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RÁPIDO
E CORTANTE
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Adriano de Oliveira
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O trailer que virou filme. Assim poderia ser
definido "Machete" (2010), longa de Robert Rodriguez
em co-direção com Ethan Maniquis, antigo colaborador (e
mais tarde, autor) da edição de filmes anteriores do primeiro.
Tudo começou no projeto "Grindhouse" (2007), onde
Rodriguez e seu partner Quentin Tarantino fizeram
uma homenagem às velhas sessões duplas de filmes B, geralmente
versando sobre violência, sexo ou algum tipo de exploitation,
em cinemas americanos menos conceituados. No intento,
os filmes "Planeta Terror" do primeiro e "À
Prova de Morte" do segundo, eram exibidos na sequência,
sendo intermediada a exibição entre um e outro por trailers
falsos especialmente feitos para o projeto, entre os quais
o de "Machete"."Grindhouse" somente rodou
em sua forma original nas terras do Tio Sam, sendo desmembrado
em dois para o resto do mundo. No Brasil, os filmes foram
exibidos com uma bela diferença temporal entre os lançamentos
dos mesmos e se encontram disponíveis em DVD.
Com uma onda de fãs do trailer fake na internet,
Robert apostou em fazer dele um longa - ou seja, "transformar
o rascunho em arte final", seguindo o espírito de um dos
versos da canção "Como Eu Quero" (de Leoni e Paula
Toller). E o bacana é que as cenas do preview praticamente
se repetem no filme - com pequenas alterações, como mudanças
de atores secundários entre uma produção e outra.
"Machete" precisa ser visto como (mais um) divertimento
de Rodriguez e não sob aquela ótica com que críticos obsessivamente
o atacam, esperando que ele seja um "segundo Tarantino"
ou um autor por excelência, algo que o diretor não é.
Evidentemente, dentro de um processo simbiótico do ponto
de vista intelectual, Rodriguez absorve e repete ideias
tarantinescas em seu novo filme, como o emprego de atores
de (relativo) sucesso imediato no passado que caíram no
esquecimento - seu velho colaborador Cheech Marin, um
quase irreconhecível Don Johnson do seriado oitentista
"Miami Vice", Tom Savini de "Cavaleiros de Aço"
(George Romero, 1981), o eterno coadjuvante Jeff Fahey
- e a inserção de poluições visuais artificiais, como
riscos e "poeiras", recurso para dar um ar vintage
à película apresentada.
Aliás, o elenco de "Machete" se mostra dos mais
inusitados. Além do "time" de veteranos supra-citado,
há aparições exorbitantes ali: Robert De Niro(!) muito
caricatural, como nas suas recentes atuações (exceto na
sua performance competente em "Homens em Fúria",
do ano passado); Daryl Sabara, que foi o "grande ator
mirim" de Rodriguez em "Pequenos Espiões" e suas
continuações, agora é um pós-adolescente; um Steven Seagal
que não toma jeito como ator, mas está um pouco mais divertido
do que aquele robô que luta aikidô e usa revólver
de seus filmes nos últimos dez anos. Também temos Nimród
Antal, um húngaro-americano conhecido por dirigir filmes
fracos ou medianos ("Temos Vagas", "Assalto
ao Carro Blindado", "Predadores"), realizando
uma ponta como um segurança particular do antagonista
interpretado por Jeff Fahey. O papel-título é encarnado
por Danny Trejo, um sessentão que já puxou cadeia e depois
enveredou pela carreira de ator. Sempre fazendo de vilão,
aqui ele quebra paradigma e vira "herói". No caso, Machete
é um ex-agente da polícia federal mexicana que surge vítima
de dois golpes e vai à forra contra seus inimigos.
Ainda cabe falar do casting feminino da película.
Sem muita inventividade, Robert faz de Michelle Rodriguez,
ao final do longa, quase que exclusivamente uma versão
latina e sem metralhadora na perna da personagem de Rose
McGowan em "Planeta Terror"; menos mal que a líder
clandestina Shé que Michelle interpreta, constitui filmicamente
uma brincadeira - mais no sentido fonético do que qualquer
outra intenção - com o lendário guerrilheiro Che (Guevara).
Jessica Alba continua a gracinha de sempre e a má atriz
de sempre; o que a salva está em sua beleza inegável
e numa homenagem do diretor-roteirista: ela é Sartana,
cujo nome constitui alusão a um personagem que deu títulos
à uma dezena de spaghetti westerns de baixa
qualidade nos anos 60 e 70. Lindsay Lohan entra em campo,
e de memorável produz pouco além de uma piadinha com o
personagem de De Niro; já a sua cena na piscina sugere
a presença de uma dublê de corpo. Quem não exigiu e nem
precisa de body double nenhuma, é a exuberante
novata Mayra Leal, que surpreende duplamente: por sua
nudez e por sua semelhança com a estrela latina Eva Mendes.
Rodriguez passa o filme todo empregando ultra-violência
(da qual a arma que dá nome ao personagem-título é um
ícone) e humor de natureza mórbida - cujo supra-sumo está
na cena onde Machete pula de um andar a outro de um hospital
utilizando-se das vísceras de um oponente como corda.
Por sinal, o protagonista se mostra um especialista no
uso de armas brancas, desfilando em cena um emprego sem
fim das mesmas, com um número de "variações" impressionante.
Mesmo que se relevem algumas situações absurdas que vão
se sucedendo na trama, não é possível deixar de se incomodar
com certos furos do roteiro e outros exageros que deixam
o filme às raias de uma ficção científica. Com isso, sacadas
boas da fita, como a fusão de um incêndio no espaço diegético
com as chamas fake do selo do Troublemaker Studios
ou uma referência divertida a um efeito sonoro do seriado
setentista "O Homem de Seis Milhões de Dólares",
ficam um tanto eclipsadas.
MACHETE (Idem, EUA, 2010)
Direção: Ethan Maniquis e Robert Rodriguez.
Elenco principal: Danny Trejo, Jessica Alba, Jeff
Fahey, Robert De Niro, Don Johnson, Steven Seagal, Michelle
Rodriguez.
Cotação: *** |
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