ouvinte, acabam sendo convidados
a penetrar e desvendar
e aventurar-se nos segredos e nos mistérios dos Ritos
de Passagens que perfazem a caminhada do Herói desde
o Mundo Comum até sua Jornada ao âmago do Mundo Mágico.
Contudo, há outras definições compreensivas acerca da palavra
Mito. Devido à sua multiplicidade de sentidos,
significados de Flexibilidades e Variações, conforme
o ramo de conhecimento escolhido, o Mito, aparece
também um tipo de pensamento de natureza Animista
ou o Sonho Mágico. O Mito, igualmente a um modelo
explicativo, é uma Visão de Mundo combinada ao Estilo
de Vida aplicada às comunidades tradicionais
com propósitos não só de almejar formas de controles
sociais e religiosos correlatos à busca de
assegurar a manutenção das generalidades culturais,
tanto do passado quanto do presente, junto às gerações
futuras.
I.a. Função do Mito
O mitólogo Joseph Campbell, em seu livro O Herói de Mil Faces, nos lembra que a maioria das tradições mitológicas
incide na montagem de uma tecnologia narrativa semelhante
a outras representações comuns e universais tais como:
ritos de passagens, arquétipos fantásticos, formas
de aprendizagens, visões de mundo, princípios filosóficos,
ocultismos xamânticos, preceitos religiosos, simbologias
secretas, pedagogias fantásticas, mundos misteriosos
entre outros elementos da imaginação do homem ao longo
do tempo.
I.b. Segredos do Mito
Para compreensão dos curiosos, o Mito não é uma
ideologia que antecede ao Logos tal qual assinala
boa parte literatura especializada, o Mito é outra
forma de saber inspirado nas práticas do dia-a-dia.
A princípio, importantes estudos revelam que
em todo mundo, em todas as épocas e, sob as mais diversas
circunstancias, a Mitologia se originou e floresceu
como uma forma de narrativa mágica com finalidades
de explicar, ocultar, controlar, divertir, amedrontar,
ensinar e dominar a vida e a morte dos povos antigos.
Enfim, sob o efeito de sua manifestação, o Mito acabou
inspirando os primeiros traços de organização coletiva
do gênero humano.
Na essência do Mito reside o mistério da experiência
humana dentro de um tempo cíclico cujo passado e o
presente se integram em detrimento das gerações futuras.
No campo da psicanálise, o Mito incide no estudo de
decifração do sonho. Para o psicanalista, o Sonho
Mítico pode ocultar/revelar segredos do limiar destinatário
da longa jornada do homem. Mas, levando em conta a
estrutura de estudo simbólica da psicanálise, o mistério
do Mito não se entrega facilmente; desvendar seus
segredos exige o sacrifício dos envolvidos.
I.c. Formas de Mito
As mais diversas tradições Mitológicas
se apresentam de forma Cosmogônica (origem), Teogônica
(nascimento dos deuses), Épica (fundação), Alegórica
(costumeira), Ilustrativa (identidade nacional).
Embora o Mito antigo apresente amplas
variações em termos de ambiente, povos, hábitos, costumes,
rituais e fabulísmo, em muitos casos, suas semelhanças
estão combinadas à busca da mesma resposta: o destino
do homem. Acrescentado a isto, o Mito procura explicitar
a cosmogonia de um povo, as crenças na teogônicas
a glorificação da origem e da fundação junto ao esforço
de perpetuação das narrativas fantásticas que contam
sobre a força e a magnitude destinatárias dos deuses
e dos heróis nativos imantados de vivacidades e bravuras.
Isto é, o Mito deve ser animado
com a imaginação. No entanto, sob muitos aspectos,
advertimos que a recorrência a um Mito arcaico será
sempre algo complexo e extraordinário para os iniciados.
Nesse sentido, como parte simbólica do gênero da criação
humana, no sentido ideal e literal, as Narrativas
Mitológicas se apresentam igualmente a um sistema
de representações cujas possibilidades podem levar
o individuo a conhecer outras dimensões do universo
histórico, literário, psicológico, linguístico,
sociológico, antropológico e artístico do gênero humano.
Uso do Mito
A psicanálise junguiana diz que o mito na modernidade deve ser
animado com a imaginação. No entanto, sob muitos aspectos,
advertimos que a recorrência a um mito arcaico será
sempre algo complexo e extraordinário para os iniciados.
Parte simbólica do gênero da criação humana, no sentido
ideal e literal, as narrativas mitológicas se apresentam
tal qual um sistema de representações cujas possibilidades
podem levar o individuo a conhecer outras dimensões
do universo histórico, literário, psicológico, lingüístico,
sociológico, antropológico e artístico.
I.d. Decifrando Mito
Falando em Mito, comecemos com um Bom Desafio:
ERA UMA
VEZ UMA JOVEM PRINCESA QUE RECEBERA DO SEU PAI, O
REI, UMA BOLA DE CRISTAL DE PRESENTE NO DIA DO ANIVERSÁRIO
DOS SEUS QUINZE ANOS DE IDADE... ERA UMA BOLA GRANDE
E MISTERIOSA. DENTRO DELA HAVIA CRISTAIS CINTILANTES
QUE ACENDIAM E APAGAVAM DE ACORDO COM O ESTADO DE
GRAÇA DA PRINCESA... ELA GOSTOU DO PRESENTE, PORÉM,
NÃO ENTEDERA A ADVERTÊNCIA DO SEU PAI: ‘FILHA, NÃO
PERCA ESTA BOLA NUNCA... NUNCA...’. UM DIA, A PRINCESA
FOI BRINCAR NA FLORESTA À BEIRA DO LAGO. POR
DESCUIDO, A BOLA CAIU NO LAGO E DESCEU PARA A ESCURIDÃO
DO FUNDO DO LAGO... A PRINCESA CHOROU PORQUE NÃO HAVIA
COMO RESGATÁ-LA... ELA FICOU TÃO TRISTE QUE COMOVEU
A ATENÇÃO DO SAPO QUE ESTAVA NA MARGEM, ACOMPANHANDO
TUDO. PREOCUPADO COM A PRINECESA, O SAPO LHE PERGUNTOU:
SE EU RECUPERAR A BOLA, VOCÊ ME LEVA PARA O SEU CASTELO?
A PRINCESA, DE TÃO AFLITA, POUCO ESTRANHOU POR QUE
AQUELE SAPO SABIA FALAR. TEMENDO SER PUNIDA PELO PAI
POR TER PERDIDO A BOLA, ELA LHE RESPONDEU: "CLARO!
