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LUZES
FRIAS DE UM INVERNO SENTIMENTAL
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Adriano
de Oliveira
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Vejamos a sinopse de "Luzes na Escuridão": guarda-noturno
de um shopping center é seduzido por mulher fatal
e involuntariamente acaba contribuindo para um assalto
em uma joalheria do complexo pelo qual deveria zelar.
Se você achou que essa premissa constitui a base de um
filme noir, gênero cujo ápice produtivo
se deu na primeira metade do século passado, saiba
que você está certo. Mas o que vai lhe surpreender é que
o tal título em questão não consiste em um noir
típico - ao menos aquele dos moldes hollywoodianos
a que nos acostumamos do ponto de vista cinematográfico.
O diretor finlandês (ah, uma pista para elucidar o porquê
dessa diferença) Aki Kaurismäki subverte as tradicionais
regras do jogo desse gênero fílmico ao empregar seu leitmotiv
como pilar - e não como fim em si - para a construção
de uma obra de teor social e psicológico, bem como detentora
de um andamento minimalista no concerne às ações - algo
que o iraniano "Ouro Carmim", de Jafar Panahi,
havia feito em 2003.
Se o maior mérito do filme nórdico está em cumprir
com efetividade seu objetivo de estruturar uma crítica
social em torno de um núcleo que não é habitual ao tipo,
talvez o seu grande problema esteja em querer peremptoriamente
impor a si uma atmosfera demasiado gelada, a qual acaba
por afastar gradualmente o espectador da trama. Tudo em
"Luzes na Escuridão" é deveras austero. As situações
são objetivas, os diálogos, mínimos, e a fotografia de
externas opta por uma luz melancólica. Nada disso constitui
incômodo - e inclusive soa coerente dentro de uma certa
proposta estética, regada ainda a planos tão econômicos
quanto belos - não fosse o andamento do personagem principal
dentro da história e a aridez emocional dos secundários.
Esses aspectos do roteiro de Kaurismäki (sim, ele é
também guionista aqui) são o que mais pesa na função
de criar uma barreira emocional crescente entre plateia
e tela. O protagonista se assemelha a um Jó bíblico de
nosso tempo, tamanho o sofrimento pelo qual o vigilante
Koistinen (interpretado pelo ator Janne Hyytiäinen) passa.
Entanto, as reações dele a esse calvário
sempre ocorrem com uma resignação que mais parece uma
indiferença ao mundo exterior do que atos de um homem
carente enlevado por uma paixão inesperada. Em certo momento
da projeção, para aceitar o comportamento
de Koistinen, o espectador dotado de senso suporá que
o guarda noturno possui uma inteligência abaixo do normal,
algo que se presume não estar pretendido no script
do roteirista. Por sinal, o espírito de derrotismo do
filme, síntese da exploração de homens marginalizados
nas grandes cidades, é tão intenso que a inércia de seu
protagonista impede que se sinta comiseração do mesmo,
mas sim, antipatia por ele. Era essa a intenção do realizador?
Outros detalhes, tanto os pouco prósperos da fita, como
a caracterização dos mafiosos da trama (onde, nesse ponto,
figurinos e direção de arte, entre o corriqueiro e o vintage,
cumprem mal o seu quinhão), quanto os melhores, como a
sua eclética trilha sonora - que vai de Puccini
a Melrose, passando por Gardel -, findam por eclipsados
diante de uma gelidez espiritual onipresente, ambientada
numa Helsinque semi-desértica, de ruas limpas e habitantes
entediados, modorrentos.
Como um prêmio àqueles que testemunharam a realização
do objetivo do diretor em mascarar um noir de filme
social, resta uma bela cena, a qual traz um pingo de esperança
à história narrada. Pena que esta é a imagem final e ali
se acendem tanto as luzes da sala de projeção quanto as
luzes na escuridão de que o título nacional trata (a tradução
literal do original finlandês seria "luzes
no crepúsculo", certamente mais poético).
LUZES NA ESCURIDÃO (Laitakaupungin Valot,
Finlândia / Alemanha / França, 2006)
Direção: Aki Kaurismäki.
Elenco: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria
Heiskanen.
Cotação: ** |
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