O APAGÃO DAS MENTES BRILHANTES
Adriano Hannecker
(e-mail: ahannecker@ibest.com.br)
 
 

"A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta."


Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular.

"Uma Mente Brilhante" é baseado na biografia de John Nash (interpretado por Russell Crowe), um matemático e esquizofrênico, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1994. Nash foi bolsista na Universidade de Princeton, e não comparecia às atividades universitárias, pois preferia estudar sozinho. Após ver o filme, e compará-lo com outros, percebi as diferenças no modo de apresentar o cientista e a atividade científica, resultando então nas seguintes perguntas: O que é o cientista? E o que faz?

O cinema de quinta categoria hollywoodiano define o cientista como um deficiente mental, que ri do nada, assexuado, e que possui pouco traquejo social ou familiar (como se a vida familiar e social, nesses filmes, não fosse um convite à demência). Sua atividade consiste em manipular vidrarias, num ambiente enfumaçado e obscuro, em que as descobertas acontecem por acaso. Geralmente, além de ser obra fortuita, ainda sugere que a descoberta é mérito apenas do indivíduo: Newton viu a maçã, disse "eureka", e estava pronta a teoria da gravitação universal. Como se Newton não tivesse antes estudado Física, formulado problemas, experimentado soluções, dialogado com outros físicos contemporâneos a ele e lido os do passado, et cetera.

O filme do diretor Ron Howard traz certas inovações, até por ser biográfico. Por exemplo, o cientista tem uma esposa, Alicia (Jennifer Connelly), e o que é fantástico, ele não a perde para um cara sarado, rico e burro. E pasmem, Nash ainda tem um filho!

A atividade científica aparece como labuta diária, em que há avanços, recuos, erros, observação... E portanto, não é fruto do acaso. Alguns aspectos ainda permanecem, como por exemplo: Nash tem problemas mentais e às vezes figura solitário. Além disso, mantém a mesma falácia da oposição entre o amor e a razão, e curiosamente, a escolha é sempre em prol do amor, ou seja, eles adoram finais de histórias opostos ao que fazem na vida real. O isolamento do cientista em relação à sociedade contrapõe-se ao que historicamente ocorreu com os pensadores, os quais sempre viveram as suas idéias.

Bem, John Nash é apenas um matemático, e viver um teorema deve ser bem difícil. Sócrates, filósofo grego, é um exemplo emblemático, e até trágico, do que seja viver as suas idéias. Por sua atividade filosófica, foi acusado de perverter a juventude, desrespeitar os deuses e descumprir as leis, o que o levou a ser condenado a beber cicuta (veneno). Hoje, os cientistas são inertes. Não cheiram e nem fedem. Aliás, o título do filme sugere uma estrela, uma mente, brilhando no céu, bem longe da Terra. Se ser um pensador ou um pensante é viver as suas idéias, será que ainda existem pensadores? Será que vivemos um apagão das mentes?

"O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscam na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da verdade."

Fernando Pessoa, Mar Portuguez.


UMA MENTE BRILHANTE (A Beautiful Mind, 2001)

Direção: Ron Howard.

Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Paul Bettany.