SE PEGAR A MINHA BOLA, LEVO VOCÊ COMIGO PARA O CASTELO...”
O SAPO MERGULHOU E TROUXE A BOLA ATÉ A PRINCESA. DEPOIS
DE SE CERTIFICAR QUE ERA A SUA BOLA, A PRINCESA FOI
EMBORA SEM CUMPRIR SUA PROMESSA COM O SAPO...
II. Aberturas de Histórias
Valendo para todos os estilos de
histórias, a Abertura, isto é, o Começo, é sempre
um momento delicado. Uma situação frágil e muitas
vezes inusitada... A abertura de uma narrativa, mítica,
literária ou cinematográfica, pode tanto chamar atenção
do público quanto provocar uma reação inversa. O certo
é que não há uma fórmula ideal para construção de
Aberturas de histórias.
O Começo de uma história pode ser
apresentado de duas modalidades: Abertura Tradicional
e Abertura de Prólogo. Todavia, é importante destacar
que ambos os formatos de Aberturas também sofrem algumas
contingências de Flexibilização e de Variações
conforme a capacidade criativa do autor: Essencialmente,
são esses os Modelos de Aberturas: Abertura Tradicional
Livre e Trânsito, Abertura de Prólogo em formas de
Thriller, Alegórica e Metonímica.
II.a.
Abertura Tradicional
Segundo os mais renomados escritores,
seguidos de experientes roteiristas de Hollywood,
o Começo de uma história é sempre um desafio à imaginação.
No caso da Abertura Tradicional, há de fato três tipos
de Flexibilização
e de Variação,
trata-se do começo de uma história que identificamos
como: Abertura Livre e Panorâmica. A abertura
tradicional mais freqüente é do tipo Livre. A história
começa com o velho clichê reconhecido: ...Era uma
vez... Uma cidade... Uma pessoa... Um bichinho...
No caso do cinema, basta ver como se tornou comum
em alguns filmes o Começo da história com uma tomada
Panorâmica da cidade, para logo em seguida focar o
Protagonista em seu ambiente (Mundo Comum). No caso
da Abertura em Trânsito, trata-se de uma Variação
que começa realçando outros ambientes e/ou outros
personagens antes de apresentar o mocinho da história.
II.b.
Abertura de Prólogo
As Aberturas de Prólogos são apresentações
de contingências estruturais associada diretamente
ao clímax sujeito a trama da história.
O conjunto de Variação e de Flexibilização
dos Prólogos se combina em três formatos de seqüência
de Aberturas: Thriller, Alegoria e Metonímica.
Uma
vez reconhecida a Abertura Tradicional com as suas
Flexibilizações e Variações, passemos então a identificar
o que vem a ser a Abertura de Prólogo. A criação dos
prólogos tem sua origem na literatura ficcional, mas,
coube aos mestres roteiristas hollywoodiano adaptá-las
ao estilo cinematográfico. O Prólogo do tipo Thriller
é uma forma de Começo de história que precipita o
ponto nevrálgico da trama, o clímax. É a seqüência
inicial da história que cuida de antecipar o ponto
culminante do enredo. Nesse tipo de Abertura, rompe-se
de imediato na tela uma ação vertiginosa que parece
inusitada, mas será apresentada no Final da história.
Sua função não só a de chocar e preparar o público
do que estar por vir, mas também a de fisgar o expectador.
As aberturas dos filmes do Agente Secreto 007, de
Indiana Jones, de O Resgate do Soldado Ryan,
são exemplos típicos desse gênero.
O prólogo do tipo Alegoria,
que significa “Dizer sobre o Ser do Outro de Outra
Forma”, é um Começo de história mais sofisticado.
Mais refinado. Requer do expectador mais atenção.
Nos prólogos Alegóricos incidem outras implicações
reflexivas que antecipam os valores que vão nortear
a estrutura da história. Geralmente são teses filosóficas,
lições de vida, jornadas de experiências, condutas
heróicas, homenagens memoriais, etc. A película Quero
Ser John Malkovich é um excelente exemplo desse
porte.
Antes de ser identificado como uma
modelo de abertura de histórias vale dizer que, Metonímia,
é um conceito que expressa a Figura de Linguagem,
a qual consiste no emprego de uma palavra por outra
em relação a uma forma de proximidade junto à conjugação
de valores da ação do sujeito. Exemplo: “a minha função
nesse escritório é de carregador de piano...”
Isto pode explicar porque tanto os
Prólogos Alegóricos e Metonímicos estimulam o expectador/leitor
a fazer um exercício de imaginação por toda trajetória
da história. Outro bom exemplo desse tipo de Abertura
pode ser visto no filme Amadeus Mozart.
Todavia, cabe aqui ressaltar que
pode ser comum o expectador confundir Abertura de
Prólogo com outra forma de apresentação conhecida
como Narrativa Expositiva (se trata de uma exposição
narrativa com o objetivo de filosofar, antecipar e/ou
explicar os pontos intricados que compõe as teias
que envolvem a temática da história). Aspectos que
voltaremos a mencionar na segunda parte do texto,
A Jornada Mítica do Herói Hollywoodiano.
II.c.
Características de Prólogos (premissas de contingências)
-
Registrar o lugar e/ou a situação do narrador – Filme:
Mar Adentro.
-
Situar o tempo e o lugar da história – Filme: Guerra
nas Estrelas
-
Referencializar as contingências do passado das personagens
– Filme: Menina de Ouro
-
Lembrar o público de que obra foi inspirada num fato
real – Filme: Munique
-
Provocar impacto ao público - Filme: Guerra
nas Estrelas – Episódio III
-
Chamar a atenção do público para a trama – Filme:
Chinatown
II. Mundo
Comum
O Mundo Comum é por excelência o
lugar onde o Herói está imerso na vida cotidiana.
No Mundo Comum não ainda há a figura do Escolhido,
apenas gêneros de pessoas normais junto aos demais
cenários do dia-a-dia. Neste primeiro momento, tudo
se encontra equilibrado. A representação do mundo
comum pode ser uma cidade, uma vila, uma casa, um
apartamento, um estádio, uma paisagem rural, pode
ser qualquer espaço ou lugar. É o princípio, mas é
deste lugar que sairá o Promovido da história. É neste
universo, aparentemente harmônico, que ocorrem os
ritos de passagens do Ungido do Mundo Comum para o
Mundo Especial.
