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O seriado Lost transformou-se, desde há algum
tempo, em uma febre mundial, e particularmente aqui
no Brasil, gerou uma legião de fãs e adoradores da série,
que de fato desperta fascínio e curiosidade por muitas
razões que serão discutidas neste artigo ensaístico.
Seriados de sucesso e instigantes não faltam por aí
hoje em dia, muito desse fenômeno já se verificava antes
de tal série, e com o advento da mesma, isto
se acelerou ainda mais: 24 Horas, por exemplo,
do indestrutível e novo McGyver, Jack Bauer (Kiefer
Sutherland, que deve estar nadando em verdinhas devido
ao sucesso implacável de seu personagem, agente e super-homem),
lançou no mercado dos seriados uma fórmula nova, de
alta tensão nas cenas de ação constantes e com uma dinâmica
eletrizante. A fórmula funcionou bem nas duas primeiras
temporadas da série, e muito bem; atualmente, já na
quinta temporada, 24 Horas perdeu o pique, e
os atos impensáveis e inverossímeis do agente Bauer
já não surtem tanto efeito quanto nas primeiras temporadas,
isso sem falar no maniqueísmo escancarado a que o seriado
enveredou, infelizmente (por que diabos os terroristas
são sempre islâmicos do mal com ódio mortal dos estadunidenses,
e estes são os bonzinhos e protetores dos indefesos
e que pregam a paz como ordem mundial? Sinceramente,
é maniqueísmo demais). Isto infelizmente minou um bom
seriado, com uma idéia interessante que se desgastou
pela repetição recorrente da mesma receita, também.
Mas, e com Lost, será que pode acontecer o mesmo,
a saber, a repetição exaustiva da mesma fórmula do sucesso,
e uma conseqüente perda do interesse? É um risco esse,
e ainda não podemos afirmar nada com certeza, pois o
seriado está apenas na sua terceira temporada; mas mistérios,
enigmas e charadas multiplicam-se, atiçando o interesse
do público, num movimento que parece ir na contramão
de 24 Horas. Claro que existem diferenças importantes,
aqui nesta comparação que espero não tornar infeliz,
é apenas a título ilustrativo mesmo: enquanto "24"
depende essencialmente da dinâmica narrativa eloqüente
e adrenalínica, em Lost o caso parece ser bem
outro - o mistério permeia tudo na ilha misteriosa em
que nossos personagens caíram do Vôo 815 da Oceanic
Airlines, onde tudo que acontece, mas tudo mesmo, tem
uma razão sinistra e oculta por trás. Além disso, as
histórias pessoais de cada um antes do acidente, quando
levavam suas vidas "normais" (detalhe: ninguém é "normal"
em Lost, todos os personagens são problemáticos
e têm problemas de relacionamento), enriquecem em demasia
a narrativa, pois é inevitável o envolvimento do espectador
com as dores, as angústias, as vicissitudes e idiossincrasias
dos personagens, pessoas comuns de carne e osso, e não
sobre humanos travestidos de poderes inverossímeis como
Jack Bauer. Adentremos, pois, um pouco nos mistérios
e nas "bizarrices" -no melhor sentido possível, é claro
- do seriado.
Antes, porém, um alerta: não pretendo aqui fazer um
"breve" resumo do seriado, e discorrer sobre cada um
dos personagens, pois isto resultaria literalmente num
espécie de longo tratado, além das análises e interpretações
que o mesmo suscitaria, e que não são poucas. O leitor
interessado deve procurar na internet material sobre
isso; há muita coisa, tanto interessante e informativa,
quanto lixo eletrônico. É preciso fazer uma boa
"peneira", já que são incontáveis o número de teorias
e interpretações. Vejam bem, eu estou dizendo que mesmo
um "breve" resumo resultaria em algo imenso, além de
árido e aborrecido, para os não "iniciados" (sim, já
é factível dizer que a "Lostmania" é praticamente uma
das "religiões" da Nova Era ), fora as inúmeras teses
sobre tudo que se passa. Quando digo "teses" aqui, também
digo literalmente, pois tenho certeza que Lost
está agora sendo alvo de estudantes de Pós-Graduação
em algum recanto escondido desse mundo, e não vai demorar
muito para aparecerem estudos, sérios e acadêmicos,
sobre o seriado, especialmente sobre as tantas discussões
metafísicas, ético-morais, lógicas, psicológicas, etc.,
que o mesmo desperta, configurando Lost como
exercício intelectual dos mais ricos e com conteúdo,
disso não há dúvida. O que pretendo aqui é traçar um
rápido, isto sim, esboço da série, chamando a atenção
para apenas alguns aspectos que a mesma incita, além
de tentar buscar as razões para tamanha febre deste
verdadeiro fenômeno digital-televisivo. Além disto,
pretendo também realizar conexões da série com obras
cinematográficas pertinentes aos temas abordados por
ela. Penso que o seriado deveria ganhar, em pouco tempo,
uma versão para a telona; seria um grande desafio transpor
Lost para o cinema em um longa-metragem, por
exemplo. Desafio para os roteiristas, diretores, atores,
enfim, toda a equipe envolvida que acampou de vez nas
paradisíacas praias havaianas, onde está sendo rodado.
