VIAJE E PERCA-SE EM "LOST"
Ricardo Rangel
 
 

O seriado Lost transformou-se, desde há algum tempo, em uma febre mundial, e particularmente aqui no Brasil, gerou uma legião de fãs e adoradores da série, que de fato desperta fascínio e curiosidade por muitas razões que serão discutidas neste artigo ensaístico. Seriados de sucesso e instigantes não faltam por aí hoje em dia, muito desse fenômeno já se verificava antes de tal série, e com o advento da mesma, isto se acelerou ainda mais: 24 Horas, por exemplo, do indestrutível e novo McGyver, Jack Bauer (Kiefer Sutherland, que deve estar nadando em verdinhas devido ao sucesso implacável de seu personagem, agente e super-homem), lançou no mercado dos seriados uma fórmula nova, de alta tensão nas cenas de ação constantes e com uma dinâmica eletrizante. A fórmula funcionou bem nas duas primeiras temporadas da série, e muito bem; atualmente, já na quinta temporada, 24 Horas perdeu o pique, e os atos impensáveis e inverossímeis do agente Bauer já não surtem tanto efeito quanto nas primeiras temporadas, isso sem falar no maniqueísmo escancarado a que o seriado enveredou, infelizmente (por que diabos os terroristas são sempre islâmicos do mal com ódio mortal dos estadunidenses, e estes são os bonzinhos e protetores dos indefesos e que pregam a paz como ordem mundial? Sinceramente, é maniqueísmo demais). Isto infelizmente minou um bom seriado, com uma idéia interessante que se desgastou pela repetição recorrente da mesma receita, também.

Mas, e com Lost, será que pode acontecer o mesmo, a saber, a repetição exaustiva da mesma fórmula do sucesso, e uma conseqüente perda do interesse? É um risco esse, e ainda não podemos afirmar nada com certeza, pois o seriado está apenas na sua terceira temporada; mas mistérios, enigmas e charadas multiplicam-se, atiçando o interesse do público, num movimento que parece ir na contramão de 24 Horas. Claro que existem diferenças importantes, aqui nesta comparação que espero não tornar infeliz, é apenas a título ilustrativo mesmo: enquanto "24" depende essencialmente da dinâmica narrativa eloqüente e adrenalínica, em Lost o caso parece ser bem outro - o mistério permeia tudo na ilha misteriosa em que nossos personagens caíram do Vôo 815 da Oceanic Airlines, onde tudo que acontece, mas tudo mesmo, tem uma razão sinistra e oculta por trás. Além disso, as histórias pessoais de cada um antes do acidente, quando levavam suas vidas "normais" (detalhe: ninguém é "normal" em Lost, todos os personagens são problemáticos e têm problemas de relacionamento), enriquecem em demasia a narrativa, pois é inevitável o envolvimento do espectador com as dores, as angústias, as vicissitudes e idiossincrasias dos personagens, pessoas comuns de carne e osso, e não sobre humanos travestidos de poderes inverossímeis como Jack Bauer. Adentremos, pois, um pouco nos mistérios e nas "bizarrices" -no melhor sentido possível, é claro - do seriado.

Antes, porém, um alerta: não pretendo aqui fazer um "breve" resumo do seriado, e discorrer sobre cada um dos personagens, pois isto resultaria literalmente num espécie de longo tratado, além das análises e interpretações que o mesmo suscitaria, e que não são poucas. O leitor interessado deve procurar na internet material sobre isso; há muita coisa, tanto interessante e informativa, quanto lixo eletrônico. É preciso fazer uma boa "peneira", já que são incontáveis o número de teorias e interpretações. Vejam bem, eu estou dizendo que mesmo um "breve" resumo resultaria em algo imenso, além de árido e aborrecido, para os não "iniciados" (sim, já é factível dizer que a "Lostmania" é praticamente uma das "religiões" da Nova Era ), fora as inúmeras teses sobre tudo que se passa. Quando digo "teses" aqui, também digo literalmente, pois tenho certeza que Lost está agora sendo alvo de estudantes de Pós-Graduação em algum recanto escondido desse mundo, e não vai demorar muito para aparecerem estudos, sérios e acadêmicos, sobre o seriado, especialmente sobre as tantas discussões metafísicas, ético-morais, lógicas, psicológicas, etc., que o mesmo desperta, configurando Lost como exercício intelectual dos mais ricos e com conteúdo, disso não há dúvida. O que pretendo aqui é traçar um rápido, isto sim, esboço da série, chamando a atenção para apenas alguns aspectos que a mesma incita, além de tentar buscar as razões para tamanha febre deste verdadeiro fenômeno digital-televisivo. Além disto, pretendo também realizar conexões da série com obras cinematográficas pertinentes aos temas abordados por ela. Penso que o seriado deveria ganhar, em pouco tempo, uma versão para a telona; seria um grande desafio transpor Lost para o cinema em um longa-metragem, por exemplo. Desafio para os roteiristas, diretores, atores, enfim, toda a equipe envolvida que acampou de vez nas paradisíacas praias havaianas, onde está sendo rodado. Mas, rodado até quando? Uma revista de divulgação científica de grande circulação divulgou recentemente uma matéria de capa sobre o fim da televisão: esta previsão tem tudo a ver com o sucesso da série no mundo todo, devido à corrida desenfreada dos fãs, por exemplo, para baixarem os episódios na rede antes destes serem veiculados pelas redes de televisão americanas.