Outro fator recorrente ao reconhecimento
do Mundo Comum da Metanarrativa Mítica é o de que
toda mudança que ocorre neste universo não é por acaso,
tudo está destinado. No caso dos filmes de aventuras,
há sempre a questão do desvio: mudança de rumo,
percurso inesperado, trajeto interrompido, dúvidas
na encruzilhada. Nesse tipo de narrativa o protagonista
ou é pego de surpresa, muitas vezes fruto de sua escolha,
ou é pego pelos ventos que o sopram para junto do
seu destino.
IV.
Chamado à Aventura
O Chamado à Aventura é uma particularidade da Jornada do Herói
cuja mensagem e/ou aviso o Nubente recebe a convocação
da qual ele desconhece. Ele ainda não está preparado
para prestar tal incumbência, a missão. Ele vai precisar
ser treinado.
IV.a.
Indicadores do Chamado à Aventura
Mensagem (o e-mail que o personagem, Neo, recebe no filme Matrix)
Declaração
(direito dos homens no filme Danton)
Catástrofe
(queda do avião no filme Náufrago)
Notícia
(uma notícia no jornal no filme Ausência
de Malícia)
Fenômeno
natural (as mudanças climáticas no filme O
Dia Depois de Amanhã)
Sobrenatural
(a fita de vídeo que provoca mortes no filme O Chamado)
Fatos
(o segredo que envolve a trama do filme Todos
os Homens do Presidente)
Espírito
de Aventura (a aventura do filme Rei
Leão)
Arrebatamento
(os desvios no filme
Pinóquio)
Necessidade
(a busca do fogo no filme
Guerra do Fogo)
V.
Mundo Especial
A entrada do Herói no Mundo Especial é um momento que merece
toda nossa atenção. Se, no primeiro momento, o ambiente
do Mundo Comum aparenta encontrar-se em um precário
estado de equilíbrio, lembrando que nem sempre as
mudanças do Mundo Comum acontecem de forma abrupta,
em virtude disso, a escalada do Herói no Mundo Especial
será levada aos extremos dos desafios. Em alguns casos,
a passagem do Mundo Comum para o Mundo Especial ocorre
de forma lenta e gradual. Contudo, não devemos esquecer
que é no Mundo Comum que ocorre a gestação, “Ovo da
Serpente”, a “Semente do Mal” de várias formas conforme
a criatividade do autor.
Quanto às mudanças do Mundo Comum, é importante ficar atentos
aos indicadores de transformações que podem ocorrer
com a mudança de climática, a chegada de um estranho,
uma má notícia, uma correspondência, notícias conflitantes,
etc..
Se
o Mundo Comum é o lugar da normalidade, por sua vez,
o Mundo Especial é constituído de várias Dimensões
Perceptivas e Portais misteriosos. No Mundo Especial,
as aparências inocentes podem ocultar inúmeras Entradas
e Passagens cheias de armadilhas perigosas (o conjuto
de sequências expostas na série de filmes Indiana
Jones é um bom exemplo desse expediente). De todo
modo, como já mencionamos, seria prudente lembrar
que não é tão fácil identificar o Mundo Especial,
uma vez que as histórias narradas nem sempre seguem
o mesmo padrão de contingências. Todavia, tornou-se
recorrente, no caso do ingresso do Arquétipo Herói
ao âmago do Mundo Especial, move-se sob duas formas:
Desafio de Limiar e Confronto Final.
Aspectos que trataremos mais detidamente na
Segunda Parte...
VI. Arquétipos Mitológicos
Se a palavra Arquétipo significa "personagem mitológico
que povoa as lendas e as histórias fantásticas do
faz de conta", por sua vez, a mais significativa
descoberta dos estudos decifrados pelo mitólogo Joseph
Campbell, foi à identificação e o mapeamento,
recorrente à padronização e semelhança, de vários
Arquétipos mitológicos constituintes nas mais diversas
mitologias espalhadas mundo afora.
Seguindo o mapeamento dos Arquétipos Míticos, então apontados
na obra de Campbell e, singularmente identificados pelo escritor
Christopher Vogler,as nossas
investigações acabou descobrindo mais quatro Arquétipos:
Aedo, Oráculo,
Receptáculo, Nêmeses e Antagônico.
Também é fato que os Arquétipos estão em toda parte da imaginação
do homem. Pode-se dizer que, onde houve uma Aventura
Mitopoética, há certamente, um Arquétipo. E dependendo
do enredo da história os Arquétipos podem se mostrar
Flexível
e Variável, conforme a criatividade do autor.
Aspecto que demonstraremos daqui por diante.
VI.a. Aedo
O prestígio mágico que confere os mitos
fabulosos as mais antigas tradições sempre foram animados
pelos contadores de histórias, poetas e trovadores
ao redor das fogueiras. Sábios, Xamãs, Sacerdotes,
entre outros homens sagrados, guardavam a função de
manter viva a mandala identitária, religiosa e folclórica
dos seus povos. Contudo, o arquétipo Aedo, na qualidade
de personagem, também aparece em muitas mitologias
de aventuras. Ele é o contador responsável pela reprise
e reinvenção das jornadas dos heróis. Guardião do
passado e as aventuras mitopoéticas, seus rituais
de oralidades compreendiam o ciclo engenhoso hierárquico
de renovação, entretenimento, noções pedagógicas e,
finalmente, a purificação da memória cultural. Um
exemplo ilustrativo dessa manifestação simbólica aparece
no filme Apocalypto dirigido por Mel Gibson.
O que significa o arquétipo Aedo? Significa que nem sempre o Aedo foi um personagem
simbólico, sua figura remonta a longevidade da tradição
da memória oral dos povos pré-letrados.
VI.b. Arauto
O arauto é sempre o agente que precede
a mudança. É ele quem traz a notícia inusitada. Na
qualidade de mensageiro, o arauto tem a responsabilidade
de fornecer informações e motivações ao herói da história.
Sua aparição mitológica demarca o rompimento da tênue
fronteira que separa o mundo comum do mundo especial.
Ele conhece o segredo que abre à porta do limbo. É
a figura que precede os ritos de passagens do herói.
Tal qual um arquétipo do presságio agourento, o arauto
não tem forma definida e pode ser tanto a representação
do bem quanto do mal ou neutro.