Mas, rodado até quando? Uma revista de divulgação científica
de grande circulação divulgou recentemente uma matéria
de capa sobre o fim da televisão: esta previsão tem
tudo a ver com o sucesso da série no mundo todo,
devido à corrida desenfreada dos fãs, por exemplo, para
baixarem os episódios na rede antes destes serem veiculados
pelas redes de televisão americanas.
Falar de Lost sem citar e falar dos seus personagens
é não falar de tal série: são eles que permeiam e constroem
toda a trama, que abrange seus medos, suas alegrias,
seus comportamentos, por vezes contraditórios, por estarem
convivendo entre si numa ilha perdida no meio do oceano
ao sul do pacífico, no limite das suas forças físicas,
mentais e psíquicas. Os personagens são a essência de
tudo, e dão vivacidade e emoção às várias histórias
paralelas que acabam inevitavelmente se encontrando:
sensações de Deja-Vu são freqüentemente sentidas
dos personagens entre si, que aparentemente não se conheciam
antes do acidente, mas ao que parece, não é bem assim...
há uma rede intrincada de eventos que relacionam os
mesmos, e surgem estas descobertas e os conseqüentes
envolvimentos do espectador com as mesmas ao se procurar
"linkar" estes fatos aparentemente desconexos.
Aliás, desconexão e conexão lógicas são práticas comuns
em Lost para um mínimo "entendimento" de tudo:
o que parece não ter uma lógica à primeira vista, revela-se
encadeado com outras coisas, numa complexidade de fato
intrincada e desafiadora; a meu juízo, Lost perde
neste, e em outros quesitos também, apenas para Twin
Peaks, no rol dos seriados, obra-prima máxima do
gênio David Lynch que, intencionalmente ou não, acabou
inspirando, e não pouco, os realizadores do seriado
mais cult e cool dos últimos tempos. Nada
é por acaso, é esta talvez a principal premissa lógico-metafísica
de Lost, ao jogar com o destino dos personagens,
bem como das escolhas que estes fazem o tempo todo em
suas atribuladas e/ou tediosas existências (qualquer
semelhança com Efeito Borboleta e Donnie Darko
NÃO é mera coincidência). Por exemplo, por que Sawyer,
cujo nome verdadeiro é James, por trás de seu deboche
e ironia finas para com tudo e todos, quer sempre ser
odiado por todos? E a compulsão de Hurley por comida,
além da culpa que carrega de ter matado aquelas pessoas
na ponte por ser gordo, bem como a "maldição" que julgava
carregar com os benditos números da loteria que acertou,
ficando milionário (4, 8, 15, 16, 23, 42), não por acaso
os mesmos números das coordenadas geográficas da ilha?
E a maldita e idêntica combinação que deve ser digitada
dentro da escotilha de 108 em 108 minutos, a fim de
que o "mundo" não acabe (apenas a ilha, será?)? Também
há a relação atribulada de Locke com seu pai, o qual
roubou seu rim e sumiu, não sem antes estar sempre ausente,
e que andava de cadeira de rodas, mas quando caiu na
ilha, começou a andar do nada? Dizer o quê do Dr. Jack,
o líder e bom samaritano, mas que tem um lado vulnerável
também por problemas com o pai cirurgião e alcoólatra,
bem como da separação de sua esposa? E Eko, que virou
"padre" na Nigéria para ter que contrabandear heroína
escondida dentro de santas de louça em um avião de passeio?
Charlie, com seu vício de heroína, que encontra as santas
recheadas na ilha, e não resiste à "tentação"? Rose,
que não se curou de seu câncer com o curandeiro na Austrália
(onde todos pegaram o vôo, e estavam lá por alguma razão),
e chegando na ilha, sentiu-se curada? E....etc,
há muito para contar, tudo está relacionado de alguma
forma com esse estranho poder que a ilha exerce em todos.
