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A quarta temporada de "Lost" recentemente
passou na TV aberta, e se achou marcada pela irregularidade.
Alguns episódios ficaram um tanto que aborrecidos pela
lentidão com que as coisas estão andando, com alguma
"encheção de linguiça" ao se colocarem personagens a
mais na trama, que está bastante complexa pelas razões
já conhecidas de quem é "lostmaníaco", ou de quem apenas
simplesmente assiste e acompanha a série (se bem que
alguns desses personagens até podem se tornarem necessários
e essenciais).
Entretanto, em compensação, outros episódios, na sua
particularidade, estão bastante interessantes, e gostaria
de comentar brevemente aqui um deles, também certamente
um dos melhores de toda a série, a saber, o quinto episódio
da quarta temporada, em que Desmond Hume sofre as consequências
de um curioso fenômeno físico que acontece na ilha,
e que se não é o maior dos enigmas da série, provavelmente
está entre os maiores, que é o chamado Efeito Casimir,
uma defasagem no tempo que os "sobreviventes" do vôo
815 da Oceanic não percebem passar, e que está agindo
inteiramente sobre eles, podendo levar a uma possível
explicação de muita coisa esquisita que há por lá. Do
ponto de vista tanto das explicações quanto da dinâmica
narrativa, este episódio é lúdico e excelente em conteúdo,
pois nos faz refletir bastante sobre os fenômenos da
misteriosa ilha, bem como permite traçar alguns paralelos
com áreas de pesquisa recente na filosofia da mente
que são de extrema relevância na presente discussão
(não apenas neste episódio em particular, mas no todo
do seriado, especialmente os episódios intrigantes sob
estes aspectos, dentre outros), e que fazem alguma alusão
ao título deste breve comentário.
Não pretendo aqui explicar minuciosa e detalhadamente
o tal Efeito Casimir, quem quiser referências, que procure
material sobre, na internet há muita coisa relacionada
a este assunto. Na Física contemporânea, ele exige explicações
técnicas e complexas, mas a idéia envolvida aqui é a
de que a anomalia magnética que a ilha apresenta tem
como causa (pelo menos uma das, se houver mais de uma)
esse efeito, resultante do aparecimento de um campo
eletromagnético entre duas placas metálicas paralelas
descarregadas com uma distância de separação da ordem
de diâmetros atômicos (semelhante à Força de Van der
Walls (leia nota de rodapé 1)). É criada
então uma espécie de energia de vácuo ponto zero, e
no caso da ilha de Lost, há uma defasagem na
passagem do tempo para quem lá se encontra: o fato do
botão da escotilha ser apertado de 108 em 108 minutos
tem explicação nessa anomalia magnética, e Desmond foi
o primeiro a fazer isso.
Controvérsias à parte e digressões infinitas que se
poderiam fazer a partir deste ponto (na verdade, juntamente
com o Efeito Casimir, a explicação para as viagens no
tempo também está nos worm-holes, buracos de
minhoca que se abrem no espaço-tempo permitindo este
deslocamento espaço-temporal... mas, enfim, apenas isto
será dito aqui, de forma meramente ilustrativa), neste
quinto episódio da quarta temporada o físico Daniel
Faraday (nota de rodapé 2) - sugestivo
o nome do personagem, não? E ainda interpretado pelo
Jeremy Davies, o eterno maluquinho de trejeitos e caretas
de doidão... bem, ele está ótimo no papel, feito sob
medida para ele - explica, em linhas gerais, o tal efeito.
Mas tão bom quanto isto são as viagens no tempo de Desmond,
que transita sua consciência de 2004, época presente
em que eles estão na ilha - na verdade, no barco da
equipe de "salvamento" -, para 1996, quando estava servindo
no exército, e havia recém terminado seu romance com
sua namorada Penélope, e do passado para o presente
atual, agora, futuro para ele. Pelos worm-holes,
seria possível, e apenas para partículas subatômicas,
viajar ao futuro: as indas e vindas de Hume lembram
muito as viagens de Evan (Ashton Kutcher) em "Efeito
Borboleta", onde ele busca compreender desesperadamente
o que ocorre à sua volta.
Como Evan, Hume desloca apenas sua consciência no espaço-tempo:
a sensação é de estar sonhando acordado, ou de viver
duas realidades paralelas concomitantemente, que tem
relação apenas com seu aparato mental viajante. As confusões
na mente de Desmond, com sua consciência indo e vindo,
tentando buscar um sentido para sua existência conturbada,
ora lá e aqui, em tempos e espaços diferentes ganham
sentido: Desmond busca incessantemente um elo entre
estas realidades espaço-temporalmente distintas, e ouvirá
da boca de Faraday que precisa urgentemente encontrar
sua "constante" (a cosmológica, de Einstein (nota
de rodapé 3), ou a de Planck (nota de
rodapé 4)) para colocar tudo no seu devido
lugar, e terminar seu tormento... algo instigante e
muito interessante.
Cabe aqui também, além de "Efeito Borboleta",
fazer também uma analogia - e Lost permite muitas
destas, dado seu caráter multifacetado e prolixo de
seu roteiro recheado de referências científicas e filosóficas,
dentre outros quesitos - com "Matrix", em que
os sobreviventes do vôo da Oceanic poderiam estar vivendo
como no célebre exemplo do filósofo da mente e epistemólogo
Hilary Putnam, a saber, como cérebros numa cuba: Putnam
idealizou um experimento mental imaginário onde os cérebros
de todos nós estariam imersos em cubas d`água, conectados
através de eletrodos e impulsos elétricos com um computador
ou uma rede de computadores centrais que simulariam
a realidade para nós (como a Matrix).
