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Megamente (direção de Tom McGrath, 2010), da
Dreamworks, é uma animação com leve sabor vintage de
heroísmo x anti-heroísmo, cujos ingredientes principais
vão de alusões a um clássico da série Superman
- cujo papel de Marlon Brando é satirizado - até a mais
recente explosão de heróis atrapalhados, como em Os
Incríveis, ou dos anti-heróis que resolveram sair
da marginalidade e povoar o cinema de animação dos últimos
anos.
Metro Man e Mega Mente são inimigos desde a infância,
e ambos vieram parar na Terra ainda bebês, fugindo de
problemas em seus planetas. Metro Man, por uma série
de fatores aleatórios, conseguiu estacionar sua nave
em uma casa luxuosa, crescer em um lar próspero, ter
uma boa educação e ser admirado por todos pelos seus
superpoderes. Mega Mente (pelos mesmos fatores aleatórios
mas que sempre pendem para o azar, em relação a ele)
estacionou no pátio de um presídio, e foi "educado"
pelos próprios detentos. O reencontro dos dois extraterrestres,
anos depois, na escola, marcaria o início oficial da
rivalidade. Mega Mente, após diversas tentativas (infrutíferas)
de ganhar a atenção da turma (que era toalmente voltada
para Metro Man, o "Senhor Certinho"), resolve que ser
mau é a sua verdadeira especialidade, e a partir de
então torna-se um grande malfeitor a quem Metro Man
precisa deter, principalmente do sonho de dominar Metro
City.
Para todos os efeitos, Megamente é uma ótima
comédia de animação. O roteiro garante momentos de fino
humor e besteirol, uma mistura aparentemente impossível,
mas que deu muito certo nas piadas e situações-limite.
Porém, a história não é de admirável originalidade (até
porque é uma homenagem ao Superman e outros tantos
heróis, e por isso mesmo faz um amálgama de temas e
histórias das mais diversas fontes).
Por dentro da Mente
Sêneca disse que "a maldade bebe a maior parte
do veneno que produz" , e é justamente ante essa
máxima que em Megamente vemos acontecer as derrotas
e quase-vitórias do vilão da grande cabeça azul. O bem
parece triunfar perpetuamente sobre as tentativas fracassadas
da "suprema vilania", contudo, eis aí o gancho para
o futuro desenvolvimento do roteiro, que desemboca em
algumas questões: o Mega Mente era, de fato, mau? Sua
educação no presídio influenciou sua opção pela maldade?
O ambiente externo interferiu nas suas atitudes e escolhas
para ser um vilão?
Do processo educacional de Rousseau à existência sartreana,
podemos pensar em alguns motivos para o comportamento
crescentemente ambíguo do vilão, que hora apresenta
planos malignos para a morte do seu arqui-inimigo e
domínio pleno de Metro City; hora demonstra apaixonar-se,
sentir medo, e um vazio existencial quase depressivo,
quando do desaparecimento de Metro Man, o verdadeiro
significado de sua existência má - é como disse Nietzsche
em Além do Bem e do Mal: "em tempos de paz,
o homem belicoso engalfinha-se consigo mesmo".
A ausência do bem esvazia o mal, e o paradoxo que se
segue é uma situação que já foi e é exaustivamente discutida:
Mega Mente, o entediado representante da maldade, começa
a trabalhar em um projeto para criar o bem, alguém para
se opor aos seus planos, para caçá-lo, para disputar
Metro City com ele. Então aparece Titan, o herói construído,
que pouco depois de seu "treinamento extraterrestre",
passa agir de forma completamente diversa da qual foi
criado para agir. Se a discussão sobre a construção
do mal esteve evidente na primeira parte do filme, agora
é sobre a construção do bem e remissão do mal que o
enredo passa a discorrer.
