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"A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta."
Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular.
"Uma Mente Brilhante" é baseado na biografia
de John Nash (interpretado por Russell Crowe), um matemático
e esquizofrênico, ganhador do Prêmio Nobel de Economia
em 1994. Nash foi bolsista na Universidade de Princeton,
e não comparecia às atividades universitárias, pois
preferia estudar sozinho. Após ver o filme, e compará-lo
com outros, percebi as diferenças no modo de apresentar
o cientista e a atividade científica, resultando então
nas seguintes perguntas: O que é o cientista? E o
que faz?
O cinema de quinta categoria hollywoodiano define o
cientista como um deficiente mental, que ri do nada,
assexuado, e que possui pouco traquejo social ou familiar
(como se a vida familiar e social, nesses filmes, não
fosse um convite à demência). Sua atividade consiste
em manipular vidrarias, num ambiente enfumaçado e obscuro,
em que as descobertas acontecem por acaso. Geralmente,
além de ser obra fortuita, ainda sugere que a descoberta
é mérito apenas do indivíduo: Newton viu a maçã, disse
"eureka", e estava pronta a teoria da gravitação
universal. Como se Newton não tivesse antes estudado
Física, formulado problemas, experimentado soluções,
dialogado com outros físicos contemporâneos a ele e
lido os do passado, et cetera.
O filme do diretor Ron Howard traz certas inovações,
até por ser biográfico. Por exemplo, o cientista tem
uma esposa, Alicia (Jennifer Connelly), e o que é fantástico,
ele não a perde para um cara sarado, rico e burro. E
pasmem, Nash ainda tem um filho!
A atividade científica aparece como labuta diária, em
que há avanços, recuos, erros, observação... E portanto,
não é fruto do acaso. Alguns aspectos ainda permanecem,
como por exemplo: Nash tem problemas mentais e às vezes
figura solitário. Além disso, mantém a mesma falácia
da oposição entre o amor e a razão, e curiosamente,
a escolha é sempre em prol do amor, ou seja, eles adoram
finais de histórias opostos ao que fazem na vida real.
O isolamento do cientista em relação à sociedade contrapõe-se
ao que historicamente ocorreu com os pensadores, os
quais sempre viveram as suas idéias.
Bem, John Nash é apenas um matemático, e viver um teorema
deve ser bem difícil. Sócrates, filósofo grego, é um
exemplo emblemático, e até trágico, do que seja viver
as suas idéias. Por sua atividade filosófica, foi acusado
de perverter a juventude, desrespeitar os deuses e descumprir
as leis, o que o levou a ser condenado a beber cicuta
(veneno). Hoje, os cientistas são inertes. Não cheiram
e nem fedem. Aliás, o título do filme sugere uma estrela,
uma mente, brilhando no céu, bem longe da Terra. Se
ser um pensador ou um pensante é viver as suas idéias,
será que ainda existem pensadores? Será que vivemos
um apagão das mentes?
"O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscam na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da verdade."
Fernando Pessoa, Mar Portuguez.
UMA MENTE BRILHANTE (A Beautiful Mind,
2001)
Direção: Ron Howard.
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed
Harris, Paul Bettany.
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