Niilismo Poético Nu e Cru

 

Ricardo Rangel

 
 

Melancolia (Melancholia, 2011), o último filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier, possui a característica marcante do autor: sempre provocativo, polêmico e instigador; a sua primeira metade é marcada pela crueza e pelos diálogos ácidos, e na segunda parte o tom da narrativa suaviza e se apresenta bem menos cru que o de costume, mas não menos provocador e digno de muita especulação e discussão.

 

A estória de Melancolia divide-se em dois capítulos: o primeiro é intitulado Justine, nome da personagem interpretada por Kirsten Dunst, e gira em torno da sua festa de casamento patrocinada por sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu cunhado John (Kiefer Sutherland); o segundo chama-se justamente Claire e está focado nesta personagem. Os dois capítulos são permeados pelo evento central que os relaciona e que constituem o cerne roteirístico da película, a saber, a iminência da colisão do planeta Melancholia com a Terra, em um cataclisma apocalíptico que determinaria o fim da humanidade e de nosso planeta, que seria aniquilado por completo nesse hipotético choque. A festa de casamento de Justine, realizada na mansão de John e Claire, serve de preâmbulo para o fim que se prenuncia a partir do início de Claire, que tem em seu cunhado milionário um aficcionado por Astronomia que acompanha o trânsito do planeta em direção à Terra, o qual juntamente com sua esposa são anfitriões de uma recepção tensa, repleta de questões familiares que vem à tona, especialmente com a matriarca (Charlotte Rampling), contrária à instituição do matrimônio e que externa esta sua crença na frente de todos os convidados sem pudor algum, causando constrangimento a todos os presentes.

 

Melancolia é, no conjunto da obra, em seu todo, um filme deveras irregular, em que a conexão da primeira com a segunda parte não se apresenta de todo clara e se configura um tanto como que confusa e obscura. Mas  se olhado separadamente, possui um resultado bem interessante, especialmente da metade para o final. Lars Von Trier abre seu tratado sobre a extinção da humanidade e o fim do mundo, pessimismo do qual faz questão de ressaltar recorrentemente com todas as letras, de forma lírica e com belíssimo visual: as imagens de Justine entremeadas pela natureza em tons coloridos e ao mesmo tempo desbotados, e a vida esvaindo-se efemeramente, ao som de excertos de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, dão um tom poético e idílico a algo ao qual a inconformidade humana impera em um juízo essencialmente universal, que é a despeito da sua condição finita na existência, pelo menos em relação a um sujeito que possua identidade pessoal, consciência de si e auto-consciência desta finitude enquanto tal sujeito, no que, por exemplo, Martin Heidegger em “Ser e Tempo” elegeria como a máxima inquietação e indagação humanas, a saber, a questão existencial de por que  antes o Ser e não o Não Ser, ou então também o famoso “Ser ou Não Ser” shakespeariano.

 

Em Justine (não por acaso, e isto talvez seja mesmo uma (in)feliz coincidência, o nome da mais ilustre personagem dos contos do Marquês de Sade, ícone dos infortúnios da virtude, ou das virtudes do vício, a imoralidade e amoralidade máximas e exemplares da obra sadiana... se Melancolia se pretende arte transgressora da moral, aos olhos ou não de seu autor, é questão para longo e complexo debate), se apresenta o início do fim, antes cercado pelo drama familiar catártico do que pelo alegórico planeta azul em rota de colisão com nosso ameaçado mundo: os medos e angústias, de alguma forma, começam a se mostrar. Como em “Festa de Família” de seu conterrâneo de tempos de Dogma 95 Thomas Vinterberg, porém bem mais palatável do que esse aos menos desavisados, Von Trier já desfia sua ironia e o seu sarcasmo nos assuntos mal resolvidos na vida privada, expondo as feridas e as chagas de seus protagonistas. Justine é desajustada emocionalmente, parece sentimentalmente confusa; Claire a reprime, sua mãe a despreza implacavelmente, seu pai não tem pulso suficiente, e John exige de si uma felicidade que ela nunca encontrará em troca de sua festa pomposa e, sobretudo, mentirosa e falsa. A sua faceta mais perturbadora, contudo, se mostrará ao espectador em Claire, onde sua indiferença enigmática com a chegada de Melancholia causará incômodo e desconforto, contrastando com a angústia e o medo de Claire, que quer salvar a tudo e a todos do final candidamente, emquanto John covardemente se tranca em seu mundo de contemplação ao planeta novo que está chegando.

 

Lars Von Trier lança densidade nos seus personagens, que com suas facetas psicológicas retratam e metaforizam a agonia e o pavor de quem compartilha sua obra, fazendo-nos identificar ou demonizar com tanto; o mesmo se poderia especular para a figura simbólica de Melancholia, que já ouvi alhures compararem com “Solaris”, em uma equivalência de sentido e referências. Sinceramente, não vejo relação alguma, a não ser uma mera e limitada alegoria, pois o enfoque tarkovskiano da solarística é muito distinto do que creio que Von Trier tentou dar ao seu filme, além de muito mais profundo e denso: Melancholia não é um planeta auto-consciente e com uma complexidade organística como Solaris, sua função é fazer o homem ver o quanto é humano em sua “humanidade”, e conformar-se com essa finitude como um fenômeno meramente natural. Tal “humanidade” está no desespero de Claire, mas também na impassividade e inércia de Justine, que aceita seu “destino” sem reservas, não demonstra qualquer compaixão pelo semelhante: sua leitura intercalcada por uma compreensão e comunicabilidade ininteligível a nós para com Melancholia é a de que “a humanidade é má”. Bem, eis aí uma tese a se defender ou refutar - esta análise e discussão transcenderia para muito além do que esta resenha requer e pretende. Esta é a, digamos assim, “essência” do filme, o qual Von Trier nos joga num ritmo niilista e poético, e ao mesmo tempo, sem ser contraditório, nua e cruamente, como um soco no estômago, uma pancada na alma, bem ao seu estilo.

 

Diferentemente do apresentado, quando de seu manifesto pró-Dogma 95, em “Os Idiotas”, no qual a sociedade foi duramente criticada pelo comportamento demente e desconfortável de uma comunidade transgressora, ou de “Dogville”, sua obra maior, onde o poder e suas relações são magistralmente tratados de forma dura e implacável em um cenário artificialmente construído - como a vida dos habitantes daquele vilarejo que escondiam suas hipocrisias por trás de suas máscaras -, ou o visceral e impactante “Anticristo”, metáfora dos valores morais calcados pela tradição judaico-cristã e seu Éden ordenado contrastado por um Purgatório e Hades humanos repletos de culpas e arrependimentos, Melancolia é assustadoramente terno e tenso, doce e amargo, harmônico e caótico, poético e niilista, mas nu e cru como o velho Von Trier sempre foi - uma marca registrada sua, independentemente de suas provocações e declarações polêmicas fora de contexto. Pena que faltou conectar os mundos distintos de uma forma um pouco mais coerente, mas isto não compromete, de forma alguma, o seu produto final: o torna mais intrigante. Lars Von Trier é um artista, e a genuína arte não é moral e tampouco imoral, mas sim amoral, e este, ao que parece, é o legado que ele procura deixar da sua obra cinematográfica como um todo.

 

MELANCOLIA (Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011)

Direção: Lars Von Trier.

Elenco principal: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt.

Cotação: ****