MATRIX: MODOS DE VIDA
Adriano Hannecker
 
 
(...)
"Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
Acordo com toda a vida,
com todos os cinco sentidos
sobretudo com a vista
que dentro dessa prisão
para mim não existia."
(...)

João Cabral de Melo Neto, Auto do Frade.

Matrix não é apenas uma viagem intrigante que mistura o virtual com o real, nos propondo o dilema de desconhecermos o que é real e o que não é. Também é a transposição de um modo de vida adotado pela sociedade contemporânea, na qual o indivíduo se relaciona com o outro e o mundo através da rede (internet). O mundo virtual, no filme, nada mais é do que esse viver de forma radicalizada, ou seja, em estágio, talvez futuro, em que toda a relação se dá via computador. Quando Morfeu (Laurence Fishburne) estende a mão a Neo (Keanu Reeves), para que este escolha entre as duas pílulas - a vermelha ou a azul, o mundo virtual ou o mundo real - está propondo, na verdade, a escolha entre duas maneiras de viver. Para ilustrar essa idéia, podemos pensar num encontro entre amigos, que pode acontecer tanto numa praça como numa sala de bate-papo. Se a opção for a primeira, terão que vivenciar certas coisas como: deslocamento físico, interação com pessoas e ambientes, presenciamento de situações, obtenção de informações que não teriam caso não estivessem presentes,...Caso a escolha fosse a segunda, seria eliminada toda a experiência descrita acima.

O curioso é que muitas pessoas pensam o que o filme tem o propósito de apoiar ou justificar esse modo de vida (o virtual), de mostrar que é emocionante, é adrenalina, que não possui limites, quando é justamente o contrário o que a obra propõe: o virtual não é emocionante, nem adrenalina, mas sim, alienação. Por quê? Ora, porque a "vida" que existe em Matrix resulta de uma criação das máquinas, dos computadores. Usemos o exemplo anterior. As sensações que os amigos têm seriam produzidas por estímulos eletrônicos. Imaginam estar frente a frente, quando estão numa cuba trespassados por engrenagens que os mantêm vivos, e cujo propósito é produzir energia para as máquinas. Ou seja, a virtualidade é uma farsa com um interesse determinado.

Atualmente podemos dizer que o virtual não representa uma farsa total, pois há elementos ou experiências reais que se dão via rede. A farsa seria pensar o virtual como abrangendo toda a vida das pessoas, de modo a bloquear o acesso ao real. Se observarmos um pouco, veremos que essa idéia é antiga. O acesso à ciência é, e sempre foi, restrito. Na Grécia, o conhecimento restringia-se às escolas filosóficas. A Escola Pitagórica, reza a lenda, ameaçava de morte os seus membros para que não revelassem as suas descobertas. No período medieval, não era permitido às pessoas comuns possuírem livros - estes eram trancafiados em bibliotecas, às quais somente tinha acesso os padres, como mostra bem o filme "O Nome da Rosa". Hoje, o acesso ao conhecimento se dá pela compra, adquire-se ciência assim como se compra tomate na feira. Claro que, às vezes, leva-se gato por lebre, ou será na maioria das vezes? A virtualização não seria uma forma de afastar as pessoas da ciência, do real? Um meio de alienar a própria condição humana? Será que estamos nos encaminhando para Matrix?

Há uma sociedade em formação que trilha por esse caminho, cujos indivíduos, cada vez mais, usam o computador como intermediário entre si e o outro e o mundo. É o que podemos chamar de uma volta às cavernas, só que com uma decoração mais sofisticada. Uma conseqüência grave desse processo: a geração de indivíduos anti-sociais. Anti-social, não no sentido de pessoas que não concordam com uma determinada sociedade, e por isso, se afastam ou tentam mudá-la, mas no sentido representado pela cena, em Matrix, dos fetos dentro de cubas. Ou seja, de pessoas que nem sequer conhecem o outro e o mundo para poder discordar, criticar, sugerir...Estão separados, isolados, e o que têm acesso é algo que foi transformado em texto, imagem, som, algo direcionado e que tem um propósito. Muitos pensam que a internet é um Deus desinteressado que tudo sabe. Porém, o que entra na internet passa pelas mãos humanas, por interesses, por ignorâncias. É sempre uma versão de alguém. Se leio a descrição de uma paisagem, esta surge como uma perspectiva de alguém. Nem mesmo sei se tal paisagem existe ou não. Onde entra a experiência individual nisso?

Por outro lado, a incorporação do computador ao indivíduo não é um fenômeno de possessão, em que o computador figura um demônio a ser exorcizado. Muitos outros utensílios exercem papel semelhante de intermediar as relações. A televisão, por exemplo, permite que a pessoa permaneça em casa vendo novelas, filmes, programas, noticiários,...ao invés de propor diálogo a outrem.

Nessa esteira, vem um fenômeno mundial, que é o afastamento entre os homens. Isso ocorre por vários motivos: econômicos, políticos, sociais, entre outros, o qual se acha aprofundado pelas novas tecnologias. Porém, o discurso que apóia esse movimento diz o inverso, que as pessoas estão cada vez mais próximas. Próximas de quê? Das máquinas? Dos discursos, da linguagem falada, escrita? Quer dizer que, estar próximo é simplesmente estar em contato com o que alguém diz, com o seu repertório lingüístico, com a sua imagem? Com a dificuldade de se encontrar um próximo, proponho a mudança da máxima cristã "Ama teu próximo como a ti mesmo" (que não é apenas cristã, porque outras doutrinas, sistemas filosóficos, também a sustentam) para "Ama teu distante como a ti mesmo". Mas será possível amar o distante?

"Conheço toda a gente
que deságua nestes alagados.
Não estão no nível de cais,
vive ao nível da lama e do pântano.
Gente de olho perdido
olhando-me sempre passar
como se eu fosse trem
ou carro de viajar."

João Cabral de Melo Neto, O Rio.

MATRIX (idem, 1999)

Direção: Larry e Andy Wachowski.

Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantoliano.