Metanarrativa Mítica do Herói Hollywoodiano


Roberval da Silva Santiago
Doutor em História e Professor de Graduação e Pós-Graduação
do Curso de História da Universidade Federal de Campina Grande - PB

 
Resumo

O texto Metanarrativa Mítica do Herói Hollywoodiano busca inventariar e mapear a saga dos Arquétipos Mitopoéticos cujas tramas estão presentes nas mais diversas mitologias de povos e de épocas distintas. Representações que foram criativamente introduzidos nos enredos da indústria cinematográfica de Hollywood tais como: Aedo, Arauto, Pícaro, Aliado, Camaleão, Oráculo, Guardião do Limiar, Receptáculo, Mentor, Nêmeses, Sombra, Antagônico, Herói, Heroína, Anti-Herói com seus Ritos de Passagens. Enfim, Personagens de Narrativas Fantásticas reapresentadas nos mais celebrados Blockbusters de aventuras dos premiados cineastas George Lucas e Steven Spielberg.

 

 

 

É bem certo que a Saga dos Mitos e das Histórias Fantásticas acompanha o homem desde os tempos das cavernas quando o Mistério em relação ao Temor e a Magia ainda eram sentimentos primários sujeitos à configuração dos efeitos naturais e inusitados. Com o aparecimento das primeiras Cidades, à medida que os núcleos urbanos se desenvolviam, os Ritos Iniciáticos Religiosos ganhavam cada vez mais contornos complexos. Desde então, a tradição da Oralidade das Histórias Mitofantásticas, também conhecidas como Jornadas Míticas de Deuses e Heróis (Arquétipos), narradas por Aedos, Xamãs e Sacerdotes atravessaram o tempo de gerações a geração, chegando à Modernidade através da Literatura, depois pelas Telas do Cinema...

 

Mas, o que são Arquétipos Míticos? Enfim, são questões que tentaremos responder daqui por diante...

 

I. Mito

 

 

É bem verdade que Mitologia antecede a invenção do Cinema, porém, também é verdade que o Cinema é, por excelência, uma Arte Narrativa que costuma Contar Histórias. Então é hora de vermos como o Cinema e a Mitologia se entrelaçam.

Concernentemente, se o Cinema é um meio de Contar uma História, por sua vez, o Mito é uma forma de Narrativa Fantástica que aparece em versões folclóricas, preceitos religiosos, lendas antigas, contos e histórias fabulosas e parábolas pedagógicas cujas personagens são animadas pelos xamãs, Aedos, sacerdotes, Poetas, Escritores, Sábios e Prosadores junto à imaginação do ouvinte/leitor. No caso da Mitologia Heroica, quando contada, ambos, narrador e ouvinte, acabam sendo convidados a penetrar e (1)*desvendar e aventurar-se nos segredos e nos mistérios dos Ritos de Passagens que perfazem a caminhada do Herói desde o Mundo Comum até sua Jornada ao âmago do Mundo Mágico.

Contudo, há outras definições compreensivas acerca da palavra Mito. Devido à sua multiplicidade de sentidos, significados de Flexibilidades e Variações, conforme o ramo de conhecimento escolhido, o Mito, aparece também um tipo de pensamento de natureza Animista ou o Sonho Mágico. O Mito, igualmente a um modelo explicativo, é uma Visão de Mundo combinada ao Estilo de Vida aplicada às comunidades tradicionais com propósitos não só de almejar formas de controles sociais e religiosos correlatos à busca de assegurar a manutenção das generalidades culturais, tanto do passado quanto do presente, junto às gerações futuras.

 

I.a. Função do Mito

 

O mitólogo Joseph Campbell, em seu livro O Herói de Mil Faces, nos lembra que a maioria das tradições mitológicas incide na montagem de uma tecnologia narrativa semelhante a outras representações comuns e universais tais como: ritos de passagens, arquétipos fantásticos, formas de aprendizagens, visões de mundo, princípios filosóficos, ocultismos xamânticos, preceitos religiosos, simbologias secretas, pedagogias fantásticas, mundos misteriosos entre outros elementos da imaginação do homem ao longo do tempo.

 

I.b. Segredos do Mito

 

Para compreensão dos curiosos, o Mito não é uma ideologia que antecede ao Logos tal qual assinala boa parte literatura especializada, o Mito é outra forma de saber inspirado nas práticas do dia-a-dia. A princípio, importantes estudos revelam que em todo mundo, em todas as épocas e, sob as mais diversas circunstancias, a Mitologia se originou e floresceu como uma forma de narrativa mágica com finalidades de explicar, ocultar, controlar, divertir, amedrontar, ensinar e dominar a vida e a morte dos povos antigos. Enfim, sob o efeito de sua manifestação, o Mito acabou inspirando os primeiros traços de organização coletiva do gênero humano.

Na essência do Mito reside o mistério da experiência humana dentro de um tempo cíclico cujo passado e o presente se integram em detrimento das gerações futuras. No campo da psicanálise, o Mito incide no estudo de decifração do sonho. Para o psicanalista, o Sonho Mítico pode ocultar/revelar segredos do limiar destinatário da longa jornada do homem. Mas, levando em conta a estrutura de estudo simbólica da psicanálise, o mistério do Mito não se entrega facilmente; desvendar seus segredos exige o sacrifício dos envolvidos.

 

I.c. Formas de Mito

 

As mais diversas tradições Mitológicas se apresentam de forma Cosmogônica (origem), Teogônica (nascimento dos deuses), Épica (fundação), Alegórica (costumeira), Ilustrativa (identidade nacional).

Embora o Mito antigo apresente amplas variações em termos de ambiente, povos, hábitos, costumes, rituais e fabulísmo, em muitos casos, suas semelhanças estão combinadas à busca da mesma resposta: o destino do homem. Acrescentado a isto, o Mito procura explicitar a cosmogonia de um povo, as crenças na teogônicas a glorificação da origem e da fundação junto ao esforço de perpetuação das narrativas fantásticas que contam sobre a força e a magnitude destinatárias dos deuses e dos heróis nativos imantados de vivacidades e bravuras.

Isto é, o Mito deve ser animado com a imaginação. No entanto, sob muitos aspectos, advertimos que a recorrência a um Mito arcaico será sempre algo complexo e extraordinário para os iniciados. Nesse sentido, como parte simbólica do gênero da criação humana, no sentido ideal e literal, as Narrativas Mitológicas se apresentam igualmente a um sistema de representações cujas possibilidades podem levar o individuo a conhecer outras dimensões do universo histórico, literário, psicológico, linguístico, sociológico, antropológico e artístico do gênero humano.

 

Uso do Mito

 

A psicanálise junguiana diz que o mito na modernidade deve ser animado com a imaginação. No entanto, sob muitos aspectos, advertimos que a recorrência a um mito arcaico será sempre algo complexo e extraordinário para os iniciados. Parte simbólica do gênero da criação humana, no sentido ideal e literal, as narrativas mitológicas se apresentam tal qual um sistema de representações cujas possibilidades podem levar o individuo a conhecer outras dimensões do universo histórico, literário, psicológico, lingüístico, sociológico, antropológico e artístico.

