A GUERRA CONTRA A GUERRA
Adriano de Oliveira
 
 
Esqueçam Michael Moore. O novo "homem de cinema" anti-Bush se chama Robert Redford. Ele mesmo, um veterano ator e diretor que já não precisa provar nada a ninguém, ataca a política de intervenção militar norte-americana com uma contundência e um dom intelectual admiráveis, gerando o mais polêmico filme do ano (claro, depois de "Tropa de Elite", para nós brasileiros).

Talvez seja a maneira como Redford formata sua nova obra que a torne tão distante do grande público, seja ele americano, brasileiro ou finlandês: ao optar por desenrolar sua história urdindo três tramas paralelas sincronizadas temporalmente (o trio de eventos se desenvolve ao mesmo tempo em lugares diferentes), sendo duas das mesmas fortemente amparadas em posturas verbais e com feição teatral, torna-se, de fato, árduo discutir junto às massas um tema tão complexo e controverso como é a função da guerra.

O tríptico de eventos dado pelo roteiro de Mattew Michael Carnahan se transforma, por força do espaço cênico-cinematográfico disposto por Redford, em um grande diálogo que remete ao estilo de Platão e de Galileu, formado por três discursos que ressoam unívocos em um coral apenas. É a grande estrutura replicando sua forma básica, como um fractal. Essa constitui a principal beleza estética de "Leões e Cordeiros" - a sincronia entre as partes e a coerência das mesmas com a proposta formal apresentada.

De um lado, temos uma conversa em uma universidade californiana não-especificada entre um desafiador mestre, o professor Malley (o próprio Redford), e um de seus de jovens alunos, o tão talentoso quanto desleixado Todd (o desconhecidíssimo Andrew Garfield). De um papo sobre freqüência às aulas e avaliações acadêmicas, o rumo da discussão caminha para se falar da alienação das classes média e alta estadunidenses em relação à guerra no Iraque e do engajamento dos menos favorecidos economicamente no exército, o que fará dialética com outro núcleo da história. Este, formado pelo afro-americano Finch (Derek Luke, revelado em "Antwone Fisher") e o latino Rodriguez (Michael Peña, que já virou figura carimbada em Hollywood: "Crash", "Babel", "As Torres Gêmeas", "Atirador"). São eles alunos de Malley que se alistaram no serviço militar americano para quitar suas dívidas financeiras da faculdade. Representam o lado real da guerra - ao servirem em uma missão de tomar um ponto estratégico - uma montanha gelada no Afeganistão -, acabam por ficar à mercê do inimigo enquanto aguardam desesperadamente por um resgate, tal visto pelos seus comandantes como se fosse um videogame a partir das imagens de satélite por eles recebidas, a despeito das vidas humanas colocadas em risco.

A terceira vertente narrativa da trama vem de Washington: uma entrevista exclusiva concedida por um jovem senador republicano (Tom Cruise, mais contido) em ascensão - e virtual candidato à Casa Branca - à uma experiente jornalista (Meryl Streep). Mais do que o lado político do conflito que se põe em xeque pela lente de Redford, cabe também no segmento uma crítica à passividade com que a maior parte da imprensa americana encara essa guerra.

Pelas primeiras resenhas que os críticos de cinema dos EUA atribuíram a "Leões e Cordeiros", é possível perceber um ar de desaprovação, que certamente se refletirá de modo equivalente junto à platéia daquele país. E isso não é fato apenas atribuído ao formato do filme, mas sim, a seu argumento atrevido. A coragem de Redford em mexer nas feridas do armamentismo e da dominação geopolítica tem seu preço. De modo inevitável, por esta obra o diretor será tachado de anti-republicano, ou mais, de comunista de plantão. Pois ele não é nem um, nem outro. Ao contrário do que inicialmente poderia se pensar, trata-se de um verdadeiro patriota ianque, sabedor da ineficácia de uma política externa intervencionista, a qual chegou a limites abusivos, e do desgosto que ela traz a tantas famílias de soldados dia após dia. A cena em que a jornalista Janine (Streep) passa em frente ao cemitério de Arlington, devotado aos mortos em combate, é icônica. Conhece ele, também, como esses fatos são varridos para baixo do tapete e ousa em mostrá-los, tal quisesse fazer deles uma questão nacional de tomada de consciência. Porém, sua voz ecoa praticamente isolada em um grande deserto - como um profeta.



LEÕES E CORDEIROS (Lions for Lambs, 2007)

Direção: Robert Redford.

Elenco: Robert Redford, Meryl Streep, Michael Peña, Tom Cruise, Derek Luke, Andrew Garfield, Peter Berg.

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