|
|
|
|
| |
| |
| |
|
UMA
FICÇÃO ESTRANHA
|
|
Ricardo
Rangel
|
| |
 |
| |
Imitar, seguindo o mote de sucesso de filmes bem roteirizados
e inteligentes como "O Show de Truman" e "Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças", por exemplo,
não é das tarefas mais triviais; pelo contrário, pode
tornar-se hercúlea, inclusive, se a intenção seja mostrar
qualidade, como é o caso destas duas produções. Pois Marc
Forster, em "Mais Estranho que a Ficção", bem que
tentou seguir a fórmula dos roteiros intrincados e viajantes
de Charlie Kaufman, inclusive recrutando um aprendiz deste,
Zach Helm, para realizar o roteiro desta, a mais recente
obra do diretor de "A Última Ceia"
e "A Passagem".
Mas o resultado, ao final, infelizmente, fica distante
do humor sarcástico e delirante de Kaufman (que também
escreveu "Adaptação", onde Nicolas Cage interpreta
um alter ego de Charlie, um roteirista para lá de genial
e problemático, e que tem um irmão gêmeo que quer "roubar"
suas idéias e fazer roteiros também, aproveitando-se do
talento incomum do mano): em "Mais Estranho...",
Forster procura seguir a mesma fórmula, mas tropeça em
dificuldades atribuídas ao roteiro e na interpretação
um pouco deficiente do seu time de atores. E tem peixe
grande aqui: Dustin Hoffman e Emma Thompson, por exemplo;
Will Ferrell, que interpreta o personagem principal, até
não está tão mal, para quem conhece o trabalho deste ator
(é só assistir "A Feiticeira", com Nicole Kidman,
para saber o porquê disto...), porém seus recorrentes
trejeitos prejudicam deveras o resultado final.
Estes fatores, lamentavelmente, deixaram a desejar no
que poderia ter resultado em um produto final mais introspectivo
e reflexivo, aspectos tidos por essenciais em obras desta
natureza. A impressão que fica é de que ficaram faltando
algumas coisas, e a principal delas parece fácil de se
identificar: um roteiro de Charlie Kaufman, é claro. A
história fluiria mais, seria mais recheada de idiossincrasias
e misantropias próprias do autor, e seria mais engraçada
também, haja vista a verve humorística de Kaufman em seus
divertidos roteiros.
Harold Crick (Will Ferrell) é um tímido funcionário da
Receita Federal, metódico e obsessivo-compulsivo ao extremo
em suas atitudes do cotidiano, que acorda um dia ouvindo
uma estranha voz feminina que narra, em seu pensamento,
suas idéias, atos e sentimentos com incrível precisão.
O que parecia ser um delírio esquizofrênico temporário
passa a atormentar Harold sempre, tornando sua vida um
inferno e quebrando radicalmente a monotonia tediosa que
caracterizava a sua existência niilista. Ele vai buscar
ajuda, e após diagnosticar que aquela voz na sua cabeça
era "real" e não fruto de imaginação (??), ele vai procurar
ajuda com um professor universitário de Literatura, interpretado
por Dustin Hoffman (um pouco caricato e deslocado no papel,
lembrando também que o seu personagem ainda dá aulas de
natação para a terceira idade...). A procura por tal auxílio
é justificada: além de deduzir, pelo conteúdo da narração,
que faz parte de uma história literária, Harold desespera-se
ao ouvir da voz que, no final da história, irá morrer,
mas não tem idéia de como isto irá acontecer, e o professor
o irá auxiliar em que gênero sua história encaixa-se,
se tragédia ou comédia, por exemplo (ou tragicomédia).
A escritora é Karen Eiffel - Emma Thompson, bem como sempre,
mas seu personagem pouco aparece na trama, em que é mais
ouvida por Harold e pelo espectador, o qual compactua
com esta narração -, cujo sobrenome talvez tenha alguma
relação com a famosa torre parisiense, e que vive um processo
de falta de criatividade para dar o acabamento à sua história,
onde para isso contrata uma assistente para apoiá-la,
vivida por Queen Latifah (até isso tem...hoje em dia,
essa seria uma profissão que renderia frutos para escritores
frustrados, por exemplo!).
Enfim, a história, como se pode minimamente perceber,
tem inspiração kaufmaniana, mas carece de certa originalidade,
costuramento dos fatos e, principalmente, de um desmembramento
mais argumentativo e ideático como em "O Show de Truman"
(roteiro do criativo Andrew Niccol, de "Gattaca"),
por exemplo, onde o desespero e a angústia de Truman dão
consistência e vivacidade à trama, e em "Brilho Eterno...",
o qual possui uma dinâmica narrativa envolvente e que
"puxa" pela imaginação e reminiscências recorrentes dos
personagens centrais, além de estimular o exercício intelectual
do espectador com a complexidade de um roteiro muito bem
construído e amarrado (fatores que não existem em "Mais
Estranho..."), além de ter um humor fino e irônico,
também. Detalhe: em ambos estes filmes, cujas histórias
assemelham-se muito pelas temáticas, o personagem principal
é o mesmo: Jim Carrey. Seu talento, em especial aqui,
na comédia dramática inteligente, ou drama "cômico", se
revela e faz muita diferença em cena (coitado de Will
Ferrell, bem que ele tentou, mas muitas lacunas ficaram
vazias na sua atuação...mas, decididamente, a culpa não
é só dele!).
Ou seja, da próxima vez que forem fazer um filme que trate
destes tópicos, com esta temática, escalem Charlie Kaufman
para escrever o roteiro - ou um aprendiz muito competente
dele, ou um guionista criativo de fato -, e Jim Carrey
para o papel principal, de preferência. Essa dobradinha
já deu certo no passado, e em time que está ganhando não
se mexe, pelo menos, no mais das vezes...
MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO (Stranger Than Fiction,
2006)
Direção: Marc Forster.
Elenco: Will Ferrell, Dustin Hoffman, Emma Thompson,
Maggie Gyllenhaal.
COTAÇÃO: ** |
| |
|
|
|