 

I.d. Decifrando Mito

 

Falando em Mito, comecemos com um Bom Desafio:

ERA UMA VEZ UMA JOVEM PRINCESA QUE RECEBERA DO SEU PAI, O REI, UMA BOLA DE CRISTAL DE PRESENTE NO DIA DO ANIVERSÁRIO DOS SEUS QUINZE ANOS DE IDADE... ERA UMA BOLA GRANDE E MISTERIOSA. DENTRO DELA HAVIA CRISTAIS CINTILANTES QUE ACENDIAM E APAGAVAM DE ACORDO COM O ESTADO DE GRAÇA DA PRINCESA... ELA GOSTOU DO PRESENTE, PORÉM, NÃO ENTEDERA A ADVERTÊNCIA DO SEU PAI: ‘FILHA, NÃO PERCA ESTA BOLA NUNCA... NUNCA...’. UM DIA, A PRINCESA FOI BRINCAR NA FLORESTA À BEIRA DO LAGO. POR DESCUIDO, A BOLA CAIU NO LAGO E DESCEU PARA A ESCURIDÃO DO FUNDO DO LAGO... A PRINCESA CHOROU PORQUE NÃO HAVIA COMO RESGATÁ-LA... ELA FICOU TÃO TRISTE QUE COMOVEU A ATENÇÃO DO SAPO QUE ESTAVA NA MARGEM, ACOMPANHANDO TUDO. PREOCUPADO COM A PRINECESA, O SAPO LHE PERGUNTOU: SE EU RECUPERAR A BOLA, VOCÊ ME LEVA PARA O SEU CASTELO? A PRINCESA, DE TÃO AFLITA, POUCO ESTRANHOU POR QUE AQUELE SAPO SABIA FALAR. TEMENDO SER PUNIDA PELO PAI POR TER PERDIDO A BOLA, ELA LHE RESPONDEU: "CLARO! SE PEGAR A MINHA BOLA, LEVO VOCÊ COMIGO PARA O CASTELO...” O SAPO MERGULHOU E TROUXE A BOLA ATÉ A PRINCESA. DEPOIS DE SE CERTIFICAR QUE ERA A SUA BOLA, A PRINCESA FOI EMBORA SEM CUMPRIR SUA PROMESSA COM O SAPO...

 

II. Aberturas de Histórias

Valendo para todos os estilos de histórias, a Abertura, isto é, o Começo, é sempre um momento delicado. Uma situação frágil e muitas vezes inusitada... A abertura de uma narrativa, mítica, literária ou cinematográfica, pode tanto chamar atenção do público quanto provocar uma reação inversa. O certo é que não há uma fórmula ideal para construção de Aberturas de histórias.

O Começo de uma história pode ser apresentado de duas modalidades: Abertura Tradicional e Abertura de Prólogo. Todavia, é importante destacar que ambos os formatos de Aberturas também sofrem algumas contingências de Flexibilização e de Variações conforme a capacidade criativa do autor: Essencialmente, são esses os Modelos de Aberturas: Abertura Tradicional Livre e Trânsito, Abertura de Prólogo em formas de Thriller, Alegórica e Metonímica.

 

II.a. Abertura Tradicional

 

Segundo os mais renomados escritores, seguidos de experientes roteiristas de Hollywood, o Começo de uma história é sempre um desafio à imaginação. No caso da Abertura Tradicional, há de fato três tipos de Flexibilização e de Variação, trata-se do começo de uma história que identificamos como: Abertura Livre e Panorâmica. A abertura tradicional mais freqüente é do tipo Livre. A história começa com o velho clichê reconhecido: ...Era uma vez... Uma cidade... Uma pessoa... Um bichinho... No caso do cinema, basta ver como se tornou comum em alguns filmes o Começo da história com uma tomada Panorâmica da cidade, para logo em seguida focar o Protagonista em seu ambiente (Mundo Comum). No caso da Abertura em Trânsito, trata-se de uma Variação que começa realçando outros ambientes e/ou outros personagens antes de apresentar o mocinho da história.

 

II.b. Abertura de Prólogo

 

As Aberturas de Prólogos são apresentações de contingências estruturais associada diretamente ao clímax sujeito a trama da história. O conjunto de Variação e de Flexibilização dos Prólogos se combina em três formatos de seqüência de Aberturas: Thriller, Alegoria e Metonímica.

Uma vez reconhecida a Abertura Tradicional com as suas Flexibilizações e Variações, passemos então a identificar o que vem a ser a Abertura de Prólogo. A criação dos prólogos tem sua origem na literatura ficcional, mas, coube aos mestres roteiristas hollywoodiano adaptá-las ao estilo cinematográfico. O Prólogo do tipo Thriller é uma forma de Começo de história que precipita o ponto nevrálgico da trama, o clímax. É a seqüência inicial da história que cuida de antecipar o ponto culminante do enredo. Nesse tipo de Abertura, rompe-se de imediato na tela uma ação vertiginosa que parece inusitada, mas será apresentada no Final da história. Sua função não só a de chocar e preparar o público do que estar por vir, mas também a de fisgar o expectador. As aberturas dos filmes do Agente Secreto 007, de Indiana Jones, de O Resgate do Soldado Ryan, são exemplos típicos desse gênero.

O prólogo do tipo Alegoria, que significa “Dizer sobre o Ser do Outro de Outra Forma”, é um Começo de história mais sofisticado. Mais refinado. Requer do expectador mais atenção. Nos prólogos Alegóricos incidem outras implicações reflexivas que antecipam os valores que vão nortear a estrutura da história. Geralmente são teses filosóficas, lições de vida, jornadas de experiências, condutas heróicas, homenagens memoriais, etc. A película Quero Ser John Malkovich é um excelente exemplo desse porte.

Antes de ser identificado como uma modelo de abertura de histórias vale dizer que, Metonímia, é um conceito que expressa a Figura de Linguagem, a qual consiste no emprego de uma palavra por outra em relação a uma forma de proximidade junto à conjugação de valores da ação do sujeito. Exemplo: “a minha função nesse escritório é de carregador de piano...”

Isto pode explicar porque tanto os Prólogos Alegóricos e Metonímicos estimulam o expectador/leitor a fazer um exercício de imaginação por toda trajetória da história. Outro bom exemplo desse tipo de Abertura pode ser visto no filme Amadeus Mozart.

Todavia, cabe aqui ressaltar que pode ser comum o expectador confundir Abertura de Prólogo com outra forma de apresentação conhecida como Narrativa Expositiva (se trata de uma exposição narrativa com o objetivo de filosofar, antecipar e/ou explicar os pontos intricados que compõe as teias que envolvem a temática da história). Aspectos que voltaremos a mencionar na segunda parte do texto, A Jornada Mítica do Herói Hollywoodiano.