Falar de Lost sem citar e falar dos seus personagens é não falar de tal série: são eles que permeiam e constroem toda a trama, que abrange seus medos, suas alegrias, seus comportamentos, por vezes contraditórios, por estarem convivendo entre si numa ilha perdida no meio do oceano ao sul do pacífico, no limite das suas forças físicas, mentais e psíquicas. Os personagens são a essência de tudo, e dão vivacidade e emoção às várias histórias paralelas que acabam inevitavelmente se encontrando: sensações de Deja-Vu são freqüentemente sentidas dos personagens entre si, que aparentemente não se conheciam antes do acidente, mas ao que parece, não é bem assim... há uma rede intrincada de eventos que relacionam os mesmos, e surgem estas descobertas e os conseqüentes envolvimentos do espectador com as mesmas ao se procurar "linkar" estes fatos aparentemente desconexos.

Aliás, desconexão e conexão lógicas são práticas comuns em Lost para um mínimo "entendimento" de tudo: o que parece não ter uma lógica à primeira vista, revela-se encadeado com outras coisas, numa complexidade de fato intrincada e desafiadora; a meu juízo, Lost perde neste, e em outros quesitos também, apenas para Twin Peaks, no rol dos seriados, obra-prima máxima do gênio David Lynch que, intencionalmente ou não, acabou inspirando, e não pouco, os realizadores do seriado mais cult e cool dos últimos tempos. Nada é por acaso, é esta talvez a principal premissa lógico-metafísica de Lost, ao jogar com o destino dos personagens, bem como das escolhas que estes fazem o tempo todo em suas atribuladas e/ou tediosas existências (qualquer semelhança com Efeito Borboleta e Donnie Darko NÃO é mera coincidência). Por exemplo, por que Sawyer, cujo nome verdadeiro é James, por trás de seu deboche e ironia finas para com tudo e todos, quer sempre ser odiado por todos? E a compulsão de Hurley por comida, além da culpa que carrega de ter matado aquelas pessoas na ponte por ser gordo, bem como a "maldição" que julgava carregar com os benditos números da loteria que acertou, ficando milionário (4, 8, 15, 16, 23, 42), não por acaso os mesmos números das coordenadas geográficas da ilha? E a maldita e idêntica combinação que deve ser digitada dentro da escotilha de 108 em 108 minutos, a fim de que o "mundo" não acabe (apenas a ilha, será?)? Também há a relação atribulada de Locke com seu pai, o qual roubou seu rim e sumiu, não sem antes estar sempre ausente, e que andava de cadeira de rodas, mas quando caiu na ilha, começou a andar do nada? Dizer o quê do Dr. Jack, o líder e bom samaritano, mas que tem um lado vulnerável também por problemas com o pai cirurgião e alcoólatra, bem como da separação de sua esposa? E Eko, que virou "padre" na Nigéria para ter que contrabandear heroína escondida dentro de santas de louça em um avião de passeio? Charlie, com seu vício de heroína, que encontra as santas recheadas na ilha, e não resiste à "tentação"? Rose, que não se curou de seu câncer com o curandeiro na Austrália (onde todos pegaram o vôo, e estavam lá por alguma razão), e chegando na ilha, sentiu-se curada? E....etc, há muito para contar, tudo está relacionado de alguma forma com esse estranho poder que a ilha exerce em todos.

