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Impressionante como as técnicas de animação estão à
flor da pele, basta algum animador ter algum acesso
de loucura e pronto: o que antes gerava preocupação
hoje vira desenho animado.
Porém, não há como negar, foi uma boa sacada mexer com
o ambiente do kung fu clássico, onde todas as energias
do Universo se concentram em punhos e pernas dos disciplinados
cidadãos, que por honrarem seus mestres conseguem não
só boas notas no colégio - como no mundo ocidental -,
mas também dar saltos no ar tão alto que não adianta
esperá-los para o almoço, pegar flechas com as orelhas,
pescar lambari com a mente, ir num restaurante comer
orvalho e pagar cem reais se sentindo virtuoso, e demolir
céu e terra com golpes capazes de provocar a extinção
dos dinossauros como só os melhores meteoros.
A Dreamworks resolveu falar sério e tirar sarro ao
mesmo tempo. Deslocou seus animais falantes e mandou
eles treinarem a milenar arte chinesa. Tudo servido
pela deslumbrante técnica de animação atual. Eis Kung
Fu Panda (idem, EUA, 2008).
Numa suposta China antiga, Po (voz de Jack Black) é
um urso panda gordo, tagarela e amante do kung fu, embora
não tenha tempo para treinar porque trabalha manhã,
tarde e noite no restaurante de macarrão do pai, que
quer vê-lo perpetuar o ofício. Na aldeia onde vivem
existe um templo, onde o mestre Shifu (um sagüi, eu
acho, com voz de Dustin Hoffman) e os cinco guerreiros
furiosos, Tigresa (Angelina Jolie), Macaco (Jackie Chan),
Garça (David Cross), Víbora (Lucy Liu) e Louva-a-Deus(Seth
Rogen) - só de listar dá vontade de rir, embora esses
personagens homenageiem estilos de kung fu. Os dias
passam na santa paz até que o mestre dos mestres Oogway
(uma tartaruga velha com voz de Randall Duk), mestre
até do sagüi, digo Shifu, tem uma visão: a pior das
criaturas para se enfrentar, o tigrão branco Tai Lung
(Ian McShane), escapará da prisão e virá se vingar daqueles
que o prenderam, e os dois mestres se encontram na lista.
Polvorosa. O vilão é tão poderoso que apenas aquele
que for digno de ler o pergaminho do dragão, poderá
aplicar o golpe do dragão que mandará Tai Lung para
o céu junto com dragão. É feito um torneio entre os
cinco grandes lutadores da aldeia para saber quem terá
o direito de ler o pergaminho. Nessa história, o desajeitado
Po tenta entrar no templo para assistir a torneio. Depois
de muitas tentativas, ele é acidentalmente bem sucedido,
e cai em frente ao mestre tartaruga na hora que este
proferiria o vencedor. Poderia ter caído em cima, e
o mestre em sua sabedoria (ou esclerose) sabendo que
nada nesse mundo é ao acaso, escolhe o urso panda, que
nunca lutou kung fu, como o digno da técnica do dragão,
para descontentamento dos cinco furiosos e do mestre
Shifu, que não permitirá tal afronta sem luta.
A obra dos diretores Mark Osborne e John Stevenson traz
uma combinação satisfatória, ainda que não totalmente
perfeita, entre técnica, roteiro e "atores". Estes últimos
são o elo fraco, mesmo com o céu estrelado nas vozes.
Enquanto os animadores se esbaldam para criar quase
que um Big Bang espetacular em cada cena, o Panda
Po, sinceramente é um mala, chato mesmo. E isso
acaba contaminando os outros. Embora as feições de alguns
personagens sejam interessantes, como a Tigresa, a Víbora
e o Louva-a-Deus, quando eles se expressam ou demonstram
emoções, não há como esconder a sensação de que estavam
em quase todos os desenhos animados que vi até hoje.
Muda-se o corpo, a voz, o desenho, e por incrível que
pareça o personagem permanece o mesmo. Para não ser
injusto, quem se safa um pouco, graças a um restinho
de originalidade, é o mestre tartaruga Oogway. O mestre
Shifu também seria, se não fosse o Yoda disfarçado,
se esforçando para construir frases na estrutura normal.
Porém, o roteiro, as cenas e cenários deslumbrantes
compensam com muita criatividade. O elo entre as relações
pai e filho e mestre e aluno é bem explorado. Também
algumas boas sacadas: Po é um panda mas seu pai acho
que é um marreco, uma cegonha ou gaivota. E quando isso
parece que será explicado, surge a revelação de um outro
segredo tudo-a-ver. O final é engraçado, fora que evoca
uma categoria de filmes em que muito garoto se esbaldou:
O Dragão de Shao Lin, os de Bruce Lee, e principalmente
o muito divertido, até lendário, Operação Dragão
Gordo. Vale a pena.
KUNG FU PANDA (idem, EUA, 2008)
Direção: Mark Osborne e John Stevenson.
Elenco com vozes de: Jack Black, Angelina Jolie,
Dustin Hoffman, Ian MacShane.
COTAÇÃO: ***
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