CÉREBROS PERDIDOS NUMA CUBA MATRICIAL
Ricardo Rangel
 
 

A quarta temporada de "Lost" recentemente passou na TV aberta, e se achou marcada pela irregularidade. Alguns episódios ficaram um tanto que aborrecidos pela lentidão com que as coisas estão andando, com alguma "encheção de linguiça" ao se colocarem personagens a mais na trama, que está bastante complexa pelas razões já conhecidas de quem é "lostmaníaco", ou de quem apenas simplesmente assiste e acompanha a série (se bem que alguns desses personagens até podem se tornarem necessários e essenciais).

Entretanto, em compensação, outros episódios, na sua particularidade, estão bastante interessantes, e gostaria de comentar brevemente aqui um deles, também certamente um dos melhores de toda a série, a saber, o quinto episódio da quarta temporada, em que Desmond Hume sofre as consequências de um curioso fenômeno físico que acontece na ilha, e que se não é o maior dos enigmas da série, provavelmente está entre os maiores, que é o chamado Efeito Casimir, uma defasagem no tempo que os "sobreviventes" do vôo 815 da Oceanic não percebem passar, e que está agindo inteiramente sobre eles, podendo levar a uma possível explicação de muita coisa esquisita que há por lá. Do ponto de vista tanto das explicações quanto da dinâmica narrativa, este episódio é lúdico e excelente em conteúdo, pois nos faz refletir bastante sobre os fenômenos da misteriosa ilha, bem como permite traçar alguns paralelos com áreas de pesquisa recente na filosofia da mente que são de extrema relevância na presente discussão (não apenas neste episódio em particular, mas no todo do seriado, especialmente os episódios intrigantes sob estes aspectos, dentre outros), e que fazem alguma alusão ao título deste breve comentário.

Não pretendo aqui explicar minuciosa e detalhadamente o tal Efeito Casimir, quem quiser referências, que procure material sobre, na internet há muita coisa relacionada a este assunto. Na Física contemporânea, ele exige explicações técnicas e complexas, mas a idéia envolvida aqui é a de que a anomalia magnética que a ilha apresenta tem como causa (pelo menos uma das, se houver mais de uma) esse efeito, resultante do aparecimento de um campo eletromagnético entre duas placas metálicas paralelas descarregadas com uma distância de separação da ordem de diâmetros atômicos (semelhante à Força de Van der Walls (leia nota de rodapé 1)). É criada então uma espécie de energia de vácuo ponto zero, e no caso da ilha de Lost, há uma defasagem na passagem do tempo para quem lá se encontra: o fato do botão da escotilha ser apertado de 108 em 108 minutos tem explicação nessa anomalia magnética, e Desmond foi o primeiro a fazer isso.

Controvérsias à parte e digressões infinitas que se poderiam fazer a partir deste ponto (na verdade, juntamente com o Efeito Casimir, a explicação para as viagens no tempo também está nos worm-holes, buracos de minhoca que se abrem no espaço-tempo permitindo este deslocamento espaço-temporal... mas, enfim, apenas isto será dito aqui, de forma meramente ilustrativa), neste quinto episódio da quarta temporada o físico Daniel Faraday (nota de rodapé 2) - sugestivo o nome do personagem, não? E ainda interpretado pelo Jeremy Davies, o eterno maluquinho de trejeitos e caretas de doidão... bem, ele está ótimo no papel, feito sob medida para ele - explica, em linhas gerais, o tal efeito. Mas tão bom quanto isto são as viagens no tempo de Desmond, que transita sua consciência de 2004, época presente em que eles estão na ilha - na verdade, no barco da equipe de "salvamento" -, para 1996, quando estava servindo no exército, e havia recém terminado seu romance com sua namorada Penélope, e do passado para o presente atual, agora, futuro para ele. Pelos worm-holes, seria possível, e apenas para partículas subatômicas, viajar ao futuro: as indas e vindas de Hume lembram muito as viagens de Evan (Ashton Kutcher) em "Efeito Borboleta", onde ele busca compreender desesperadamente o que ocorre à sua volta.

Como Evan, Hume desloca apenas sua consciência no espaço-tempo: a sensação é de estar sonhando acordado, ou de viver duas realidades paralelas concomitantemente, que tem relação apenas com seu aparato mental viajante. As confusões na mente de Desmond, com sua consciência indo e vindo, tentando buscar um sentido para sua existência conturbada, ora lá e aqui, em tempos e espaços diferentes ganham sentido: Desmond busca incessantemente um elo entre estas realidades espaço-temporalmente distintas, e ouvirá da boca de Faraday que precisa urgentemente encontrar sua "constante" (a cosmológica, de Einstein (nota de rodapé 3), ou a de Planck (nota de rodapé 4)) para colocar tudo no seu devido lugar, e terminar seu tormento... algo instigante e muito interessante.

Cabe aqui também, além de "Efeito Borboleta", fazer também uma analogia - e Lost permite muitas destas, dado seu caráter multifacetado e prolixo de seu roteiro recheado de referências científicas e filosóficas, dentre outros quesitos - com "Matrix", em que os sobreviventes do vôo da Oceanic poderiam estar vivendo como no célebre exemplo do filósofo da mente e epistemólogo Hilary Putnam, a saber, como cérebros numa cuba: Putnam idealizou um experimento mental imaginário onde os cérebros de todos nós estariam imersos em cubas d`água, conectados através de eletrodos e impulsos elétricos com um computador ou uma rede de computadores centrais que simulariam a realidade para nós (como a Matrix).