Categorias: Bardo: sábio ou artista; Mentor: aliado
o vilão; Voz Narradora; Mensagem: real ou simbólica;
Heroína: real ou imaginaria; Emissário: real ou imaginário;
Fenômeno: sonho ou as condições naturais; Animal:
real ou totêmico; Personagens: aliado ou vilão.
O que significa o arquétipo Arauto? Significa que devemos prestar mais atenção tanto
aos avisos quanto as notícias que nos cercam.
VI.c. Pícaro
O arquétipo do tipo Pícaro é bastante
conhecido do público, está presente em toda narrativa
popular. É conhecido como a personagem do humor. É
uma figura catalisadora entre a Comédia e o Drama.
O ponto de desequilíbrio da história. Agente portador
da notícia, da brincadeira e a desfaçatez. Sua aparição
é demarcada pela perturbação, pela confusão desconcertante.
Ao lado do herói, sua manifestação pantomímica provoca
o riso, a ironia e a crítica reflexiva. O pícaro incorpora
o espírito da vontade e do desejo de mudança. Um bom
exemplo versado da literatura clássica é a personagem
Sancho Pança, o famoso escudeiro de Dom Quixote de
La Mancha.
Categorias: Sensitiva (filme: Ghost); Sobrenatural (filme:
Os Espíritos); Animais (filme: A Sombra
e a Escuridão); Fenômenos Naturais (filme: O
Dia Depois de Amanhã); Aliado
(filme: Guerra nas Estrelas); Adversário (filme:
Zorro) etc.
O que significa o arquétipo Pícaro? O bom-humor é uma boa fórmula de vida.
VI.d. Aliado
Tradicionalmente o Aliado é a figura
amiga que acompanha o herói. O parceiro. Em muitas
histórias o Aliado é o agente catalisador entre o
Mundo Comum e o Mundo Especial. Sua função é a de
testar, orientar, salvaguardar e até de desorientar
as virtudes do Herói em sua caminhada. Há de fato
história em que a figura do Antagônico se torna Aliado
do Herói, ou o inverso. Lembremos que a presença de
vários Aliados numa mesma história, simbolicamente,
remonta a origem Pré-Moderna das Irmandades e das
Confrarias. Mas é bom ter cuidado para não confundir
o Arquétipo Antagônico (Rival) com o Aliado.
Características: Sobrenatural (filme: O Céu pode Esperar); Rival (filme: À Hora
do Diabo); Ajudante (filme: Guerra nas Estrelas);
Sombra (Insônia); Amigo (Máquina Mortífera);
Animal (filme: K9 - Um Tira Especial); Estranho
(filme: 1984); Equipe (filme: A Fuga das
Galinhas); Natureza (filme: Náufrago);
Entidade Mágica (filmes: trilogia Senhor dos Anéis).
O que significa o Arquétipo Aliado? A importância da Amizade e
do Espírito de Cooperação.
VI.e. Camaleão
O
preceito popular que diz “as aparências enganam”,
não apenas um clichê; é, na verdade, uma dádiva mitológica
que perpassa o tempo
Não deve haver equívoco quanto à nomenclatura,
o arquétipo Camaleão, apesar de conseguir assumir
as mais diversas formas e aparências distintas, igualmente
aos mestres dos disfarces, ele não consegue esconder
sua essência. A figura do camaleão está demarcada
pela faceta do inusitado. Muitas vezes, é nele que
o mal se oculta sob a face mais inocente da doçura.
Além do seu poder de desfaçatez, o Camaleão
trás sempre uma carta da manga que só é revelada no
final de cada narrativa. Também conhecido como o elemento
de surpresa da história. A função primordial desta
personagem é a de lembrar ao público que as coisas
nunca são o que aparentam ser.
Para
se ter uma idéia da relação de Variação e Flexibilização
que ocorre com o esse Arquétipo no universo mitopoético,
a representação de mutabilidade do Camaleão, a qual,
sempre se esconde sob o véu da inocência e da lealdade,
não é uma simples camuflagem, ou um disfarce casual,
faz parte de extensão de sua natureza interna.
Na telona do Cinema ou nas Metanarrativas
Míticas, o personagem Camaleão está sempre próximo
do Herói. Atuando oculto sob o efeito de mil faces,
Ele é possuidor de planos secretos e maléficos prontos
a provocar o desvio do caráter quanto à trajetória
da Jornada do Herói. O Arquétipo Camaleão é uma figura
contraditória da história. No convívio aberto, suas
intenções parecem solidárias e ponderadas, mas a coisa
muda quando ele encontra-se com a sua consciência.
Sozinho, suas atitudes se mostram mesquinhas e perversas.
O Camaleão é o Mestre dos Títeres.
Como todos os arquétipos, o Camaleão
também tem seu Rito de Passagem Final, o momento da
Revelação. O Rito de Passagem Final da personagem
Camaleão se caracteriza quando sua imagem real vem
à tona. Quando todos ficam sabendo quem está por trás
das cortinas. Um exemplo clássico da literatura infantil
é a transformação da rainha numa bruxa malvada que
envenena Branca de Neve.
No cinema, a Femele Fatale é um exemplo
clássico de representação versátil desse Arquétipo.
Se de um lado, nos textos sagrado, a versão feminina
do Camaleão aparece, também conhecida como a primeira
Feme Fatale, a representação de Lilit, a filha de
Eva, do outro, na versão masculina, é a figura de
Judas que pode muito bem servir-nos de exemplo.
A figura da Female Fatale ganhou
projeção junto ao público a partir dos enredos que
envolviam triângulos amorosos. Suas intenções ocultas
acabam como o elemento surpresa e desfecho da história.
A imagem da \mulher Camaleão fatale está presente
nas obras de James Mallahan Cain. Contudo, no cinema,
a adaptação estilizada desta personagem coube a dois
roteiristas conhecidos: Dashiell Hammett e Raymond
Chandler. Voltaremos a falar sobre a Femele Fatale
mais adiante.
São poucos os roteiristas de Hollywood
que conseguiram adaptar com êxito este arquétipo feminino.
Um estilo de personagem que ganhou força e peculiaridade
nos filme Noir: O Destino Bate à sua Porta,
Pacto de Sangue, O Falcão Maltês, Casablanca,
A Dama de Xangai, Chinatown, Corpos
Ardentes, Instinto Selvagem, Assédio
Sexual, Veludo Azul, O Sangue de Romeu,
Um Corpo que Cai, Sin City, entre outros.
Categorias: Aliada; Mentor; Antagonista; Esposa; Parceira; Guardiã.