 

II.c. Características de Prólogos (premissas de contingências) (2)*

- Registrar o lugar e/ou a situação do narrador – Filme: Mar Adentro.

- Situar o tempo e o lugar da história – Filme: Guerra nas Estrelas

- Referencializar as contingências do passado das personagens – Filme: Menina de Ouro

- Lembrar o público de que obra foi inspirada num fato real – Filme: Munique

- Provocar impacto ao público - Filme: Guerra nas Estrelas – Episódio III

- Chamar a atenção do público para a trama – Filme: Chinatown

 

II. Mundo Comum

 

O Mundo Comum é por excelência o lugar onde o Herói está imerso na vida cotidiana. No Mundo Comum não ainda há a figura do Escolhido, apenas gêneros de pessoas normais junto aos demais cenários do dia-a-dia. Neste primeiro momento, tudo se encontra equilibrado. A representação do mundo comum pode ser uma cidade, uma vila, uma casa, um apartamento, um estádio, uma paisagem rural, pode ser qualquer espaço ou lugar. É o princípio, mas é deste lugar que sairá o Promovido da história. É neste universo, aparentemente harmônico, que ocorrem os ritos de passagens do Ungido do Mundo Comum para o Mundo Especial.

Outro fator recorrente ao reconhecimento do Mundo Comum da Metanarrativa Mítica é o de que toda mudança que ocorre neste universo não é por acaso, tudo está destinado. No caso dos filmes de aventuras, há sempre a questão do desvio: mudança de rumo, percurso inesperado, trajeto interrompido, dúvidas na encruzilhada. Nesse tipo de narrativa o protagonista ou é pego de surpresa, muitas vezes fruto de sua escolha, ou é pego pelos ventos que o sopram para junto do seu destino.

 

IV. Chamado à Aventura

 

O Chamado à Aventura é uma particularidade da Jornada do Herói cuja mensagem e/ou aviso o Nubente recebe a convocação da qual ele desconhece. Ele ainda não está preparado para prestar tal incumbência, a missão. Ele vai precisar ser treinado.

 

IV.a. Indicadores do Chamado à Aventura

 

Mensagem (o e-mail que o personagem, Neo, recebe no filme Matrix)

Declaração (direito dos homens no filme Danton)

Catástrofe (queda do avião no filme Náufrago)

Notícia (uma notícia no jornal no filme Ausência de Malícia)

Fenômeno natural (as mudanças climáticas no filme O Dia Depois de Amanhã)

Sobrenatural (a fita de vídeo que provoca mortes no filme O Chamado)

Fatos (o segredo que envolve a trama do filme Todos os Homens do Presidente)

Espírito de Aventura (a aventura do filme Rei Leão)

Arrebatamento (os desvios no filme Pinóquio)

Necessidade (a busca do fogo no filme Guerra do Fogo)

 

V. Mundo Especial

 

A entrada do Herói no Mundo Especial é um momento que merece toda nossa atenção. Se, no primeiro momento, o ambiente do Mundo Comum aparenta encontrar-se em um precário estado de equilíbrio, lembrando que nem sempre as mudanças do Mundo Comum acontecem de forma abrupta, em virtude disso, a escalada do Herói no Mundo Especial será levada aos extremos dos desafios. Em alguns casos, a passagem do Mundo Comum para o Mundo Especial ocorre de forma lenta e gradual. Contudo, não devemos esquecer que é no Mundo Comum que ocorre a gestação, “Ovo da Serpente”, a “Semente do Mal” de várias formas conforme a criatividade do autor.

Quanto às mudanças do Mundo Comum, é importante ficar atentos aos indicadores de transformações que podem ocorrer com a mudança de climática, a chegada de um estranho, uma má notícia, uma correspondência, notícias conflitantes, etc..

Se o Mundo Comum é o lugar da normalidade, por sua vez, o Mundo Especial é constituído de várias Dimensões Perceptivas e Portais misteriosos. No Mundo Especial, as aparências inocentes podem ocultar inúmeras Entradas e Passagens cheias de armadilhas perigosas (o conjuto de sequências expostas na série de filmes Indiana Jones é um bom exemplo desse expediente). De todo modo, como já mencionamos, seria prudente lembrar que não é tão fácil identificar o Mundo Especial, uma vez que as histórias narradas nem sempre seguem o mesmo padrão de contingências. Todavia, tornou-se recorrente, no caso do ingresso do Arquétipo Herói ao âmago do Mundo Especial, move-se sob duas formas: Desafio de Limiar e Confronto Final. Aspectos que trataremos mais detidamente na Segunda Parte...

 

 

 

 

VI. Arquétipos Mitológicos

 

 

Se a palavra Arquétipo significa "personagem mitológico que povoa as lendas e as histórias fantásticas do faz de conta", por sua vez, a mais significativa descoberta dos estudos decifrados pelo mitólogo Joseph Campbell,(3)* foi à identificação e o mapeamento, recorrente à padronização e semelhança, de vários Arquétipos mitológicos constituintes nas mais diversas mitologias espalhadas mundo afora.

Seguindo o mapeamento dos Arquétipos Míticos, então apontados na obra de Campbell(4)* e, singularmente identificados pelo escritor Christopher Vogler,(5)*as nossas investigações acabou descobrindo mais quatro Arquétipos: Aedo, Oráculo, Receptáculo, Nêmeses e Antagônico.

Também é fato que os Arquétipos estão em toda parte da imaginação do homem. Pode-se dizer que, onde houve uma Aventura Mitopoética, há certamente, um Arquétipo. E dependendo do enredo da história os Arquétipos podem se mostrar Flexível e Variável, conforme a criatividade do autor. Aspecto que demonstraremos daqui por diante.

 

VI.a. Aedo

 

O prestígio mágico que confere os mitos fabulosos as mais antigas tradições sempre foram animados pelos contadores de histórias, poetas e trovadores ao redor das fogueiras. Sábios, Xamãs, Sacerdotes, entre outros homens sagrados, guardavam a função de manter viva a mandala identitária, religiosa e folclórica dos seus povos. Contudo, o arquétipo Aedo, na qualidade de personagem, também aparece em muitas mitologias de aventuras. Ele é o contador responsável pela reprise e reinvenção das jornadas dos heróis. Guardião do passado e as aventuras mitopoéticas, seus rituais de oralidades compreendiam o ciclo engenhoso hierárquico de renovação, entretenimento, noções pedagógicas e, finalmente, a purificação da memória cultural. Um exemplo ilustrativo dessa manifestação simbólica aparece no filme Apocalypto dirigido por Mel Gibson.

O que significa o arquétipo Aedo? Significa que nem sempre o Aedo foi um personagem simbólico, sua figura remonta a longevidade da tradição da memória oral dos povos pré-letrados.