Em meio à comédia, algumas discussões morais e éticas
(baseadas e desvios e remissão de condutas) dão um ar
mais sério e menos pueril ao filme. Essa seriedade,
por sua vez, é acompanhada por uma trilha sonora que
definitivamente espantou aos espectadores adeptos de
obras clássicas como Crazy Train (Ozzy Osbourne),
Highway to Hell e Back in Black (AC/DC),
Welcome to the Jungle (Guns N'Roses), Bad
(Michael Jackson), A Little Less Conversation
(Elvis Presley, numa versão remix muito boa) além de
momentos de pura comicidade cênico-musical, como a acidental
reprodução de Lovin' You (Minnie Riperton), na
frente de toda Metro City, no momento em que Mega Mente
assume o pleno comando da cidade. O que não temos em
apuro estético na construção da imagem do filme (apesar
do ótimo gráfico), temos em compensação através do campo
sonoro, seja na edição de som, seja na música (original
ou não).
O incômodo aparece quando percebemos as lombadas e barrigas
do campo técnico, e a pior delas, é a montagem. Uma
das sequências que mais me incomodaram foi a passagem
do tempo e de espaços cênicos através do relógio transformador
de Mega Mente (que aliás, é um exímio construtor de
máquinas). A repetição da transição com aquele relógio
em chicote pela tela, além de ser muito feio,
lembra transições de desenhos animados, como Bob
Esponja, por exemplo (embora no desenho animado,
esse tipo de transição seja perfeitamente aceitável,
dado o formato e o veículo de transmissão). Ao fim da
película, apenas Bad, em louca coreografia (sintoma
que afeta a segunda película hollywoodiana este ano,
sendo a primeira, Alice no País das Maravilhas,
de Tim Burton, onde o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp)
dança o seu Futterwacken em coreografia à
la Jackson) segura a mensagem do filme, e dá uma
certa simpatia ao epílogo. Sim, falta uma boa finalização
para a história, falta o elemento desencadeador da paixão
do espectador pelas personagens e por sua trajetória
durante a fita. Falta. E o filme termina com esse vácuo.
Há pouco mais de meia década, as animações deixaram
de ser feitas unicamente para crianças. A geração pós-Monstros
S.A. , é a geração das "animações adultas", cheias
de motivos que apenas um público acima da adolescência
vai entender completamente, como por exemplo, as inúmeras
alusões sexuais em A Era do Gelo 3. Uma obra
como Megamente chega aos cinemas e traça uma
linha divisória entre esses dois públicos: parte do
filme só entende os adultos (como a piada com o "pai
espacial" do "herói bom" Titan: que criança saberia
dizer que se tratava de uma imitação de Marlon Brando?),
e por conter uma narrativa extremamente dinâmica e menos
infantilizada (inclusive na mensagem que passa), também
recebe o efusivo aplauso do público infantil. Além disso,
sequências que tocam a sensibilidade de todos os espectadores
tornam algumas cenas absolutamente inesquecíveis: quem
não se encantou com o "olhar carente" do Servo, ou quem
não riu com os erros de linguagem do Mega Mente?
Embora falte uma boa finalização para a trama, e mesmo
o seu desenvolvimento seja manco, o filme está acima
de muitas produções recentes, e merece destaque como
uma das melhores animações desse segundo semestre de
2010.
A amizade, o amor, o bem e o mal são as colunas que
sustentam Megamente, e a figura do anti-herói
ganhou aqui um trabalho digno de nota. Em um mundo nada
comum, situações bizarras e planos mirabolantes ganham
a graça que o absurdo tem, inclusive uma emblemática
cena de confraternização, onde a tríade de amigos erguem
os seus churros para "brindar" o sucesso de uma empreitada.
Megamente é uma quase-vitória da mega mente de
Tom McGrath, que depois de codirigir os dois volumes
de Madagascar, assume sozinho a mega direção
de um mega vilão. Não resta dúvida: Megamente
não é um mega filme, mas engana e encanta mega bem.
MEGAMENTE (Megamind, EUA, 2010).
Direção: Tom McGrath.
Elenco principal com vozes originais de: Will
Ferrell, Brad Pitt, Tina Fey, Jonah Hill.
Cotação: ***
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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