O que significa o arquétipo Camaleão? Cautela no tocante ao mundo que o cerca: as coisas
nunca são o que aparentam ser.
VI.f.
Oráculo
Nas mais vastas narrativas mitopoéticas
a figura do Arquétipo Sagrado também pode assumir
formas Premonitivas. Em geral,
a sua aparição precede a entrada do iniciado ao Mundo
Especial. Considerando o nível de flexibilidade e
variedade, assim como a justaposição literal e metafórica,
que caracteriza os arquétipos mitológicos, a representação
do profeta aparece sob o artifício do Arauto, do Guardião
do Limiar, Mentor, entre outros; acrescentando a isto,
o emblema simbológico do véu sagrado. O profeta é
aquele que prediz o futuro, ainda que sob a forma
do enigma. Em muitas histórias de mitologia fantástica,
o arquétipo do profeta toma a aparência de uma bruxa
premonitivas. A figura do profeta oscila entre o bem
e o mal. Sua função é estritamente profetizar sobre
as encruzilhadas, que esperam o escolhido a herói.
Reza a tradição que a premonição é um dom que poucos seres humanos
possuem, mas ela tem um preço: a solidão e o isolamento.
A princesa Cassandra sonhou com a destruição de Tróia
pelos seus inimigos, mas foi levada ao ridículo pelos
seus compatriotas. Este exemplo sinaliza que a representação
sagrada do profeta místico continua fascinando o público
até os dias de hoje.
O que significa o Arquétipo Oráculo?
Significa que devemos ficar de mente aberta e
prestar mais atenção as nossas intuições.
VI.g. Guardião do Limiar
A figura do Guardião do Limiar está
presente em boa parte da mitologia universal. Eles
são sentinelas das passagens dos desafios.
Podem ser figuras do bem, do mal ou neutras.
São responsáveis pela passagem do mundo comum para
o mundo especial. Um exemplo clássico é a personagem
Caronte da mitologia grega, barqueiro que conduz,
mediante o pagamento de duas moedas de ouro, a passagem
do mundo dos vivos para o mundo dos mortos, Hades.
Na cultura cristã o guardião São Pedro presta à mesma
função.
Categorias: Soldado; Mensageiro; Ajudante; Animal; Porteiro; Barqueiro;
Mágico; Estranho; Transeunte.
O Cinema Hollywoodiano
tem explorado com freqüência dois Arquétipos de Guardião
do Limiar: Mítico e Clássico.
•
Categorias: Soldado; Mensageiro; Ajudante; Animal;
Porteiro; Barqueiro; Mágico; Estranho; Transeunte.
•
O que significa o arquétipo Guardião do Limiar? Ficar
mais atento aos Portais que nos aguardam.
O que significa o arquétipo Guardião do Limiar? Ficar mais atento aos Portais que nos Cercam.
VI.h. Receptáculo
Igualmente a todos os arquétipos, o Receptáculo é Flexível e
Variável; eles são Mitológicos, Literais e Cinematográficos.
Contudo, seria importante ressalta que natureza simbólica
do personagem Receptáculo é de feitio apódico. Presentes em muitas
narrativas fabulosas, o receptáculo desempenha um
papel de fio condutor nas histórias em que ele aparece.
Ele pode ser um personagem, ou até mesmo um objeto
recipiente, que recepciona as forças do bem e do mal.
Sua qualidade receptiva acaba sendo o ponto central
da busca tanto do herói quanto do vilão. No filme
Resident Evil
2 - Apocalipse, a personagem Alice é o receptáculo
de transição do vírus mutante. Seu o feito evolutivo
é o elemento que desencadeia toda trama da história.
O que significa a representação
do arquétipo Receptáculo? Significa que o corpo pode atrair e emanar forças que
a própria razão desconhece.
VI.i. Mentor
Um arquétipo encontrado com muita
freqüência nas metanarrativas míticas é a figura do
mentor. Sua exposição aparece travestida na persona
do velho sábio. Na estrutura que compõe os enredos
dos folclores, nas mitologias e até nas parábolas
e contos populares, este personagem é conhecido por
todos como o sábio conselheiro. A função do mentor
é despertar, aconselhar, orientar o herói a enfrentar
os ritos de passagens. Nesse aspecto, cabe ao mentor
cuidar da formação do código de conduta do herói durante
sua descida ao mundo especial. Um bom exemplo da literatura
infantil é a presença do Grilo Falante na história
de Pinóquio. No cinema, o mentor também está presente
ao lado do herói. Filmes clássicos como: o Ultimo
dos Moicanos, Mib: Homens de Pretos, Guerra nas Estrelas,
Batmam, Matrix, entre outros. Contudo, na tradição
das narrativas míticas, o mentor atua sob várias formas:
aliado, pícaro, camaleão, antagônico, sombra e aliado.
Características: Sábio; Treinador; Inimigo; Sacerdote; Bruxo; Animal; Picaresco;
Amigo; Xamão; Orientador; Guia Espiritual.
Elementos Psicológicos do Mentor: Ferido; Destemido; Exaltado; Corriqueiro;
Raivoso; Fanfarrão; Ressentido; Ponderado; Distraído;
Crente; Clandestino; Picaresco.
Há dois Arquétipos de Receptáculos:
Mítico e Clássico.
O que significa o arquétipo Mentor? A Experiência não é uma pura conquista, ela só
se adquire vivendo.
VI.j. Nêmeses
Se for verdade que os eventos de vida e de morte e são movidos
por ódio, luxuria, cobiça, inveja e poder, o sentimento
de vingança não é à exceção da regra. O Arquétipo
Nêmeses é por excelência o portador da vingança. Nêmesis,
conhecida como a Vingadora da Mitologia Grega, sempre
vigilante, sagaz exterminador, seja qual for sua denominação,
o Mito da Vingadora também está presente em todas
as culturas. Personagem Flexível
e Variável, Nêmeses pode estar travestido, oculto
ou aparente, pouco importa a condição do personagem
da história, no final de tudo, Ele é o agente do acerto
de contas. Não há dúvida quanto ao seu propósito,
sua missão é a vingança.
Contudo, o Arquétipo Nêmeses não pode ser confundido com o Libertador,
isto um princípio virtuoso que cabe ao Herói da história.
Um exemplo típico desse arquétipo na literatura é
Hamlet. No caso do cinema, não há um estereotipo definido,
ele pode assumir diversas formas de personalidade.