 
VI.b. Arauto

 

O arauto é sempre o agente que precede a mudança. É ele quem traz a notícia inusitada. Na qualidade de mensageiro, o arauto tem a responsabilidade de fornecer informações e motivações ao herói da história. Sua aparição mitológica demarca o rompimento da tênue fronteira que separa o mundo comum do mundo especial. Ele conhece o segredo que abre à porta do limbo. É a figura que precede os ritos de passagens do herói. Tal qual um arquétipo do presságio agourento, o arauto não tem forma definida e pode ser tanto a representação do bem quanto do mal ou neutro.

Categorias: Bardo: sábio ou artista; Mentor: aliado o vilão; Voz Narradora; Mensagem: real ou simbólica; Heroína: real ou imaginaria; Emissário: real ou imaginário; Fenômeno: sonho ou as condições naturais; Animal: real ou totêmico; Personagens: aliado ou vilão.

O que significa o arquétipo Arauto? Significa que devemos prestar mais atenção tanto aos avisos quanto as notícias que nos cercam.

 

 

 

VI.c. Pícaro

 

O arquétipo do tipo Pícaro é bastante conhecido do público, está presente em toda narrativa popular. É conhecido como a personagem do humor. É uma figura catalisadora entre a Comédia e o Drama. O ponto de desequilíbrio da história. Agente portador da notícia, da brincadeira e a desfaçatez. Sua aparição é demarcada pela perturbação, pela confusão desconcertante. Ao lado do herói, sua manifestação pantomímica provoca o riso, a ironia e a crítica reflexiva. O pícaro incorpora o espírito da vontade e do desejo de mudança. Um bom exemplo versado da literatura clássica é a personagem Sancho Pança, o famoso escudeiro de Dom Quixote de La Mancha.

Categorias: Sensitiva (filme: Ghost); Sobrenatural (filme: Os Espíritos); Animais (filme: A Sombra e a Escuridão); Fenômenos Naturais (filme: O Dia Depois de Amanhã); Aliado (filme: Guerra nas Estrelas); Adversário (filme: Zorro) etc.

O que significa o arquétipo Pícaro? O bom-humor é uma boa fórmula de vida.

 
VI.d. Aliado

 

Tradicionalmente o Aliado é a figura amiga que acompanha o herói. O parceiro. Em muitas histórias o Aliado é o agente catalisador entre o Mundo Comum e o Mundo Especial. Sua função é a de testar, orientar, salvaguardar e até de desorientar as virtudes do Herói em sua caminhada. Há de fato história em que a figura do Antagônico se torna Aliado do Herói, ou o inverso. Lembremos que a presença de vários Aliados numa mesma história, simbolicamente, remonta a origem Pré-Moderna das Irmandades e das Confrarias. Mas é bom ter cuidado para não confundir o Arquétipo Antagônico (Rival) com o Aliado.

Características: Sobrenatural (filme: O Céu pode Esperar); Rival (filme: À Hora do Diabo); Ajudante (filme: Guerra nas Estrelas); Sombra (Insônia); Amigo (Máquina Mortífera); Animal (filme: K9 - Um Tira Especial); Estranho (filme: 1984); Equipe (filme: A Fuga das Galinhas); Natureza (filme: Náufrago); Entidade Mágica (filmes: trilogia Senhor dos Anéis).

O que significa o Arquétipo Aliado? A importância da Amizade e do Espírito de Cooperação.

VI.e. Camaleão

 

O preceito popular que diz “as aparências enganam”, não apenas um clichê; é, na verdade, uma dádiva mitológica que perpassa o tempo

Não deve haver equívoco quanto à nomenclatura, o arquétipo Camaleão, apesar de conseguir assumir as mais diversas formas e aparências distintas, igualmente aos mestres dos disfarces, ele não consegue esconder sua essência. A figura do camaleão está demarcada pela faceta do inusitado. Muitas vezes, é nele que o mal se oculta sob a face mais inocente da doçura. Além do seu poder de desfaçatez, o Camaleão trás sempre uma carta da manga que só é revelada no final de cada narrativa. Também conhecido como o elemento de surpresa da história. A função primordial desta personagem é a de lembrar ao público que as coisas nunca são o que aparentam ser.

Para se ter uma idéia da relação de Variação e Flexibilização que ocorre com o esse Arquétipo no universo mitopoético, a representação de mutabilidade do Camaleão, a qual, sempre se esconde sob o véu da inocência e da lealdade, não é uma simples camuflagem, ou um disfarce casual, faz parte de extensão de sua natureza interna.

Na telona do Cinema ou nas Metanarrativas Míticas, o personagem Camaleão está sempre próximo do Herói. Atuando oculto sob o efeito de mil faces, Ele é possuidor de planos secretos e maléficos prontos a provocar o desvio do caráter quanto à trajetória da Jornada do Herói. O Arquétipo Camaleão é uma figura contraditória da história. No convívio aberto, suas intenções parecem solidárias e ponderadas, mas a coisa muda quando ele encontra-se com a sua consciência. Sozinho, suas atitudes se mostram mesquinhas e perversas. O Camaleão é o Mestre dos Títeres.

Como todos os arquétipos, o Camaleão também tem seu Rito de Passagem Final, o momento da Revelação. O Rito de Passagem Final da personagem Camaleão se caracteriza quando sua imagem real vem à tona. Quando todos ficam sabendo quem está por trás das cortinas. Um exemplo clássico da literatura infantil é a transformação da rainha numa bruxa malvada que envenena Branca de Neve.

No cinema, a Femele Fatale é um exemplo clássico de representação versátil desse Arquétipo. Se de um lado, nos textos sagrado, a versão feminina do Camaleão aparece, também conhecida como a primeira Feme Fatale, a representação de Lilit, a filha de Eva, do outro, na versão masculina, é a figura de Judas que pode muito bem servir-nos de exemplo.

A figura da Female Fatale ganhou projeção junto ao público a partir dos enredos que envolviam triângulos amorosos. Suas intenções ocultas acabam como o elemento surpresa e desfecho da história. A imagem da \mulher Camaleão fatale está presente nas obras de James Mallahan Cain. Contudo, no cinema, a adaptação estilizada desta personagem coube a dois roteiristas conhecidos: Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Voltaremos a falar sobre a Femele Fatale mais adiante.

São poucos os roteiristas de Hollywood que conseguiram adaptar com êxito este arquétipo feminino. Um estilo de personagem que ganhou força e peculiaridade nos filme Noir: O Destino Bate à sua Porta, Pacto de Sangue, O Falcão Maltês, Casablanca, A Dama de Xangai, Chinatown, Corpos Ardentes, Instinto Selvagem, Assédio Sexual, Veludo Azul, O Sangue de Romeu, Um Corpo que Cai, Sin City, entre outros.

Categorias: Aliada; Mentor; Antagonista; Esposa; Parceira; Guardiã.