Duas coisas cabem dizer aqui, pelo menos: uma, não há maniqueísmo em Lost; não existe uma separação do "bem" e do "mal", o que por si só, e da maneira como é mostrado, conduz bem tudo... ninguém é bonzinho, ou bom por inteiro, assim como ninguém é mau ao extremo: são todos humanos e sensíveis, com nervos à flor da pele, em uma situação limite, de stress emocional muito grande, e inevitavelmente têm que conviver com isso. Daí se segue o segundo ponto a ser discutido, que vem como uma certa conseqüência disto - Lost é um reflexo do mundo atual, contemporâneo, e talvez por isto, também, fascine tanto. A ilha é considerada, numa das tantas teorias a respeito, uma espécie de purgatório, onde todos estão, por assim dizer, "pagando" pelos seus pecados. Sejam estes em sentido figurado, numa alegoria metafórica, ou literalmente mesmo... tipo, todos morreram, e estão no purgatório... ou no próprio inferno, seus infernos pessoais, e que ironia: com um cenário de uma ilha paradisíaca ao fundo...!!! Sawyer faria uma grande piada com isto, certamente. Ou tudo é uma grande alucinação coletiva, e individual.... Ah, o gênio maligno de Descartes se fazendo presente aqui: este embusteiro Deus enganador que me faz crer na Sua Existência e na existência do mundo exterior. Sim, há muita filosofia em Lost, e não é de boteco, não: falarei um pouco disto logo a seguir. Independentemente do caráter moral da culpa que apregoa nossa sociedade judaico-cristã ocidental, essa metáfora surge reflexo deste mundo louco que vivemos, destes tempos de cólera: a própria culpa, os medos, os traumas, e os vícios e defeitos sendo expostos neste "big brother" inteligente e catártico são um reflexo das nossas vidas atribuladas e corridas, estressantes pela condição atual da humanidade, que cada vez faz mais (?) e pensa menos. Não há nenhuma novidade nisto que estou dizendo, mas se aparenta curiosa como essa metáfora lostiana se apresenta no inconsciente humano; seria preciso mesmo muita psicanálise e conversa psicossomática para dar conta disso tudo, e certamente esse cabedal não resultaria suficiente, embora extremamente necessário a seu princípio, para estes propósitos.

Sobre o caráter filosófico do seriado que citei anteriormente, há as já evidentes, e outras nem tanto, questões de fundo a serem discutidas e analisadas, como por exemplo, metafisicamente: o que é a ilha? Qual o poder que esta exerce em todos? O que são os tais números, e o que acontece, afinal, se eles não são digitados nos tais 108 minutos? Uma senda budista afirma que são necessárias 108 existências distintas num ser humano para ele alcançar o estado da iluminação, o nirvana... o mesmo número! E 4 + 8 + 15 + 16 + 32 + 48 = 108... (bingo!!! Que coincidência, não é??), e por aí vai... Eticamente: será tudo ali resultado das escolhas de cada um? Cada ato, pensado ou impensado, irá refletir no "destino" de cada um, e de todos?? Etc... Vejamos que há pensamento oriental aqui também (vide o "Projeto Dharma", e as experiências behavioristas em que talvez todos estejam sendo cobaias: psicologia da percepção na veia!). E o nome de alguns personagens? John Locke, Desmond David Hume (sábia escolha da progenitora!), Danielle Rousseau... é obscuro e não foi devidamente, claro, explicado o porquê justamente das alcunhas dos pais do empirismo britânico ("Todo conhecimento está baseado na experiência sensível", é o legado de Hume e Locke, precursores do empirismo clássico do século XVII; já Kant, cujo sono dogmático fora despertado, enfim, pelo gênio de Hume, como ele próprio viria a afirmar, disse algum tempo depois, na sua Crítica da Razão Pura: "Todo conhecimento (e não apenas o sensível) começa na experiência, mas não se resume à esta". Mas Hume, no frigir dos ovos, nem é tão empirista assim. Esta digressão certamente encerrar-se-á aqui, visto ser este um tema denso para o propósito desta discussão presente) e do franco-suíço criador e elaborador da teoria do Contrato Social. Porém, basta assistir a alguns episódios para se ter uma vaga, apenas uma vaga, idéia de quais as "razões" para tanto. Talvez estas "razões", e outros aspectos ocultos e indecifráveis pelos cânones padrões estejam, mesmo, situadas em alguma faculdade obscura da alma que não a razão no escopo da natureza humana, como já dissera mais uma vez nosso magnânimo filósofo escocês David Hume. Em suma, habitam as filosofias, ocidental e oriental, em Lost, sendo estas considerações aqui comentadas apenas linhas muitíssimo gerais para uma verdadeira e aprofundada reflexão posterior sobre todas estas questões.