Duas coisas cabem dizer aqui, pelo menos: uma, não há
maniqueísmo em Lost; não existe uma separação
do "bem" e do "mal", o que por si só, e da maneira como
é mostrado, conduz bem tudo... ninguém é bonzinho, ou
bom por inteiro, assim como ninguém é mau ao extremo:
são todos humanos e sensíveis, com nervos à flor da
pele, em uma situação limite, de stress emocional
muito grande, e inevitavelmente têm que conviver com
isso. Daí se segue o segundo ponto a ser discutido,
que vem como uma certa conseqüência disto - Lost
é um reflexo do mundo atual, contemporâneo, e talvez
por isto, também, fascine tanto. A ilha é considerada,
numa das tantas teorias a respeito, uma espécie de purgatório,
onde todos estão, por assim dizer, "pagando" pelos seus
pecados. Sejam estes em sentido figurado, numa alegoria
metafórica, ou literalmente mesmo... tipo, todos morreram,
e estão no purgatório... ou no próprio inferno, seus
infernos pessoais, e que ironia: com um cenário de uma
ilha paradisíaca ao fundo...!!! Sawyer faria uma grande
piada com isto, certamente. Ou tudo é uma grande alucinação
coletiva, e individual.... Ah, o gênio maligno de Descartes
se fazendo presente aqui: este embusteiro Deus enganador
que me faz crer na Sua Existência e na existência do
mundo exterior. Sim, há muita filosofia em Lost,
e não é de boteco, não: falarei um pouco disto logo
a seguir. Independentemente do caráter moral da culpa
que apregoa nossa sociedade judaico-cristã ocidental,
essa metáfora surge reflexo deste mundo louco que vivemos,
destes tempos de cólera: a própria culpa, os medos,
os traumas, e os vícios e defeitos sendo expostos neste
"big brother" inteligente e catártico são um
reflexo das nossas vidas atribuladas e corridas, estressantes
pela condição atual da humanidade, que cada vez faz
mais (?) e pensa menos. Não há nenhuma novidade nisto
que estou dizendo, mas se aparenta curiosa como essa
metáfora lostiana se apresenta no inconsciente humano;
seria preciso mesmo muita psicanálise e conversa psicossomática
para dar conta disso tudo, e certamente esse cabedal
não resultaria suficiente, embora extremamente necessário
a seu princípio, para estes propósitos.
Sobre o caráter filosófico do seriado que citei anteriormente,
há as já evidentes, e outras nem tanto, questões de
fundo a serem discutidas e analisadas, como por exemplo,
metafisicamente: o que é a ilha? Qual o poder que esta
exerce em todos? O que são os tais números, e o que
acontece, afinal, se eles não são digitados nos tais
108 minutos? Uma senda budista afirma que são necessárias
108 existências distintas num ser humano para ele alcançar
o estado da iluminação, o nirvana... o mesmo número!
E 4 + 8 + 15 + 16 + 32 + 48 = 108... (bingo!!! Que coincidência,
não é??), e por aí vai... Eticamente: será tudo ali
resultado das escolhas de cada um? Cada ato, pensado
ou impensado, irá refletir no "destino" de cada um,
e de todos?? Etc... Vejamos que há pensamento oriental
aqui também (vide o "Projeto Dharma", e as experiências
behavioristas em que talvez todos estejam sendo cobaias:
psicologia da percepção na veia!). E o nome de alguns
personagens? John Locke, Desmond David Hume (sábia escolha
da progenitora!), Danielle Rousseau... é obscuro e não
foi devidamente, claro, explicado o porquê justamente
das alcunhas dos pais do empirismo britânico ("Todo
conhecimento está baseado na experiência sensível",
é o legado de Hume e Locke, precursores do empirismo
clássico do século XVII; já Kant, cujo sono dogmático
fora despertado, enfim, pelo gênio de Hume, como ele
próprio viria a afirmar, disse algum tempo depois, na
sua Crítica da Razão Pura: "Todo conhecimento
(e não apenas o sensível) começa na experiência, mas
não se resume à esta". Mas Hume, no frigir dos ovos,
nem é tão empirista assim. Esta digressão certamente
encerrar-se-á aqui, visto ser este um tema denso para
o propósito desta discussão presente) e do franco-suíço
criador e elaborador da teoria do Contrato Social. Porém,
basta assistir a alguns episódios para se ter uma vaga,
apenas uma vaga, idéia de quais as "razões" para tanto.
Talvez estas "razões", e outros aspectos ocultos e indecifráveis
pelos cânones padrões estejam, mesmo, situadas em alguma
faculdade obscura da alma que não a razão no escopo
da natureza humana, como já dissera mais uma vez nosso
magnânimo filósofo escocês David Hume. Em suma, habitam
as filosofias, ocidental e oriental, em Lost,
sendo estas considerações aqui comentadas apenas linhas
muitíssimo gerais para uma verdadeira e aprofundada
reflexão posterior sobre todas estas questões.