O que significa o arquétipo Camaleão? Cautela no tocante ao mundo que o cerca: as coisas nunca são o que aparentam ser.

 

VI.f. Oráculo

 

Nas mais vastas narrativas mitopoéticas a figura do Arquétipo Sagrado também pode assumir formas Premonitivas(6)*. Em geral, a sua aparição precede a entrada do iniciado ao Mundo Especial. Considerando o nível de flexibilidade e variedade, assim como a justaposição literal e metafórica, que caracteriza os arquétipos mitológicos, a representação do profeta aparece sob o artifício do Arauto, do Guardião do Limiar, Mentor, entre outros; acrescentando a isto, o emblema simbológico do véu sagrado. O profeta é aquele que prediz o futuro, ainda que sob a forma do enigma. Em muitas histórias de mitologia fantástica, o arquétipo do profeta toma a aparência de uma bruxa premonitivas. A figura do profeta oscila entre o bem e o mal. Sua função é estritamente profetizar sobre as encruzilhadas, que esperam o escolhido a herói.

Reza a tradição que a premonição é um dom que poucos seres humanos possuem, mas ela tem um preço: a solidão e o isolamento. A princesa Cassandra sonhou com a destruição de Tróia pelos seus inimigos, mas foi levada ao ridículo pelos seus compatriotas. Este exemplo sinaliza que a representação sagrada do profeta místico continua fascinando o público até os dias de hoje.

O que significa o Arquétipo Oráculo? Significa que devemos ficar de mente aberta e prestar mais atenção as nossas intuições.

 
VI.g. Guardião do Limiar

 

A figura do Guardião do Limiar está presente em boa parte da mitologia universal. Eles são sentinelas das passagens dos desafios. Podem ser figuras do bem, do mal ou neutras. São responsáveis pela passagem do mundo comum para o mundo especial. Um exemplo clássico é a personagem Caronte da mitologia grega, barqueiro que conduz, mediante o pagamento de duas moedas de ouro, a passagem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos, Hades. Na cultura cristã o guardião São Pedro presta à mesma função.

Categorias: Soldado; Mensageiro; Ajudante; Animal; Porteiro; Barqueiro; Mágico; Estranho; Transeunte.

O Cinema Hollywoodiano tem explorado com freqüência dois Arquétipos de Guardião do Limiar: Mítico e Clássico.

          Categorias: Soldado; Mensageiro; Ajudante; Animal; Porteiro; Barqueiro; Mágico; Estranho; Transeunte.

          O que significa o arquétipo Guardião do Limiar? Ficar mais atento aos Portais que nos aguardam.

 

O que significa o arquétipo Guardião do Limiar? Ficar mais atento aos Portais que nos Cercam.

 

VI.h. Receptáculo(7)*

 

Igualmente a todos os arquétipos, o Receptáculo é Flexível e Variável; eles são Mitológicos, Literais e Cinematográficos. Contudo, seria importante ressalta que natureza simbólica do personagem Receptáculo é de feitio apódico.(8)* Presentes em muitas narrativas fabulosas, o receptáculo desempenha um papel de fio condutor nas histórias em que ele aparece. Ele pode ser um personagem, ou até mesmo um objeto recipiente, que recepciona as forças do bem e do mal. Sua qualidade receptiva acaba sendo o ponto central da busca tanto do herói quanto do vilão. No filme Resident Evil 2 - Apocalipse, a personagem Alice é o receptáculo de transição do vírus mutante. Seu o feito evolutivo é o elemento que desencadeia toda trama da história.

O que significa a representação do arquétipo Receptáculo? Significa que o corpo pode atrair e emanar forças que a própria razão desconhece.
 
VI.i. Mentor

 

Um arquétipo encontrado com muita freqüência nas metanarrativas míticas é a figura do mentor. Sua exposição aparece travestida na persona do velho sábio. Na estrutura que compõe os enredos dos folclores, nas mitologias e até nas parábolas e contos populares, este personagem é conhecido por todos como o sábio conselheiro. A função do mentor é despertar, aconselhar, orientar o herói a enfrentar os ritos de passagens. Nesse aspecto, cabe ao mentor cuidar da formação do código de conduta do herói durante sua descida ao mundo especial. Um bom exemplo da literatura infantil é a presença do Grilo Falante na história de Pinóquio. No cinema, o mentor também está presente ao lado do herói. Filmes clássicos como: o Ultimo dos Moicanos, Mib: Homens de Pretos, Guerra nas Estrelas, Batmam, Matrix, entre outros. Contudo, na tradição das narrativas míticas, o mentor atua sob várias formas: aliado, pícaro, camaleão, antagônico, sombra e aliado.

Características: Sábio; Treinador; Inimigo; Sacerdote; Bruxo; Animal; Picaresco; Amigo; Xamão; Orientador; Guia Espiritual.

Elementos Psicológicos do Mentor: Ferido; Destemido; Exaltado; Corriqueiro; Raivoso; Fanfarrão; Ressentido; Ponderado; Distraído; Crente; Clandestino; Picaresco.

Há dois Arquétipos de Receptáculos: Mítico e Clássico.

O que significa o arquétipo Mentor? A Experiência não é uma pura conquista, ela só se adquire vivendo.

 
VI.j. Nêmeses(9)*

 

Se for verdade que os eventos de vida e de morte e são movidos por ódio, luxuria, cobiça, inveja e poder, o sentimento de vingança não é à exceção da regra. O Arquétipo Nêmeses é por excelência o portador da vingança. Nêmesis, conhecida como a Vingadora da Mitologia Grega, sempre vigilante, sagaz exterminador, seja qual for sua denominação, o Mito da Vingadora também está presente em todas as culturas. Personagem Flexível e Variável, Nêmeses pode estar travestido, oculto ou aparente, pouco importa a condição do personagem da história, no final de tudo, Ele é o agente do acerto de contas. Não há dúvida quanto ao seu propósito, sua missão é a vingança.

Contudo, o Arquétipo Nêmeses não pode ser confundido com o Libertador, isto um princípio virtuoso que cabe ao Herói da história. Um exemplo típico desse arquétipo na literatura é Hamlet. No caso do cinema, não há um estereotipo definido, ele pode assumir diversas formas de personalidade. Inclusive se passar com o Mocinho do filme. Os filmes Clube da Luta e V de Vingança demonstram um esboço atenuante do que venha a ser este personagem.

O que significa o arquétipo Nêmeses? Significa que durante a jornada da vida todo e qualquer sentimento de revanche pode definir o propósito final da caminhada.

VI.k. Sombra

 

A sombra do Mal, muito antes da tradição maniqueísta (luta do bem contra o mal), é o Arquétipo condicionante em todas Narrativas Míticas e Cinematográficas de Aventura. A personificação conhecida como a Sombra é o agente catalisador entre o Bem e o lado da Força Obscura. Em várias Mitologias esse personagem é a figura das trevas. Contudo, devemos ressaltar que nas mais diversas tradições mitológicas havia figuras sagradas que exerciam a prática do bem e do mal.