Inclusive se passar com o Mocinho do filme. Os filmes
Clube da Luta e V de Vingança
demonstram um esboço atenuante do que venha a ser
este personagem.
O que
significa o arquétipo Nêmeses? Significa que
durante a jornada da vida todo e qualquer sentimento
de revanche pode definir o propósito final da caminhada.
VI.k. Sombra
A sombra do Mal, muito antes da tradição
maniqueísta (luta do bem contra o mal), é o Arquétipo
condicionante em todas Narrativas Míticas
e Cinematográficas de Aventura. A personificação conhecida
como a Sombra é o agente catalisador entre o Bem e
o lado da Força Obscura. Em
várias Mitologias esse personagem
é a figura das trevas. Contudo, devemos ressaltar
que nas mais diversas tradições mitológicas havia
figuras sagradas que exerciam a prática do bem e do
mal.
A sombra do mal mora no Mundo
Especial, seu trono é fica no Centro do Mundo
Especial. Mas, a maldade também pode ser uma
prática social. Ele é o responsável direto pelos transtornos
que ocorrem no mundo comum. O senhor que domina a
força negra do mundo especial. Sua lógica atua paralelamente
a lógica do herói. Seu objetivo é derrotar o protagonista.
Seus conflitos podem ser abertos ou ocultos. No cinema,
a sombra da linguagem mágica, forma o que conceituamos
de Metanarrativas Míticas. Outra constatação é a de
que as variações e flexibilidades estão
presentes nas histórias míticas e populares do mais
diversos povos de épocas distintas.
Há um Antigo Provérbio que Diz: a maior invenção do Diabo
é fazer com que os Tolos não acreditem que Ele existe...
Se para o Mundo Moderno o Mal é uma Prática Cotidiana que se
Monta e se Desmonta todos os dias, para os Povos Antigos,
O Mal é uma Sombra portadora de Feitiços e Encantamentos
Maléficos.
Desde que o Cinema foi
inventado, boa parte dos filmes tem demonstrado como
aproveitar as Mil Faces do Mal em suas Tramas...
Hollywood conta com dois
tipos de Flexibilidade e Variabilidade do Arquétipo
Sombra:
•
Mítica
•
Vilão
Contudo, devido às suas mil faces
do mal constituinte do personagem Sombra, seria então
adequado elencar algumas características peculiares.
Características: Fenômeno Natural (filme: Terremoto); Sobrenatural (filme:
O Exorcista); Objeto (filme: O Dossiê Odessa);
Animal (filme: A Sombra e a Escuridão); Autoridade
(filme: 1984); Social (filme: Tempos Modernos);
Tecnologia (filme: 2001 - Uma Odisseia no Espaço);
Criatura (filme: Alien, o Oitavo Passageiro).
Categorias: Aedo, Arauto, Guardião do Limiar, Pícaro,
Aliado, Camaleão, Receptáculo, Oráculo, Receptáculo,
Mentor, Nêmeses, Sombra, Herói, Anti-Herói e Heroína.
O que significa o arquétipo Sombra? Significa
que o mal não tem uma aparência definida. O mal pode
estar na prática cotidiana e, muitas vezes Ele assumi
a forma da mais doce inocência.
VI.l. Antagônico (Rival)
O Arquétipo Antagônico (Rival) é um
Personagem dubio e ao mesmo tempo fácil de identificá-lo.
Ele é muitas vezes confundido com o Vilão do filme.
As suas ações se parecem com a do Malvado. È comum
nos filmes de Venturas Hollywoodianos o Antagônico
aprontar encrencas a fim de desatabilizar a vida do
Mocinho. Mas ele só faz tipo, é tudo Mise En Scéne.
Todo grande Roteirista sabe o que
significa ter em suas Histórias o Ás da Manga, o Elemento Surpresa.
E saber usar bem o Personagem Anatgônico é saber fazer
aquisições de recursos inteligentes para se compor
uma boa História.
Isto é, o Antagônico é um truque,
uma Farsa arquitetada pelo autor com finalidades de
desviar o verdadeiro Agente do Mal, a Sombra.
No Cinema há dois tipos de Arquétipos Antagônicos:
•
Clássico
•
Bonachão
O que significa o Arquétipo Antagônico (Rival)? Significa
que devemos ficar atento as Intenções das pessoas
que nos cercam.
VI.m. Herói
A figura do herói está presente em todas Metanarrativas
Míticas de todas as épocas e de todos
os povos. Elas sempre especularam sobre os grandes
feitos heróicos. Os antigos narradores acreditavam
que as virtudes dos notáveis deviam ser ensinadas
aos mais jovens. A
imagem do herói, acompanhada por atos notáveis, aparece
nos ritos de passagens iniciáticos, enquanto as narrativas
de suas conquistas eram evocadas próximas aos cerimoniais
de homenagens dos totens tribais. Cabiam aos Aedos
e os contadores de histórias perpetuarem essas honrarias
de aventuras.
A tradição de render homenagens aos
heróis perpassou a oralidade, depois vieram os escritos
sagrados da Idade Média, notadamente marcados pelas
crônicas voltadas aos mártires e aos romances da cavalarias,
chegando até as celebrações cívicas da modernidade
cujos heróis acabaram descritos nos livros de História
dos Estados-Nacionais.
Devido à flexibilidade e a variabilidade desse
tipo de personagem, seria prudente advertir que o
herói tem mil faces. E para efeito de razão explicativa,
dividimos o protótipo do herói em duas categorias:
·
Decididos
·
Imprecisos
Os Decididos, preferencialmente,
são os heróis mais ativos, gozam de espíritos indômitos.
São efusivos e transgressivos, irradiam vivacidade
e tensões. São loucos por aventuras. São personagens
automotivados pelos desafios. Enquanto os Imprecisos
são figuras hesitantes frente aos desafios heróicos.
São agentes passivos e, muitas vezes, são jogados
ou arrolados pelas circunstâncias. Suas motivações
são externalizadas devido a um desvio de conduta,
uma tragédia familiar, um desequilíbrio emocional,
uma mudança catastrófica, um ato de injustiça etc.
Tornou-se lugar comum este tipo de herói nos filmes
de aventura de Hollywood.
Cinematograficamente falando, para
a Telona, existem dois Arquétipos de Heróis:
•
Herói Mítico
•
Herói Protagonista (Mocinho)
Função do Herói
A palavra herói vem do idioma grego,
significa proteger e servir, porém,
servir com honra. Na escritura da tragédia
a personagem heróica é aquela que sacrifica a si em
benefício do grupo. A aventura do herói representa
a busca do Virtus frente ao Vício. Sua função é desatar
os dilemas que desestabilizaram a vida no mundo comum.
Mas, por excelência, o ambiente que forja os feitos
heróicos é o ambiente do mundo especial.
As qualidades de coragem, solidariedade,
bravura, ponderação, misericórdia, espírito de grupo
adquirido pelos heróis durante suas aprendizagens,
servem de exemplos para as gerações sucessivas. Enquanto
o herói cresce e amadurece, valendo para aqueles que
entram em contato com seus desafios, o público cresce
e amadurece também. Considerando as implicações simbólicas
de todas as metanarrativas míticas, a principal característica
catalisadora do herói é a sua purificação final. Para
os antigos povos, sempre entrincheirados no calor
das lutas do bem contra o mal, reconheciam que as
ações dos heróis emanavam e circulavam entre a força
do lobo e a esperteza do cordeiro. A Maldade Versus
a Inocência.
Ciente dos elementos fantásticos
que compõem as metanarrativas míticas, igualmente
aos desafios do herói destinatário, a tragédia grega
de Édipo Rei serve como um exemplo clássico de como
o herói está sujeito ao seu próprio destino. Próximos
às variedades dos heróis, incluindo aqueles que não
almejam tal status, o cumprimento de sua missão é
resultado do desígnio. Os Desafios do herói não são,
apenas, uma exigência pessoal, mas parte integrante
da descoberta do mundo e de si mesmo. Se no mundo
comum o herói encontra-se equilibrado, no mundo especial,
sua natureza estará sempre sujeita aos ritos de aprovação.
Sua pureza será glorificada com a sua morte simbólica
no Centro do Mundo.
Como foi mencionado, todo Herói mitológico
tem que passar pelos Ritos Iniciáticos que perfazem
a sua aprendizagem durante a travessia entre a estabilidade
do Mundo Comum e os Limiares de Desafios do Mundo
Especial: Separação, Treinamento e Apresentação.
Categorias de Heróis: Aventureiro (filmes da série James Bond); Fanfarrão
(filme: Piratas do Caribe); Trágico (filme:
Otelo); Picaresco (filme: Tempos Modernos);
Solitário (filme: Os Brutos também Amam); Corriqueiro
(filme: Totalmente Selvagem); Sobrenatural
(filme: Os Outros); Mago (filmes da série
Harry Potter); Fenomenal (filme: Super-Homem).
O que significa o arquétipo do Herói?
Significa que a humanidade precisa de heróis. E que de um modo ou de outro,
os homens precisam se inspirar e praticar os atos
virtuosos assim como deve manter acesa a chama dos
ideais que conjugam os feitos heróicos junto às futuras
gerações.
VI.n. Anti-Herói
O termo Anti-Herói pode vir a ser
enganador e, freqüentemente, induz à confusão de tratá-lo
como o personagem antípoda do herói. Nada mais do
que um puro equívoco. A rigor, a figura do anti-herói
é um tipo especial de herói, é alguém que optou ou
foi obrigado a buscar sua redenção virtuosa à margem
dos códigos sociais estabelecidos. Ele é alguém que,
com variações de motivos, acabou marginalizado pelo
sistema. Um policial não-corrupto (filme: Sérpico).
Um professor que atua paradoxal à cátedra (Sociedade
dos Poetas Mortos). Um estranho que rompe com
o silêncio do autoritarismo (filme: Todos os Homens
do Presidente). Emblemáticas figuras do passado
que foram banidas da História Oficial (Calabar
e o General Abreu Lima). Enfim são personagens
que traçaram seus próprios códigos honras e condutas
fora do convencional.
Nas lendas Mitopoéticas a presença do Anti-Herói não é tão freqüente
quanto na Literatura e no Cinema, embora seja considerado
o passageiro da agonia. O inusitado forasteiro que
veio de longe. O estranho cavaleiro portador de mudanças.
Este tipo de personagem já vem marcado de cicatrizes
do seu passado. Ele traz uma conduta amarga de outras
experiências vividas. Poucos sabem que a sua chegada
precipita o início da transformação do Mundo Comum.
Para efeito de compreensão, os Arquétipos do Anti-Herói
foram divididos em três categorias:
•
Romântico
•
Trágico
•
Casual
Quer seja na Literatura Mítica, quer seja na Literatura
Moderna, a figura do Anti-Herói está marcada pela
febre aguda da perda dos seus ideais. São os cavalheiros
das causas perdidas. O Anti-Herói do tipo Romântico
advém de vidas talentosas e cheias de aventuras, porém
desgastadas com o tempo. O Arquétipo Anti-Herói Romântico
existe de fato, muitas vezes Ele está próximo e nem
sequer notamos. A prova disso é que as Histórias das
Grandes Idéias estão repletas de suas façanhas e de
seus sacrifícios.
Quer seja na literatura mítica, quer seja na literatura moderna,
a figura do Anti-Herói está marcada pela febre aguda
da perda dos seus ideais. São os cavalheiros das causas
perdidas. Os Anti-Heróis do tipo Romântico advêm de vidas talentosas, porém
desgastada pelo tempo. As histórias das grandes idéias
estão repletas de suas façanhas e de seus sacrifícios.
Já o Anti-Herói do tipo trágico
está marcado pela máscara da figura melancólica. Emergentes
dos cenários sombrios, marcados pela sinuosidade da
tragédia, tino de culpa, infortúnio de perda, surto
de decepção, tragado pelo vício, jogado à própria
sorte, enfim, seja lá qual for sua situação, o anti-herói
perambula à margem do mundo. No entanto, seria oportuno
lembrar que o anti-herói é vítima de alguma tragédia
que precede à história. Ele encontra-se no fundo do
poço. Enquanto os anti-heróis do tipo trágico
são personagens de almas esfaceladas e consciências
atormentadas. Buscam redenção.
Geralmente, tendo em vista este modelo de história, o público
só começa a tomar conhecimento dos motivos de sua
amargura no decorrer da aventura. Os anti-heróis do
tipo casuais
trazem consigo um forte traço do cinismo e da ironia
escarnecida. E para efeito de sua dissimilação teatral,
ele costuma usar uma espécie de máscara (persona vítrea)
com o propósito de sublimação autocompensatória. Ênfases
para as características do individualismo e da indiferença.