Para encerrar esta parte da conversa, inclusive com o intuito de não torná-la demasiado longa e aborrecida demais, como prometi antes, cito aqui o escritor argentino Jorge Luis Borges, a cuja obra El Aleph faço alusão: neste conto homônimo, Borges narra uma visão dentro de um sótão minúsculo de uma casa, onde o personagem que a vislumbra descreve o Aleph, um ponto do universo, do "mundo", em que é possível ter todas as visões possíveis e concebíveis de todo o "resto" da existência. Ponto privilegiado este, de referencial absoluto, que talvez apenas o ser perfeito, criador, na sua sabedoria infinita e inefável, tenha acesso, seja como ser omnitemporal, seja como atemporal, eterno no tempo, e que transcenda, essa visão de tudo, pelo ponto Aleph, nossas memórias e concepções mentais do passado, na memória que mnemonicamente reminiscende os fatos vividos, no presente e no futuro, na história pessoal e universal. Talvez a ilha de Lost, e os observadores que lá estão, estejam em algo como o Aleph borgiano, contemplando e vivendo tudo de um ponto de vista privilegiado, ponto este em que a própria identidade foi perdida, diluindo-se no todo. Todo, este, não maior que a soma das partes, e cada parte não sendo, necessariamente, menor que o todo. Para uma reflexão metafísica, fica a herança cisplatina borgiana, que no auge da sua plena forma intelectual e à beira da cegueira física, mas não mental, escreveu: "A alegria de compreender é maior do que a alegria de ver e de viver". Isto vale para todo o conhecimento possível e imaginável, e no caso presente de Lost, a alegria fica por tentar compreender o incompreensível, por tentar desvendar a lógica do complexo no seio desta incompreensibilidade quase inefável no seu limite para a razão e para o espírito. É esta alegria que nos move, ela é esse motor para o exercício intelectual, para a imaginação e para o além desta, elementos aos quais Lost consegue nos catapultar, transcendendo os próprios limites da razão e da alma. O exercício intelectual, pois, do desvelamento dos enigmas e mistérios da série cabe aos mais curiosos de espírito, interessados nas vicissitudes e idiossincrasias que o seriado cult imprime na mente de cada um.

Mudando um pouco o rumo da conversa empreendida até agora, se aventou a possibilidade de se realizar um longa metragem no cinema para Lost. Esta seria uma grande "sacada", visto o sucesso da série, e certamente deveria sê-lo repetido na tela grande, se bem empreendida, produzida e dirigida, mantendo o mesmo pique televisivo que originalmente contém. A experiência com Arquivo X, por exemplo, não foi das melhores, mas de fato resulta uma tarefa complexa levar para a telona em aproximadamente duas horas, quem sabe três, uma história tão rica em detalhes, contada em vários episódios. Como mote conclusivo deste artigo, gostaria de, minimamente, relacionar alguns pontos e aspectos de Lost com filmes que tratem de temática semelhante, fazendo uma interação aqui. Afora os já citados Donnie Darko e Efeito Borboleta, também com a obra prima de ficção científica tarkovskiana, Solaris, Lost assemelha-se deveras. Não pretendo de forma alguma traçar extensos e profundos paralelos aqui do seriado com esses filmes; certamente o gostaria bastante, mas isso exigiria um esforço hercúleo, pois seria preciso um artigo para cada um dos filmes, diga-se de passagem. A riqueza destes filmes e de Lost parece tão grande, que, por questões de tempo, espaço e paciência do heróico leitor que chegou até aqui, infelizmente, não podemos ir adiante, pelo menos neste artigo. Entretanto, adentremos um pouco, perifericamente, nestes aspectos mínimos para talvez uma futura e profunda, de fato, análise.