A sombra do mal mora no Mundo Especial, seu trono é fica no Centro do Mundo Especial.(10)* Mas, a maldade também pode ser uma prática social. Ele é o responsável direto pelos transtornos que ocorrem no mundo comum. O senhor que domina a força negra do mundo especial. Sua lógica atua paralelamente a lógica do herói. Seu objetivo é derrotar o protagonista. Seus conflitos podem ser abertos ou ocultos. No cinema, a sombra da linguagem mágica, forma o que conceituamos de Metanarrativas Míticas. Outra constatação é a de que as variações e flexibilidades(11)* estão presentes nas histórias míticas e populares do mais diversos povos de épocas distintas.

Há um Antigo Provérbio que Diz: a maior invenção do Diabo é fazer com que os Tolos não acreditem que Ele existe...

Se para o Mundo Moderno o Mal é uma Prática Cotidiana que se Monta e se Desmonta todos os dias, para os Povos Antigos, O Mal é uma Sombra portadora de Feitiços e Encantamentos Maléficos.

Desde que o Cinema foi inventado, boa parte dos filmes tem demonstrado como aproveitar as Mil Faces do Mal em suas Tramas...

Hollywood conta com dois tipos de Flexibilidade e Variabilidade do Arquétipo Sombra:

          Mítica

          Vilão

Contudo, devido às suas mil faces do mal constituinte do personagem Sombra, seria então adequado elencar algumas características peculiares.

Características: Fenômeno Natural (filme: Terremoto); Sobrenatural (filme: O Exorcista); Objeto (filme: O Dossiê Odessa); Animal (filme: A Sombra e a Escuridão); Autoridade (filme: 1984); Social (filme: Tempos Modernos); Tecnologia (filme: 2001 - Uma Odisseia no Espaço); Criatura (filme: Alien, o Oitavo Passageiro).

Categorias: Aedo, Arauto, Guardião do Limiar, Pícaro, Aliado, Camaleão, Receptáculo, Oráculo, Receptáculo, Mentor, Nêmeses, Sombra, Herói, Anti-Herói e Heroína.

O que significa o arquétipo Sombra? Significa que o mal não tem uma aparência definida. O mal pode estar na prática cotidiana e, muitas vezes Ele assumi a forma da mais doce inocência.

 

VI.l. Antagônico (Rival) (11)*

 

O Arquétipo Antagônico (Rival) é um Personagem dubio e ao mesmo tempo fácil de identificá-lo. Ele é muitas vezes confundido com o Vilão do filme. As suas ações se parecem com a do Malvado. È comum nos filmes de Venturas Hollywoodianos o Antagônico aprontar encrencas a fim de desatabilizar a vida do Mocinho. Mas ele só faz tipo, é tudo Mise En Scéne.

Todo grande Roteirista sabe o que significa ter em suas Histórias o Ás da Manga, o Elemento Surpresa. E saber usar bem o Personagem Anatgônico é saber fazer aquisições de recursos inteligentes para se compor uma boa História.

Isto é, o Antagônico é um truque, uma Farsa arquitetada pelo autor com finalidades de desviar o verdadeiro Agente do Mal, a Sombra.

No Cinema há dois tipos de Arquétipos Antagônicos:

          Clássico

          Bonachão

O que significa o Arquétipo Antagônico (Rival)? Significa que devemos ficar atento as Intenções das pessoas que nos cercam.

 
VI.m. Herói

 

A figura do herói está presente em todas Metanarrativas Míticas de todas as épocas e de todos os povos. Elas sempre especularam sobre os grandes feitos heróicos. Os antigos narradores acreditavam que as virtudes dos notáveis deviam ser ensinadas aos mais jovens. A imagem do herói, acompanhada por atos notáveis, aparece nos ritos de passagens iniciáticos, enquanto as narrativas de suas conquistas eram evocadas próximas aos cerimoniais de homenagens dos totens tribais. Cabiam aos Aedos e os contadores de histórias perpetuarem essas honrarias de aventuras.

A tradição de render homenagens aos heróis perpassou a oralidade, depois vieram os escritos sagrados da Idade Média, notadamente marcados pelas crônicas voltadas aos mártires e aos romances da cavalarias, chegando até as celebrações cívicas da modernidade cujos heróis acabaram descritos nos livros de História dos Estados-Nacionais.

Devido à flexibilidade e a variabilidade desse tipo de personagem, seria prudente advertir que o herói tem mil faces. E para efeito de razão explicativa, dividimos o protótipo do herói em duas categorias:

·         Decididos

·         Imprecisos

Os Decididos, preferencialmente, são os heróis mais ativos, gozam de espíritos indômitos. São efusivos e transgressivos, irradiam vivacidade e tensões. São loucos por aventuras. São personagens automotivados pelos desafios. Enquanto os Imprecisos são figuras hesitantes frente aos desafios heróicos. São agentes passivos e, muitas vezes, são jogados ou arrolados pelas circunstâncias. Suas motivações são externalizadas devido a um desvio de conduta, uma tragédia familiar, um desequilíbrio emocional, uma mudança catastrófica, um ato de injustiça etc. Tornou-se lugar comum este tipo de herói nos filmes de aventura de Hollywood.

Cinematograficamente falando, para a Telona, existem dois Arquétipos de Heróis:

          Herói Mítico

          Herói Protagonista (Mocinho)

 

Função do Herói

 

A palavra herói vem do idioma grego, significa proteger e servir, porém, servir com honra. Na escritura da tragédia a personagem heróica é aquela que sacrifica a si em benefício do grupo. A aventura do herói representa a busca do Virtus frente ao Vício. Sua função é desatar os dilemas que desestabilizaram a vida no mundo comum. Mas, por excelência, o ambiente que forja os feitos heróicos é o ambiente do mundo especial.

As qualidades de coragem, solidariedade, bravura, ponderação, misericórdia, espírito de grupo adquirido pelos heróis durante suas aprendizagens, servem de exemplos para as gerações sucessivas. Enquanto o herói cresce e amadurece, valendo para aqueles que entram em contato com seus desafios, o público cresce e amadurece também. Considerando as implicações simbólicas de todas as metanarrativas míticas, a principal característica catalisadora do herói é a sua purificação final. Para os antigos povos, sempre entrincheirados no calor das lutas do bem contra o mal, reconheciam que as ações dos heróis emanavam e circulavam entre a força do lobo e a esperteza do cordeiro. A Maldade Versus a Inocência.

