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À
BEIRA DA GUILHOTINA
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Adriano
de Oliveira
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Você sabe que está acontecendo algo de errado quando
um filme épico começa ao som de rock. Confirma
suas suspeitas ao notar que Rip Torn e Steve Coogan, comediantes,
estão nesse tipo de filme, que se propõe à seriedade.
Constata que Kirsten Dunst não foi das melhores escolhas
para protagonista. Carimba o passaporte da insensatez
fílmica ao ver um clipe no meio da projeção. Assim,
poderíamos facilmente mandar "Maria Antonieta"
para a máquina inventada por Monsieur Guillotin. Mas é
cedo para julgar, há alguns méritos na película que podem
aliviar tal pena.
De fato, colocar rock na trilha de um filme ambientado
no final do século XVIII não fica bem, por mais transgressor
que se queira ser. Basta lembrar "Coração de Cavaleiro",
que praticamente sepultou a carreira de diretor para Brian
Helgeland, mandando-o de volta àquilo que sabe fazer de
melhor: roteiros. Sim, é verdade que Helgeland voltou
a dirigir depois desse tropeço, "cometendo" o horroroso
"O Devorador de Pecados" (sem mais comentários!).
Compensando - um pouco - tal deslize, Sofia Coppola tem
a sapiência de colocar na soundtrack de "Maria
Antonieta" adequadas peças de Jean Phillippe Rameau,
coerentes com a época, porém o estrago estava feito.
Além do problemaço de casting citado, de nomear
Torn e Coogan, ambos sem ao menos tentarem ficar mais
sisudos em um filme que deveria ser sério - e o que dizer,
então, do primo da diretora, o usualmente cômico Jason
Schwartzman, como um Luís XVI fazendo cara de "nada" o
tempo todo -, há uma pedra chamada Kirsten Dunst no meio
do caminho. Pedra do tipo Jano, com faces distintas. A
parte polida revela o lado positivo da atuação de Dunst:
ela torna crível a evolução de uma jovem aristocrata austríaca
assustada com a inesperada missão de se casar com o Delfim
francês, para uma rainha deslumbrada com a realeza e a
dolce vita que a rotina palaciana lhe oferece (embora
seja isto também um mérito do roteiro). Já o lado áspero
mostra que tal caminho psicológico apresentado não é feito
de modo ideal: notadamente uma atriz limitada, Kirsten
tem dificuldade em emular certos estados de emoção, e
se torna, por várias vezes, careteira.
Na fita de Coppola, falta ritmo. Se por um lado, a diretora
opta, do ponto de vista narrativo, por uma certa desdramatização
da trama, limitando o uso de closes faciais e rodando
planos brandamente mais longos para ilustrar o tédio da
vida aristocrata, por outro ela é igualmente capaz de
usar cortes rápidos e até um verdadeiro clipe no meio
da história, somente para mostrar o deslumbre com a opulência
real. Seria essa arritmia uma, dentre outras, incursão
autoral? Certamente sim. E talvez esteja aqui o ponto
de virada rumo a uma pequena redenção de "Maria Antonieta".
Parece claro que, ao insistir em ousar na trilha, em escalar
uma atriz de sua confiança (Dunst esteve também
em seu "As Virgens Suicidas"), em impor
uma linguagem e ritmo particulares, Sofia quis fazer um
"filme de autor". Não é uma má intenção, obviamente, mas
a filha de Francis escolheu um artigo errado para tal
intento, ultrapassando os limites de que a estética particular
se reserva quando se trata de um épico. Possivelmente,
o excesso de aplauso para "Encontros e Desencontros"
tenha catapultado para muito alto o espírito criativo
e os limites da realizadora. Para alguns, um pecado perdoável;
para outros...
Algo que realmente salva "Maria Antonieta" da execução
sumária, se encontra na irretocável direção de arte e
na beleza dos figurinos (estes premiados com o Oscar).
No requinte visual cênico se concentra a força do filme,
juntamente com alguns bons usos de elipses que Sofia efetua.
Cabe então particularmente, destacar a elíptica e metafórica
conclusão da obra: evitando o lugar-comum de mostrar o
destino final da protagonista na guilhotina, Coppola também
afastou seu filme da degola.
MARIA ANTONIETA (Marie Antoinette, 2006)
Direção: Sofia Coppola.
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Asia
Argento, Rip Torn, Danny Huston, Judy Davis, Steve Coogan.
COTAÇÃO: **
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