Nesta hipótese de Putnam, o ceticismo epistêmico é levado às suas últimas conseqüências: o mundo exterior é negado peremptoriamente (ou seja, toda a água do moinho do mundo para o argumento do cético), e tudo o que se apreende cognitivamente e se vive são estados mentais do sujeito, que são conectados a outros estados mentais de outros sujeitos, hipótese necessária para evitar o solipsismo total, de eu viver no meu mundo isolado como uma ilha e não ter acesso ao mundo de mais ninguém, "mundo" aqui entendido como estados mentais projetáveis na mente do sujeito cognoscente e epistêmico. Esta hipótese cética de Putnam leva ao ceticismo radical acerca da "realidade" que nos rodeia, e a conversa do internalismo, que é exatamente o que o cético pretende, a saber, reduzir tudo a estados mentais (se estes são "reais", ou não, é outra conversa muito mais complicada, e não falarei disso aqui) e negar o mundo exterior - uma realidade fora da mente do sujeito -, versus o externalismo, especialmente o externalismo semântico das sentenças como veiculadoras de conhecimento proposicional, é trazida à baila para toda a conversa epistemológica aqui.

Bem, o que tudo isto tem a ver com Lost, e mesmo com "Matrix"? Tudo, mas tudo mesmo: ambos fornecem elementos fortíssimos para uma discussão filosófica relevante e profunda em epistemologia analítica e filosofia da mente e da linguagem contemporâneas, como ponto de apoio. Embora este seja um ensaio e não um comentário televisivo/cinematográfico, não é o objetivo tornar esta discussão árida e enfadonha levando a conversa para este lado. Torna-se inevitável abordar e tergiversar de soslaio (no bom sentido do termo) por estas questões, haja vista a sua máxima relevância para as questões propostas. Poderiam, numa das inúmeras hipóteses a se levantar, os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Air estarem vivendo como cérebros numa cuba numa espécie de substrato matricial de fundo, como em "Matrix". Há as outras hipóteses, e nem todas excludentes necessariamente entre si, de que todos estão mortos e não sabem, que são cobaias num experimento megalomaníaco behaviorista, que é tudo um sonho ou que eu pense e creia nisso indubitavelmente (olha de novo aí o cético, e dessa vez o da pior espécie possível em cena aqui, o cartesiano, ainda carregando consigo um gênio maligno por trás de tudo, onde ele faz tudo para me enganar a respeito da existência), etc, dentre outras tantas.

E poderíamos nós estarmos neste estado epistêmico, crendo que estamos vivendo nossas vidas, quando na "verdade" não estamos, e sim estaríamos numa matrix, como cérebros putnamianos em cubas e baldes d`água? Bem, tanto em "Matrix", como em "Lost", nos nossos mundos privados e em nosso mundo público, temos todas as razões do mundo para crermos verdadeira e justificadamente que não... mas pode sempre vir um chato de um cético e nos argumentar o contrário...!!! Se fosse tão fácil assim recusar o argumento do cético, então por que dar corda e água para o moinho dele, e não mandar ele para outro mundo possível (para não falar outra coisa...)? E se o cético tiver, ao fim e ao cabo, razão? Nunca poderemos saber, é o que nos diz Putnam, embora ele negue o ceticismo e queira usar seu exemplo dos cérebros numa cuba mais como contra- exemplo, mas enfim, esta é outra história. Tanto na ilha de "Lost", quanto em "Matrix", e talvez muito menos por aqui em nosso mundinho redondo e imperfeito, isso é o mais legal de toda essa conversa toda. Para encerrar o papo, cito um trecho do filme dos Wachowski, quando Trinity falou para Neo ao ver um gato preto na matrix, e descreveu este estado como um "déjà vu" seu: "Um dejá vu é uma falha da matrix, Neo. Acontece quando estão consertando alguma coisa". Seria este "consertador" o Oráculo de Delfos ou o Gênio Maligno cartesiano? Eis a questão...



LOST (idem, 2004-?)

Direção: diversos.

Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Josh Holloway, Jeremy Davies, Terry O`Quin, Jorge Garcia.


(1) Força de Van der Waals: Na química, o termo "forças de Van der Waals" originalmente refere-se a todas as formas de forças intermoleculares; entretanto, atualmente o termo tende a se referenciar a forças intermoleculares que tratam de forças devido a polarização das moléculas.
(de http://pt.wikipedia.org/wiki/Forças_de_van_der_Waals)

(2) Michael Faraday: Físico e químico inglês (1791-1867), que foi o descobridor da indução eletromagnética.
(de http://www.algosobre.com.br/biografias/michael-faraday.html)

(3) Constante cosmológica de Einstein: Na época de Einstein (início do século XX), acreditava-se que o Universo era estático. Para compensar essa expansão, Einstein introduziu na teoria geral da relatividade um termo extra, que chamou de "constante cosmológica" - uma espécie de energia do vácuo, que impediria a dilatação cósmica.
(de http://www.arzy.kit.net/os_maiores_enganos.htm)

(4) Constante de Planck: A constante de Planck, representada por h, é uma das constantes fundamentais da Física, usada para descrever o tamanho dos quanta. Tem um papel fundamental na teoria da Mecânica Quântica, aparecendo sempre que fenômenos em que a Mecânica Quântica se torna influente.
(de http://pt.wikipedia.org/wiki/Constante_de_Planck)