Ciente dos elementos fantásticos que compõem as metanarrativas míticas, igualmente aos desafios do herói destinatário, a tragédia grega de Édipo Rei serve como um exemplo clássico de como o herói está sujeito ao seu próprio destino. Próximos às variedades dos heróis, incluindo aqueles que não almejam tal status, o cumprimento de sua missão é resultado do desígnio. Os Desafios do herói não são, apenas, uma exigência pessoal, mas parte integrante da descoberta do mundo e de si mesmo. Se no mundo comum o herói encontra-se equilibrado, no mundo especial, sua natureza estará sempre sujeita aos ritos de aprovação. Sua pureza será glorificada com a sua morte simbólica no Centro do Mundo.

Como foi mencionado, todo Herói mitológico tem que passar pelos Ritos Iniciáticos que perfazem a sua aprendizagem durante a travessia entre a estabilidade do Mundo Comum e os Limiares de Desafios do Mundo Especial: Separação, Treinamento e Apresentação.

 

Categorias de Heróis: Aventureiro (filmes da série James Bond); Fanfarrão (filme: Piratas do Caribe); Trágico (filme: Otelo); Picaresco (filme: Tempos Modernos); Solitário (filme: Os Brutos também Amam); Corriqueiro (filme: Totalmente Selvagem); Sobrenatural (filme: Os Outros); Mago (filmes da série Harry Potter); Fenomenal (filme: Super-Homem).

O que significa o arquétipo do Herói? Significa que a humanidade precisa de heróis. E que de um modo ou de outro, os homens precisam se inspirar e praticar os atos virtuosos assim como deve manter acesa a chama dos ideais que conjugam os feitos heróicos junto às futuras gerações.

 

VI.n. Anti-Herói

 

O termo Anti-Herói pode vir a ser enganador e, freqüentemente, induz à confusão de tratá-lo como o personagem antípoda do herói. Nada mais do que um puro equívoco. A rigor, a figura do anti-herói é um tipo especial de herói, é alguém que optou ou foi obrigado a buscar sua redenção virtuosa à margem dos códigos sociais estabelecidos. Ele é alguém que, com variações de motivos, acabou marginalizado pelo sistema. Um policial não-corrupto (filme: Sérpico). Um professor que atua paradoxal à cátedra (Sociedade dos Poetas Mortos). Um estranho que rompe com o silêncio do autoritarismo (filme: Todos os Homens do Presidente). Emblemáticas figuras do passado que foram banidas da História Oficial (Calabar e o General Abreu Lima). Enfim são personagens que traçaram seus próprios códigos honras e condutas fora do convencional.

Nas lendas Mitopoéticas a presença do Anti-Herói não é tão freqüente quanto na Literatura e no Cinema, embora seja considerado o passageiro da agonia. O inusitado forasteiro que veio de longe. O estranho cavaleiro portador de mudanças. Este tipo de personagem já vem marcado de cicatrizes do seu passado. Ele traz uma conduta amarga de outras experiências vividas. Poucos sabem que a sua chegada precipita o início da transformação do Mundo Comum.

Para efeito de compreensão, os Arquétipos do Anti-Herói foram divididos em três categorias:

          Romântico

          Trágico

          Casual

Quer seja na Literatura Mítica, quer seja na Literatura Moderna, a figura do Anti-Herói está marcada pela febre aguda da perda dos seus ideais. São os cavalheiros das causas perdidas. O Anti-Herói do tipo Romântico advém de vidas talentosas e cheias de aventuras, porém desgastadas com o tempo. O Arquétipo Anti-Herói Romântico existe de fato, muitas vezes Ele está próximo e nem sequer notamos. A prova disso é que as Histórias das Grandes Idéias estão repletas de suas façanhas e de seus sacrifícios.

 

Quer seja na literatura mítica, quer seja na literatura moderna, a figura do Anti-Herói está marcada pela febre aguda da perda dos seus ideais. São os cavalheiros das causas perdidas. Os Anti-Heróis do tipo Romântico advêm de vidas talentosas, porém desgastada pelo tempo. As histórias das grandes idéias estão repletas de suas façanhas e de seus sacrifícios.

Já o Anti-Herói do tipo trágico está marcado pela máscara da figura melancólica. Emergentes dos cenários sombrios, marcados pela sinuosidade da tragédia, tino de culpa, infortúnio de perda, surto de decepção, tragado pelo vício, jogado à própria sorte, enfim, seja lá qual for sua situação, o anti-herói perambula à margem do mundo. No entanto, seria oportuno lembrar que o anti-herói é vítima de alguma tragédia que precede à história. Ele encontra-se no fundo do poço. Enquanto os anti-heróis do tipo trágico são personagens de almas esfaceladas e consciências atormentadas. Buscam redenção.

Geralmente, tendo em vista este modelo de história, o público só começa a tomar conhecimento dos motivos de sua amargura no decorrer da aventura. Os anti-heróis do tipo casuais trazem consigo um forte traço do cinismo e da ironia escarnecida. E para efeito de sua dissimilação teatral, ele costuma usar uma espécie de máscara (persona vítrea) com o propósito de sublimação autocompensatória. Ênfases para as características do individualismo e da indiferença.

A figura do Anti-Herói ganhou reconhecimento e notoriedade a partir da imagem do Cavaleiro Solitário e/ou Estranho Passageiro, personagens tão freqüentes nos filmes de Cowboy. Na literatura moderna, os personagens inspirados na geração Beatnik, descrita nos livros de Jack Kerouac (jovens vagabundos aventureiros de estradas) ganhou contornos poéticos e líricos. Nos gêneros de filmes Noir, respectivamente produzidos em Hollywood, o personagem Anti-Herói, geralmente, representa os idealistas que estão sempre em busca de justiça, ainda que seja a “justiça poética”.

O Cinema Hollywoodiano tem Cultuado o Arquétipo do Anti-Herói de dois tipos: Anti-Herói Clássico e Anti-Herói Comum.

O que significa o arquétipo Anti-Herói? Significa que devemos ficar atento à noção de que o conceito de Herói, além de ser necessário e louvado, pode vir a ser, também, algo relativo, particular e fora de lugar.

 

VI.o. Heroína

 

A introversão do mérito dos Desafios da Heroína fabulosa não reside tão somente no ambiente do chamado Mundo Comum, mas diante de sua atuação no Mundo Especial. O desmembrar dos segredos e dos mistérios existentes para além do Mundo Especial pode lhe permitir o partilhar tanto de novas respostas quanto à geração de outras novas perguntas. Há sempre um universo aberto a aventura para aquelas que desafiam os Limiares do Mundo Especial.

O efeito da emanação cósmica em relação à formação da Heroína Mitopoética é obrigado a cumprir, por sua vez, uma gama de variáveis estágios polarizados de Auto-Reprodução sob a forma confusa e dual entre o macho e a fêmea. É uma espécie de fenômeno mágico parecido com a transformação do Uno em Múltiplo tão decantado pela Filosofia. Tal fenômeno, na mitologia grega, narrada por Hesíodo, acontece quando Urano (Pai-Céu) separa-se de Geia (Mãe-Terra). Outro exemplo e o da tradição Mítica do Povo Maori, nativos da Nova Zelândia, cuja emanação do Cosmo foi alcançada por meio do Cruzamento de Rangi-Potiki (Céu) com Papa (Terra), e por aí vai...