Nesta hipótese de Putnam, o ceticismo epistêmico é levado
às suas últimas conseqüências: o mundo exterior é negado
peremptoriamente (ou seja, toda a água do moinho do
mundo para o argumento do cético), e tudo o que se apreende
cognitivamente e se vive são estados mentais do sujeito,
que são conectados a outros estados mentais de outros
sujeitos, hipótese necessária para evitar o solipsismo
total, de eu viver no meu mundo isolado como uma ilha
e não ter acesso ao mundo de mais ninguém, "mundo" aqui
entendido como estados mentais projetáveis na mente
do sujeito cognoscente e epistêmico. Esta hipótese cética
de Putnam leva ao ceticismo radical acerca da "realidade"
que nos rodeia, e a conversa do internalismo, que é
exatamente o que o cético pretende, a saber, reduzir
tudo a estados mentais (se estes são "reais", ou não,
é outra conversa muito mais complicada, e não falarei
disso aqui) e negar o mundo exterior - uma realidade
fora da mente do sujeito -, versus o externalismo, especialmente
o externalismo semântico das sentenças como veiculadoras
de conhecimento proposicional, é trazida à baila para
toda a conversa epistemológica aqui.
Bem, o que tudo isto tem a ver com Lost, e mesmo
com "Matrix"? Tudo, mas tudo mesmo:
ambos fornecem elementos fortíssimos para uma discussão
filosófica relevante e profunda em epistemologia analítica
e filosofia da mente e da linguagem contemporâneas,
como ponto de apoio. Embora este seja um ensaio e não
um comentário televisivo/cinematográfico, não é o objetivo
tornar esta discussão árida e enfadonha levando a conversa
para este lado. Torna-se inevitável abordar e tergiversar
de soslaio (no bom sentido do termo) por estas questões,
haja vista a sua máxima relevância para as questões
propostas. Poderiam, numa das inúmeras hipóteses a se
levantar, os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Air
estarem vivendo como cérebros numa cuba numa espécie
de substrato matricial de fundo, como em "Matrix".
Há as outras hipóteses, e nem todas excludentes necessariamente
entre si, de que todos estão mortos e não sabem, que
são cobaias num experimento megalomaníaco behaviorista,
que é tudo um sonho ou que eu pense e creia nisso indubitavelmente
(olha de novo aí o cético, e dessa vez o da pior espécie
possível em cena aqui, o cartesiano, ainda carregando
consigo um gênio maligno por trás de tudo, onde ele
faz tudo para me enganar a respeito da existência),
etc, dentre outras tantas.
E poderíamos nós estarmos neste estado epistêmico, crendo
que estamos vivendo nossas vidas, quando na "verdade"
não estamos, e sim estaríamos numa matrix, como
cérebros putnamianos em cubas e baldes d`água? Bem,
tanto em "Matrix", como em "Lost",
nos nossos mundos privados e em nosso mundo público,
temos todas as razões do mundo para crermos verdadeira
e justificadamente que não... mas pode sempre vir um
chato de um cético e nos argumentar o contrário...!!!
Se fosse tão fácil assim recusar o argumento do cético,
então por que dar corda e água para o moinho dele, e
não mandar ele para outro mundo possível (para não falar
outra coisa...)? E se o cético tiver, ao fim e ao cabo,
razão? Nunca poderemos saber, é o que nos diz Putnam,
embora ele negue o ceticismo e queira usar seu exemplo
dos cérebros numa cuba mais como contra- exemplo, mas
enfim, esta é outra história. Tanto na ilha de "Lost",
quanto em "Matrix", e talvez muito
menos por aqui em nosso mundinho redondo e imperfeito,
isso é o mais legal de toda essa conversa toda. Para
encerrar o papo, cito um trecho do filme dos Wachowski,
quando Trinity falou para Neo ao ver um gato preto na
matrix, e descreveu este estado como um "déjà
vu" seu: "Um dejá vu é uma falha da matrix, Neo. Acontece
quando estão consertando alguma coisa". Seria este "consertador"
o Oráculo de Delfos ou o Gênio Maligno cartesiano? Eis
a questão...
LOST (idem, 2004-?)
Direção: diversos.
Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Josh Holloway,
Jeremy Davies, Terry O`Quin, Jorge Garcia.
(1) Força de Van der Waals: Na química, o termo
"forças de Van der Waals" originalmente refere-se a
todas as formas de forças intermoleculares; entretanto,
atualmente o termo tende a se referenciar a forças intermoleculares
que tratam de forças devido a polarização das moléculas.
(de http://pt.wikipedia.org/wiki/Forças_de_van_der_Waals)
(2) Michael Faraday: Físico e químico inglês
(1791-1867), que foi o descobridor da indução eletromagnética.
(de http://www.algosobre.com.br/biografias/michael-faraday.html)
(3) Constante cosmológica de Einstein: Na época
de Einstein (início do século XX), acreditava-se que
o Universo era estático. Para compensar essa expansão,
Einstein introduziu na teoria geral da relatividade
um termo extra, que chamou de "constante cosmológica"
- uma espécie de energia do vácuo, que impediria a dilatação
cósmica.
(de http://www.arzy.kit.net/os_maiores_enganos.htm)
(4) Constante de Planck: A constante de Planck,
representada por h, é uma das constantes fundamentais
da Física, usada para descrever o tamanho dos quanta.
Tem um papel fundamental na teoria da Mecânica Quântica,
aparecendo sempre que fenômenos em que a Mecânica Quântica
se torna influente.
(de http://pt.wikipedia.org/wiki/Constante_de_Planck)
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