A figura do Anti-Herói
ganhou reconhecimento e notoriedade a partir da imagem
do Cavaleiro Solitário e/ou Estranho Passageiro, personagens
tão freqüentes nos filmes de Cowboy. Na literatura
moderna, os personagens inspirados na geração Beatnik,
descrita nos livros de Jack Kerouac (jovens vagabundos
aventureiros de estradas) ganhou contornos poéticos
e líricos. Nos gêneros de filmes Noir, respectivamente
produzidos em Hollywood, o personagem Anti-Herói,
geralmente, representa os idealistas que estão sempre
em busca de justiça, ainda que seja a “justiça poética”.
O Cinema Hollywoodiano tem Cultuado o Arquétipo do Anti-Herói de dois
tipos: Anti-Herói Clássico e Anti-Herói Comum.
O que significa
o arquétipo Anti-Herói? Significa que devemos
ficar atento à noção de que o conceito de Herói, além
de ser necessário e louvado, pode vir a ser, também,
algo relativo, particular e fora de lugar.
VI.o.
Heroína
A introversão do mérito dos Desafios da Heroína
fabulosa não reside tão somente no ambiente do chamado
Mundo Comum, mas diante de sua atuação no Mundo
Especial. O desmembrar dos segredos e dos mistérios
existentes para além do Mundo Especial pode
lhe permitir o partilhar tanto de novas respostas
quanto à geração de outras novas perguntas. Há sempre
um universo aberto a aventura para aquelas que desafiam
os Limiares do Mundo Especial.
O efeito da emanação cósmica em relação à formação
da Heroína Mitopoética é obrigado a cumprir, por sua
vez, uma gama de variáveis estágios polarizados de
Auto-Reprodução sob a forma confusa e dual entre o
macho e a fêmea. É uma espécie de fenômeno mágico
parecido com a transformação do Uno em Múltiplo
tão decantado pela Filosofia. Tal fenômeno, na
mitologia grega, narrada por Hesíodo, acontece quando
Urano (Pai-Céu) separa-se de Geia (Mãe-Terra). Outro
exemplo e o da tradição Mítica do Povo Maori, nativos
da Nova Zelândia, cuja emanação do Cosmo foi alcançada
por meio do Cruzamento de Rangi-Potiki (Céu) com Papa
(Terra), e por aí vai...
Para as culturas nutridas na antiga mitologia
o papel mágico e temporal da mulher é, igualmente,
importante quanto ao dos guerreiros. Inúmeros sítios
arqueológicos trazem abundantes registros de suas
funções coletivas dentre outros inextinguíveis episódios
representativos de méritos e reverências de suas façanhas
heróicas. É fato também comprovado a existência do
Mito das Amazonas em muitas Metanarrativas
Míticas de vários povos em épocas
diferentes.
Nesse aspecto, não há como ignorar a aproximidade
de semelhanças entre as representações fabulosas incidentes
nas Metanarrativas Míticafabulosa de povos distintos,
em particular, a padronização de criação cosmogônica
(a figura feminina como ventre de incubação do universo),
partenom teogônico (ambiente dos deuses) combinado
com a constituição de outras Narrativas que contam
com as façanhas de Heroínas Mitolendárias.
Concernente a isto, é importante destacar que todas
as versões Femininas Míticas, são, por excelência,
a Matriz Mítica responsável pela conservação da estirpe
cultural de muitos povos. Um exemplo clássico dessa
questão é relevância que Maria, mãe de Jesus, tem
para o Cristianismo.
As metamorfoses de criações das entidades mágicas,
segundo os registros das mais diversas tradições mitopoéticas,
ocorreram com a separação, depois veio à fusão. Nesse
mesmo foco, muitas dessas narrativas não só procurava
contar a jornada do Mito Cosmogônico como também acabavam
por imantar a semente da origem da Guerreira Heróica.
Vejamos no caso Grego a importância das Deusas para
o nascimento da Heroína Terrena.
Quanto ao moralismo prosaico do cinema, perguntamos:
será que as atitudes trágicas cometidas pela personificação
das Femele Fatale dos filmes Noir tenderam a manchar
a simbologia feminina de um modo geral? Claro que
não, pois nada mais seria tão misógino do que imaginar
uma generalização determinista do gênero.
Para o Cinema existe Três Arquétipos de Heroínas:
•
Partner (Mocinha)
•
Heroína Mítica
•
Protagonista
Nesse caso, não há dúvida quanto ao reconhecimento e mapeamento
acerca da origem
da Heroína fabulosa na tradição mitológica.
Se os grandes feitos das antigas heroínas remontam
aos arquétipos das Metanarrativas míticas milenares
das deusas como Shiva e Atenas, por sua vez, a literatura
e o cinema souberam como transformá-las em Heroínas
populares. O certo é que as figuras heróicas femininas
modernas conquistaram o público através da literatura
e das tirinhas de jornais. Nesse sentido, o aparecimento
das fábulas contadas por Sherizad, a missão da Mulher-Gato,
os feitos da Super-Girl encontra-se na mesma padronização
Mitofabulosa das aventuras espaciais da jovem Tenente
Ripley lutando contra alienígenas gosmentos.
Por fim, se o Herói tradicional tem Mil Faces de Representações,
sua versão feminina não seria diferente.
Há dois tipos de Heroínas: Destemidas ou Casuais.
Categorias
Mártir
(filme: Joana D’Arc)
Aventureira
(filme: Tudo por Uma Esmeralda)
Companheira
(filme: Harry Potter)
Corriqueira
(filme: Thelma e Louíse)
Idealista
(filme: Matrix)
Entidade
(filme: O Quinto Elemento)
O
que significa o arquétipo da Heroína? Significa que o culto ao Heroísmo não depende da condição de
Gênero ou de Statu Social
Considerações Finais
Por fim, esperamos
que a nossa empreitada, muitas vezes permeadas de
conjecturas rasantes, tenha, não só Reconhecido e
Identificado os Arquétipos Mitológicos, quer seja
Literário, quer seja Cinematográfico, Personagens
comuns que ganharam dimensão à medida que as Sociedades
Modernas desenvolveram suas formas de Narrativas Míticas
voltadas a Diversão e o Entretenimento, como também
possam vir a ajudar a compreensão tanto das teias
que entrelaçam os Enredos e as Tramas quanto toda
Trucagem Mitológica que compõe a Fantástica Jornada
de Aventuras Encantadas das grandes Histórias Populares
espalhadas mundo afora...