KUNG FU PANDA
Alexandre Mesquita
 
 

Impressionante como as técnicas de animação estão à flor da pele, basta algum animador ter algum acesso de loucura e pronto: o que antes gerava preocupação hoje vira desenho animado.

Porém, não há como negar, foi uma boa sacada mexer com o ambiente do kung fu clássico, onde todas as energias do Universo se concentram em punhos e pernas dos disciplinados cidadãos, que por honrarem seus mestres conseguem não só boas notas no colégio - como no mundo ocidental -, mas também dar saltos no ar tão alto que não adianta esperá-los para o almoço, pegar flechas com as orelhas, pescar lambari com a mente, ir num restaurante comer orvalho e pagar cem reais se sentindo virtuoso, e demolir céu e terra com golpes capazes de provocar a extinção dos dinossauros como só os melhores meteoros.

A Dreamworks resolveu falar sério e tirar sarro ao mesmo tempo. Deslocou seus animais falantes e mandou eles treinarem a milenar arte chinesa. Tudo servido pela deslumbrante técnica de animação atual. Eis Kung Fu Panda (idem, EUA, 2008).

Numa suposta China antiga, Po (voz de Jack Black) é um urso panda gordo, tagarela e amante do kung fu, embora não tenha tempo para treinar porque trabalha manhã, tarde e noite no restaurante de macarrão do pai, que quer vê-lo perpetuar o ofício. Na aldeia onde vivem existe um templo, onde o mestre Shifu (um sagüi, eu acho, com voz de Dustin Hoffman) e os cinco guerreiros furiosos, Tigresa (Angelina Jolie), Macaco (Jackie Chan), Garça (David Cross), Víbora (Lucy Liu) e Louva-a-Deus(Seth Rogen) - só de listar dá vontade de rir, embora esses personagens homenageiem estilos de kung fu. Os dias passam na santa paz até que o mestre dos mestres Oogway (uma tartaruga velha com voz de Randall Duk), mestre até do sagüi, digo Shifu, tem uma visão: a pior das criaturas para se enfrentar, o tigrão branco Tai Lung (Ian McShane), escapará da prisão e virá se vingar daqueles que o prenderam, e os dois mestres se encontram na lista. Polvorosa. O vilão é tão poderoso que apenas aquele que for digno de ler o pergaminho do dragão, poderá aplicar o golpe do dragão que mandará Tai Lung para o céu junto com dragão. É feito um torneio entre os cinco grandes lutadores da aldeia para saber quem terá o direito de ler o pergaminho. Nessa história, o desajeitado Po tenta entrar no templo para assistir a torneio. Depois de muitas tentativas, ele é acidentalmente bem sucedido, e cai em frente ao mestre tartaruga na hora que este proferiria o vencedor. Poderia ter caído em cima, e o mestre em sua sabedoria (ou esclerose) sabendo que nada nesse mundo é ao acaso, escolhe o urso panda, que nunca lutou kung fu, como o digno da técnica do dragão, para descontentamento dos cinco furiosos e do mestre Shifu, que não permitirá tal afronta sem luta.

A obra dos diretores Mark Osborne e John Stevenson traz uma combinação satisfatória, ainda que não totalmente perfeita, entre técnica, roteiro e "atores". Estes últimos são o elo fraco, mesmo com o céu estrelado nas vozes. Enquanto os animadores se esbaldam para criar quase que um Big Bang espetacular em cada cena, o Panda Po, sinceramente é um mala, chato mesmo. E isso acaba contaminando os outros. Embora as feições de alguns personagens sejam interessantes, como a Tigresa, a Víbora e o Louva-a-Deus, quando eles se expressam ou demonstram emoções, não há como esconder a sensação de que estavam em quase todos os desenhos animados que vi até hoje. Muda-se o corpo, a voz, o desenho, e por incrível que pareça o personagem permanece o mesmo. Para não ser injusto, quem se safa um pouco, graças a um restinho de originalidade, é o mestre tartaruga Oogway. O mestre Shifu também seria, se não fosse o Yoda disfarçado, se esforçando para construir frases na estrutura normal.

Porém, o roteiro, as cenas e cenários deslumbrantes compensam com muita criatividade. O elo entre as relações pai e filho e mestre e aluno é bem explorado. Também algumas boas sacadas: Po é um panda mas seu pai acho que é um marreco, uma cegonha ou gaivota. E quando isso parece que será explicado, surge a revelação de um outro segredo tudo-a-ver. O final é engraçado, fora que evoca uma categoria de filmes em que muito garoto se esbaldou: O Dragão de Shao Lin, os de Bruce Lee, e principalmente o muito divertido, até lendário, Operação Dragão Gordo. Vale a pena.



KUNG FU PANDA (idem, EUA, 2008)

Direção: Mark Osborne e John Stevenson.

Elenco com vozes de: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Ian MacShane.

COTAÇÃO: ***