O DIABO VESTE NADA...E ESCREVE MUITO
Alexandre Mesquita
 
 

Diablo Cody, guardem esse nome. Por quê? Resposta rasteira: ex-stripper que escreveu um roteiro. Resposta justa: ex-stripper (esse é o charme) que escreveu um roteiro muito bom.

Em Juno (Juno, EUA / Canadá/ Hungria, 2007), a garota do título é uma adolescente que transa tipo misericórdia com o nerd da turma e acaba, ai, ai, ai, engravidando. Opção número um: criar filhos não deve ser tão complicado assim. Opção número dois: aquela que não se fala, mas que se faz muito. E opção número três, entregar para adoção.

No bom compasso dos produtos originados pela obra do escritor Nick Hornby (Alta Fidelidade, Um Grande Garoto), onde personagens complicados falam, comem, e reproduzem e tiram sarro das próprias neuras pela cultura pop, temos em Juno uma adaptação deste universo à adolescência feminina. A protagonista argumenta e contra-argumenta com a melhor amiga sobre o que fazer com o bebê utilizando metáforas de letras de rock ou de filmes de ficção científica. Opta então por prometer seu futuro bebê a um jovem casal bem de vida que não pode ter filhos.

Paralelamente, ao revelar a chocante novidade em casa, Juno aproveita para conhecer melhor o que tem lá, ou seja, seu pai e sua madrasta.

Numa terceira frente, a que seria mais natural de ser explorada pelo enredo, está adolescência & gravidez. Rejeição e escárnio na escola, a modificação do próprio corpo numa fase que é descrita pela fórmula química aparência mais hormônios igual a auto-estima. E a descoberta do amor e dos valores realmente importantes numa relação. Nesse ponto em especial, entra o casal candidato à adoção, que parece belo e perfeito, mas que aos poucos vai se revelando um pântano.

Diablo Cody é a stripper que escreveu um bom roteiro porque fugiu de servir ideologias, fugiu do contra ou a favor, e construiu personagens interessantes e críveis (isso nem sempre está relacionado) em uma história que transcorre segundo os valores destes personagens, dentro de um cotidiano que beira o nosso e, portanto, com falhas e virtudes de conduta. A moral é deles, e o encaminhar dos acontecimentos também.

E dá para dizer que, depois de tudo, Juno descobre o que realmente significa uma família, e o melhor, que tem uma.

Interessante e crível.

O elenco contribui, pegando junto, sem nenhum elemento destoante. Ellen Page trabalha com arrogância juvenil e fragilidade. A atriz de vinte anos transforma o confronto desses dois lados quase num duelo esportivo, não tenso como uma final, mas divertido como um jogo de domingo à tarde. Michael Cera, o nerd pai do bebê, arrasa como alguém que estava evoluindo de embrião para Forrest Gump e parou no meio. Jennifer Garner apaixona não só por sua beleza, mas como a desesperada para ser mãe adotiva, morrendo de medo de ter essa possibilidade mais uma vez negada. O momento em que fala com o bebê na barriga de Juno é emocionante, como se o próprio silêncio da sala parasse para prestar atenção.

O filme do diretor Jason Reitman (filho de Ivan Reitman, que fez "Os Caça-Fantasmas" na década de 80), é isso mesmo, de baixo orçamento, concebido não para ser obra-prima, mas para ser legal, com competência e fino trato.

Vale um ingresso.

E para quem já passou por ultra-som, dietas, cuidados, pré-natais, medos pré e pós-parto, toda a romaria, e ganhou o maior dos presentes no final, Juno lava, passa e engoma boas lembranças.

Para esses vale dois.


JUNO (idem, 2007)

Direção: Jason Reitman.

Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, J.K. Simmons.

COTAÇÃO: ****