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"Os Mercenários" estreou timidamente no Brasil,
talvez minado pela anti-propaganda que infligiu a si
próprio. As declarações infelizes de seu diretor e protagonista,
Sylvester Stallone, a respeito do Brasil - onde gravou
boa parte de seu longa - parecem ter contribuído para
que a obra fosse lançada em um reduzido número de cópias
(em Porto Alegre, apenas quatro, sendo uma dublada),
a despeito do blockbuster que pretende ser.
Também "Os Mercenários", o filme, não se ajuda.
Um dos problemas dele é justamente o excesso de caras
conhecidas em cena, e nenhuma delas com um significativo
frescor de novidade. Stallone juntou seus amigos e confrades
de estilo para criar algo que se encontra mais próximo
dos "filmes de figuração" do passado, onde juntar o
máximo de nomes apregoados do público era muitas vezes
receita de sucesso (vide "Inferno na Torre" ,
a série "Aeroporto" e mais recentemente os
longas da turma de astros de "Onze Homens e Um Segredo"
e suas continuações), do que um representativo
exemplar de ação. Todos dão o ar da graça, mas pouco
contribuem para manter o interesse na trama além da
participação em si, como se somente dar as caras fosse
suficiente: roteiro e atuações foram colocados em segundo,
terceiro, quarto... ad infinitum planos. O mais incrível
é que o soldado da fortuna travestido de psicopata (e
vice-versa) interpretado por Dolph Lundgren e o vilão
inescrupuloso vivido por um envelhecido Eric Roberts
são os que convencem melhor, apoiados muito mais pelo
physique du rôle que possuem do que por qualquer
outro talento. E torna-se decepcionante observar Mickey
Rourke sem empunhar uma arma ou sair no braço e pior,
com "lampejos" do caricatural personagem que representou
no igualmente desapontador "Homem de Ferro 2" .
O filme já nasce datado, com cara e DNA de action-movie
dos anos 80, e parece querer achar sua razão quase somente
disso, sem injetar algum elemento novo. Na contracorrente
disso, basta lembrar que dois exemplares recentes de
ação à moda oitentista acharam seu nicho justamente
por se renovarem: "Busca Implacável" mostrava
um Liam Neeson - cara nova no terreno - encarnando o
espírito dos personagens de Charles Bronson e "Rambo
IV" , dirigido pelo próprio Stallone, se reinventou
no uso da ultraviolência (que em "Os Mercenários"
apenas soa como um déjà-vu). A preguicite
andou contaminando outras camadas do filme. Ao ambientar
noturnamente a sequência final (curiosamente, a inicial
também é assim), o longa dá margem para cobrir seus
próprios defeitos cinematográficos em coreografia de
lutas, montagem (péssima!) e direção de arte.
Para tentar salvar a pátria, há alguma ação de qualidade
visível, uns poucos bons planos, como aquele do tiroteio
de ponta-cabeça que o diretor/ator orquestra, e uma
cena realmente memorável que é a melhor coisa do filme.
Esta se passa no interior de uma igreja, confrontando
Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger, onde
o limite entre a ficção e realidade envolvendo os personagens
e seus intérpretes é ultrapassado diversas vezes, com
isso gerando piadas praticamente a cada frase proferida
por eles.
Mas isso se mostra reduzido para a ambição do longa,
que ao extremo da projeção acaba capengando na própria
falta de educação que Sly imprimiu aos créditos últimos.
Não fosse uma citação obrigatória à unidade brasileira
de produção, um espectador estrangeiro nem saberia que
um bocado do filme foi gravado no Brasil; entanto o
pior é que na lista de agradecimentos não há um sequer
a qualquer coisa que lembre nosso país, nem mesmo a
Mangaratiba (RJ), principal locação do longa, local
onde o ator almeja uma estátua. Ainda que devamos separar
a pessoa do artista - e isso sempre é preciso -, fica
aqui algo que jamais poderia ocorrer: o mesmo tipo de
ranço causado pela resposta de Charles Bronson ao ser
entrevistado por uma emissora de TV brasileira na década
de 90: - "Brazil? What is Brazil?".
OS MERCENÁRIOS (The Expendables, EUA,
2010)
Direção: Sylvester Stallone.
Elenco principal: Sylvester Stallone, Jet Li,
Jason Statham, Giselle Itié, Dolph Lundgren, Eric Roberts,
Charisma Carpenter, Randy Couture, Terry Crews, Steve
Austin, David Zayas.
Cotação: **
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