Para as culturas nutridas na antiga mitologia o papel mágico e temporal da mulher é, igualmente, importante quanto ao dos guerreiros. Inúmeros sítios arqueológicos trazem abundantes registros de suas funções coletivas dentre outros inextinguíveis episódios representativos de méritos e reverências de suas façanhas heróicas. É fato também comprovado a existência do Mito das Amazonas em muitas Metanarrativas Míticas de vários povos em épocas diferentes.

Nesse aspecto, não há como ignorar a aproximidade de semelhanças entre as representações fabulosas incidentes nas Metanarrativas Míticafabulosa de povos distintos, em particular, a padronização de criação cosmogônica (a figura feminina como ventre de incubação do universo), partenom teogônico (ambiente dos deuses) combinado com a constituição de outras Narrativas que contam com as façanhas de Heroínas Mitolendárias. Concernente a isto, é importante destacar que todas as versões Femininas Míticas, são, por excelência, a Matriz Mítica responsável pela conservação da estirpe cultural de muitos povos. Um exemplo clássico dessa questão é relevância que Maria, mãe de Jesus, tem para o Cristianismo.

As metamorfoses de criações das entidades mágicas, segundo os registros das mais diversas tradições mitopoéticas, ocorreram com a separação, depois veio à fusão. Nesse mesmo foco, muitas dessas narrativas não só procurava contar a jornada do Mito Cosmogônico como também acabavam por imantar a semente da origem da Guerreira Heróica. Vejamos no caso Grego a importância das Deusas para o nascimento da Heroína Terrena.

Quanto ao moralismo prosaico do cinema, perguntamos: será que as atitudes trágicas cometidas pela personificação das Femele Fatale dos filmes Noir tenderam a manchar a simbologia feminina de um modo geral? Claro que não, pois nada mais seria tão misógino do que imaginar uma generalização determinista do gênero.

Para o Cinema existe Três Arquétipos de Heroínas:

 

          Partner (Mocinha)

          Heroína Mítica

          Protagonista

 

Nesse caso, não há dúvida quanto ao reconhecimento e mapeamento acerca da origem da Heroína fabulosa na tradição mitológica. Se os grandes feitos das antigas heroínas remontam aos arquétipos das Metanarrativas míticas milenares das deusas como Shiva e Atenas, por sua vez, a literatura e o cinema souberam como transformá-las em Heroínas populares. O certo é que as figuras heróicas femininas modernas conquistaram o público através da literatura e das tirinhas de jornais. Nesse sentido, o aparecimento das fábulas contadas por Sherizad, a missão da Mulher-Gato, os feitos da Super-Girl encontra-se na mesma padronização Mitofabulosa das aventuras espaciais da jovem Tenente Ripley lutando contra alienígenas gosmentos.

Por fim, se o Herói tradicional tem Mil Faces de Representações, sua versão feminina não seria diferente.

Há dois tipos de Heroínas: Destemidas ou Casuais.

 

Categorias

Mártir (filme: Joana D’Arc)

Aventureira (filme: Tudo por Uma Esmeralda)

Companheira (filme: Harry Potter)

Corriqueira (filme: Thelma e Louíse)

Idealista (filme: Matrix)

Entidade (filme: O Quinto Elemento)

O que significa o arquétipo da Heroína? Significa que o culto ao Heroísmo não depende da condição de Gênero ou de Statu Social

 

Considerações Finais

Por fim, esperamos que a nossa empreitada, muitas vezes permeadas de conjecturas rasantes, tenha, não só Reconhecido e Identificado os Arquétipos Mitológicos, quer seja Literário, quer seja Cinematográfico, Personagens comuns que ganharam dimensão à medida que as Sociedades Modernas desenvolveram suas formas de Narrativas Míticas voltadas a Diversão e o Entretenimento, como também possam vir a ajudar a compreensão tanto das teias que entrelaçam os Enredos e as Tramas quanto toda Trucagem Mitológica que compõe a Fantástica Jornada de Aventuras Encantadas das grandes Histórias Populares espalhadas mundo afora...



 

 

(1)* Muitas vezes ocorrem Aberturas do tipo Prólogo em Voz em Off ou Over.

(2)* CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1987.

(3)* ________,_____. O Poder do Mito. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos,

(4)* VOGLER, Christopher. A Jornada do Escritor. Rio de Janeiro: Ampersand, 1997.

(5)* A acepção da palavra Oráculo significa aquele que tem o dom da adivinhação. As previsões são características dessas personagens sagradas são dotadas de predisposições visionárias tanto do passado quanto do futuro.

(6)* Embora o Arquétipo Receptáculo esteja presente na Mitologia, na Literatura e no Cinema, porém, tanto a descoberta quanto identificação e o mapeamento é de nossa responsabilidade.

(7)* A concepção da palavra Apódico compreende que um determinado corpo físico detém a capacidade endógena de abrigar, ao mesmo tempo, dois elementos distintos de natureza e de qualidade. Tal fenômeno pode ser observado no Espiritismo e no Candomblé.

(8)* Trata-se também de outro Arquétipo presente na Mitologia, na Literatura e no Cinema, mas é de nossa responsabilidade a SUS identificação e o seu mapeamento.

(9)* Tanto a expressão Mundo Especial quanto a Centro do Mundo Especial, na linguagem mitopoética, tem uma conotação de que se trata do lugar das trevas. A Morada da escuridão cujo contorno ambiental assemelha-se ao senhor.

(10)* Tendo em vista as diversidades multifacetadas dos arquétipos míticos, a noção de flexibilidade e variedade ganha contornos à medida que as funções e os papeis de representações assumem formas variantes de acordo com o núcleo simbólico da narrativa.

(11)* O Arquétipo Antagônico, conhecido como Rival do Mocinho, é outra descoberta nossa.

 

Bibliografia:

- ARISTÓTELES. A Poética Clássica. São Paulo: Editora Cultrix, 1998.

- BERRAL, R.S. A Medusa da Modernidade. A Cidade do Recife à Luz da Fotografia. Recife: Faintvisa, 2004.

- BULFINC, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. História dos Deuses e Heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

- CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1987.

- ____________,_________. Mitologia na Vida Moderna. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2002.

- ____________,_________. O Poder do Mito. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2002.

- CASTRO TEIXEIRA. Inês Assunção. A Escola vai ao Cinema. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

- COMPARATO, Doc. Da Criação do Roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

- COMTE-SPONVILLE. André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

- ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 2006.

- FIELD, Syd. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 1994.

- GEERTZ, Clifford. A Interpretação da Cultura. Rio de Janeiro: ABDR, 1989

- VOGLER, Christopher. A Jornada do Escritor. Rio de Janeiro: Ampersand, 1997.