Em relação a Donnie Darko, alguns aspectos que saltam à vista como evidentes podem ser destacados neste rasíssimo paralelo com a série enfocada, porém o básico é a questão do fim do mundo. Embora em Lost ninguém enxergue, nem converse, com um coelho gigante que diz que o mundo vai acabar, o sentimento de todos na ilha é niilista - não haverá resgate, não há esperança de "salvamento", e todos esperariam pelo fim no seu inferno astral paradisíaco. Mas a possibilidade de redenção existe em ambos, que talvez co-existam nos seus universos paralelos, portais para outro recanto existencial sabe-se lá onde: em Donnie Darko, o próprio Donnie pode ser a figura do salvador do mundo, evitando o seu fim; no seriado, cada um pode ser este salvador, supondo que o "mundo" onde vivem possa acabar, ou já tenha mesmo acabado, exorcizando seus medos mais profundos, ou com virtudes clarividentes como Desmond (só podia mesmo ser o Hume!), percepção aguçada como Eko, ou instinto de sobrevivência aliado à esperteza e sagacidade em Locke. Cada um dos "sobreviventes" da ilha está lá por fazer más escolhas no passado, estas foram decisivas para o destino de cada um, entrecruzando-se o tempo todo, supondo haver mais do que o mero acaso envolvido nesta complexa equação humanística.

Neste ponto, entra Efeito Borboleta, com as inúmeras e quase sempre trágicas viagens no tempo pela consciência de Evan, o qual busca desesperadamente corrigir seus erros através deste expediente. Ainda que em Lost ninguém "viaje" no tempo (?) - talvez isto ocorra o tempo todo na consciência de cada um por lá - , essa questão das escolhas que permeiam nossa existência e nossos caminhos na senda da mesma sejam determinantes. É possível que todos tenham pego o Vôo 815 da Oceanic exatamente por também fazerem escolhas, certas ou erradas, deliberadas ou não, numa espécie de desafio à idéia do livre arbítrio, pelo menos no sentido canônico da questão. São Tomás de Aquino, por exemplo, já buscara resolver o problema metafísico do mal, apelando para a potência do arbítrio no homem, que é o responsável último pela liberdade que Deus, como causa primeira e eficiente do mundo, lhe deu. Ninguém é bonzinho em Lost, como já antecipei, assim como Evan não era santo, e menos ainda Donnie Darko: talvez todos "paguem" os seus pecados nos seus infernos existenciais, nas suas mentes insanas e perturbadas, nos seus desígnios não tão nobres assim... ou não, sem haver contradição. A culpa? Será sempre do homem e de seus medos, suas angústias e complexo de inferioridade, que geralmente respondem a tudo usando o nome de Deus, e em vão, é claro. Mas não pretendo ir além disto neste ponto.

Para concluir, cito Solaris na tentativa de analogia com Lost. Assim como na órbita do enigmático planeta, cujo oceano representa um leitor de consciências, a ilha de Lost parece ter uma função muito, mas muito semelhante mesmo ao referido oceano: todos "vêem" coisas estranhas e sinistras na ilha, como os cientistas da estação de Solaris, e parece ser, no mais das vezes senão sempre, uma projeção mental dos estados de consciência do sujeito para o mundo exterior, como se fosse o próprio mundo exterior. Já abordei este tema, ainda que não exaustivamente, em meu ensaio sobre Solaris, ao tomar como pano de fundo a tese berkeleyana do "ser é ser percebido" para abordar a questão da solarística, que está presente na filosofia da mente contemporânea, por exemplo, com o eterno e acirrado debate entre internalismo e externalismo nos argumentos relativos ao self e a memória do sujeito percepiente. Essa semelhança é gritante, e por si só, caberia tratar em outro artigo; embora haja o Projeto Dharma por trás de tudo em Lost (mas ainda não se sabe o quanto e no quê o mesmo infuencia tudo e todos), e o oceano como substrato metafísico em Solaris, e esta talvez seja uma diferença dentro do traçado analógico, particularmente em Lost a causa desses eventos mentais pode estar na própria ilha mesmo, se for uma ilha... ou em algum substrato também ontológico para a projeção consciencial. Obviamente, pode ser outra coisa, totalmente diferente. Enfim, são muitos palpites, a maioria ainda carente de argumentação sólida e logicamente consistente, ficando no terreno das especulações e tentativas de análise. Vou parando por aqui, não antes sem ressaltar a devida reflexão que estas temáticas requerem; estas serão o ponto de partida para um desenvolvimento posterior e mais sedimentado filosoficamente, que pretendo levar a cabo futuramente. Talvez, no fundo, estejamos todos "lost" neste nosso mundo que julgamos "real". Mas, mesmo assim, sempre é possível perder-se... para depois se encontrar, ou não.

LOST (idem, 2004-?)

Direção: diversos.

Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Josh Holloway, Terry O`Quin, Jorge Garcia.