Para encerrar esta parte da conversa, inclusive com
o intuito de não torná-la demasiado longa e aborrecida
demais, como prometi antes, cito aqui o escritor argentino
Jorge Luis Borges, a cuja obra El Aleph faço
alusão: neste conto homônimo, Borges narra uma visão
dentro de um sótão minúsculo de uma casa, onde o personagem
que a vislumbra descreve o Aleph, um ponto do universo,
do "mundo", em que é possível ter todas as visões possíveis
e concebíveis de todo o "resto" da existência. Ponto
privilegiado este, de referencial absoluto, que talvez
apenas o ser perfeito, criador, na sua sabedoria infinita
e inefável, tenha acesso, seja como ser omnitemporal,
seja como atemporal, eterno no tempo, e que transcenda,
essa visão de tudo, pelo ponto Aleph, nossas memórias
e concepções mentais do passado, na memória que mnemonicamente
reminiscende os fatos vividos, no presente e no futuro,
na história pessoal e universal. Talvez a ilha de Lost,
e os observadores que lá estão, estejam em algo como
o Aleph borgiano, contemplando e vivendo tudo de um
ponto de vista privilegiado, ponto este em que a própria
identidade foi perdida, diluindo-se no todo. Todo, este,
não maior que a soma das partes, e cada parte não sendo,
necessariamente, menor que o todo. Para uma reflexão
metafísica, fica a herança cisplatina borgiana, que
no auge da sua plena forma intelectual e à beira da
cegueira física, mas não mental, escreveu: "A alegria
de compreender é maior do que a alegria de ver e de
viver". Isto vale para todo o conhecimento possível
e imaginável, e no caso presente de Lost, a alegria
fica por tentar compreender o incompreensível, por tentar
desvendar a lógica do complexo no seio desta incompreensibilidade
quase inefável no seu limite para a razão e para o espírito.
É esta alegria que nos move, ela é esse motor para o
exercício intelectual, para a imaginação e para o além
desta, elementos aos quais Lost consegue nos
catapultar, transcendendo os próprios limites da razão
e da alma. O exercício intelectual, pois, do desvelamento
dos enigmas e mistérios da série cabe aos mais
curiosos de espírito, interessados nas vicissitudes
e idiossincrasias que o seriado cult imprime na mente
de cada um.
Mudando um pouco o rumo da conversa empreendida até
agora, se aventou a possibilidade de se realizar um
longa metragem no cinema para Lost. Esta seria
uma grande "sacada", visto o sucesso da série, e certamente
deveria sê-lo repetido na tela grande, se bem empreendida,
produzida e dirigida, mantendo o mesmo pique televisivo
que originalmente contém. A experiência com Arquivo
X, por exemplo, não foi das melhores, mas de fato
resulta uma tarefa complexa levar para a telona em aproximadamente
duas horas, quem sabe três, uma história tão rica em
detalhes, contada em vários episódios. Como mote conclusivo
deste artigo, gostaria de, minimamente, relacionar alguns
pontos e aspectos de Lost com filmes que tratem
de temática semelhante, fazendo uma interação aqui.
Afora os já citados Donnie Darko e Efeito
Borboleta, também com a obra prima de ficção científica
tarkovskiana, Solaris, Lost assemelha-se
deveras. Não pretendo de forma alguma traçar extensos
e profundos paralelos aqui do seriado com esses filmes;
certamente o gostaria bastante, mas isso exigiria um
esforço hercúleo, pois seria preciso um artigo para
cada um dos filmes, diga-se de passagem. A riqueza destes
filmes e de Lost parece tão grande, que, por
questões de tempo, espaço e paciência do heróico leitor
que chegou até aqui, infelizmente, não podemos ir adiante,
pelo menos neste artigo. Entretanto, adentremos um pouco,
perifericamente, nestes aspectos mínimos para talvez
uma futura e profunda, de fato, análise.
Em relação a Donnie Darko, alguns aspectos que
saltam à vista como evidentes podem ser destacados neste
rasíssimo paralelo com a série enfocada, porém
o básico é a questão do fim do mundo. Embora em Lost
ninguém enxergue, nem converse, com um coelho gigante
que diz que o mundo vai acabar, o sentimento de todos
na ilha é niilista - não haverá resgate, não há esperança
de "salvamento", e todos esperariam pelo fim no seu
inferno astral paradisíaco. Mas a possibilidade de redenção
existe em ambos, que talvez co-existam nos seus universos
paralelos, portais para outro recanto existencial sabe-se
lá onde: em Donnie Darko, o próprio Donnie
pode ser a figura do salvador do mundo, evitando o seu
fim; no seriado, cada um pode ser este salvador, supondo
que o "mundo" onde vivem possa acabar, ou já tenha mesmo
acabado, exorcizando seus medos mais profundos, ou com
virtudes clarividentes como Desmond (só podia mesmo
ser o Hume!), percepção aguçada como Eko, ou instinto
de sobrevivência aliado à esperteza e sagacidade em
Locke. Cada um dos "sobreviventes" da ilha está lá por
fazer más escolhas no passado, estas foram decisivas
para o destino de cada um, entrecruzando-se o tempo
todo, supondo haver mais do que o mero acaso envolvido
nesta complexa equação humanística.
Neste ponto, entra Efeito Borboleta, com as inúmeras
e quase sempre trágicas viagens no tempo pela consciência
de Evan, o qual busca desesperadamente corrigir seus
erros através deste expediente. Ainda que em Lost
ninguém "viaje" no tempo (?) - talvez isto ocorra o
tempo todo na consciência de cada um por lá - , essa
questão das escolhas que permeiam nossa existência e
nossos caminhos na senda da mesma sejam determinantes.
É possível que todos tenham pego o Vôo 815 da Oceanic
exatamente por também fazerem escolhas, certas ou erradas,
deliberadas ou não, numa espécie de desafio à idéia
do livre arbítrio, pelo menos no sentido canônico da
questão. São Tomás de Aquino, por exemplo, já buscara
resolver o problema metafísico do mal, apelando para
a potência do arbítrio no homem, que é o responsável
último pela liberdade que Deus, como causa primeira
e eficiente do mundo, lhe deu. Ninguém é bonzinho em
Lost, como já antecipei, assim como Evan
não era santo, e menos ainda Donnie Darko: talvez todos
"paguem" os seus pecados nos seus infernos existenciais,
nas suas mentes insanas e perturbadas, nos seus desígnios
não tão nobres assim... ou não, sem haver contradição.
A culpa? Será sempre do homem e de seus medos, suas
angústias e complexo de inferioridade, que geralmente
respondem a tudo usando o nome de Deus, e em vão, é
claro. Mas não pretendo ir além disto neste ponto.
Para concluir, cito Solaris na tentativa de analogia
com Lost. Assim como na órbita do enigmático
planeta, cujo oceano representa um leitor de consciências,
a ilha de Lost parece ter uma função muito, mas
muito semelhante mesmo ao referido oceano: todos "vêem"
coisas estranhas e sinistras na ilha, como os cientistas
da estação de Solaris, e parece ser, no mais
das vezes senão sempre, uma projeção mental dos estados
de consciência do sujeito para o mundo exterior, como
se fosse o próprio mundo exterior. Já abordei este tema,
ainda que não exaustivamente, em meu ensaio sobre Solaris,
ao tomar como pano de fundo a tese berkeleyana do "ser
é ser percebido" para abordar a questão da solarística,
que está presente na filosofia da mente contemporânea,
por exemplo, com o eterno e acirrado debate entre internalismo
e externalismo nos argumentos relativos ao self e a
memória do sujeito percepiente. Essa semelhança é gritante,
e por si só, caberia tratar em outro artigo; embora
haja o Projeto Dharma por trás de tudo em Lost
(mas ainda não se sabe o quanto e no quê o mesmo infuencia
tudo e todos), e o oceano como substrato metafísico
em Solaris, e esta talvez seja uma diferença
dentro do traçado analógico, particularmente em Lost
a causa desses eventos mentais pode estar na própria
ilha mesmo, se for uma ilha... ou em algum substrato
também ontológico para a projeção consciencial. Obviamente,
pode ser outra coisa, totalmente diferente. Enfim, são
muitos palpites, a maioria ainda carente de argumentação
sólida e logicamente consistente, ficando no terreno
das especulações e tentativas de análise. Vou parando
por aqui, não antes sem ressaltar a devida reflexão
que estas temáticas requerem; estas serão o ponto de
partida para um desenvolvimento posterior e mais sedimentado
filosoficamente, que pretendo levar a cabo futuramente.
Talvez, no fundo, estejamos todos "lost" neste
nosso mundo que julgamos "real". Mas, mesmo assim, sempre
é possível perder-se... para depois se encontrar, ou
não.
LOST (idem, 2004-?)
Direção: diversos.
Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Josh Holloway,
Terry O`Quin, Jorge Garcia.
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