INVICTUS
Alexandre Mesquita
 
 
O verbo americanizar foi criado para representar o poderio da (in)fluência cultural dos EUA. Mas o que seria americanizar? Segundo minha opinião: exaltar grandes feitos, colocando-os no terreno da exacerbação fantasiosa e de maneira a mexer naquele mecanismo que todos nós, seres humanos, teimamos em responder que é o da emoção. Mais emoção do que raciocínio. Mais certezas do que ambigüidades, mais o produto pronto do que o direito de escolha. Os americanos aprimoraram a técnica de bobinar e rebobinar nossas emoções por dinheiro e chegaram a um ponto que nos espantam com nós mesmos. Não sei bem o que fazer quando sou apresentado a mim mesmo por um filme americanizado, em alguns casos finjo que não me conheço, em outros me orgulho. Não sei onde me enquadro em Invictus (Invictus, EUA, 2009).

Neste filme, Clint Eastwood americanizou a vitória do time de Rúgbi sul-africano, cujo apelido é Springboks (espécie de antílope), na Copa do Mundo de 1995 realizada na África do Sul. Aquela Copa do Mundo de Rúgbi foi o primeiro grande evento esportivo do país depois do fim do apartheid. Época em que a expressão "fim do apartheid" estava apenas no papel. Com o rompimento de rígidas regras de discriminação racial que por décadas formataram uma sociedade de dois polos, brancos e negros estavam no limiar de uma guerra civil. Época também que Nelson Mandela (Morgan Freeman, no filme), ou Madiba, o ativista pela igualdade, que ficara 27 anos preso, segurava a batata quente de ser o primeiro presidente negro eleito, e recém eleito, um mundo de esperança sobre seus ombros. Há uma citação atribuída a Platão (pelo menos é o que está no início do jogo de videogame God of War 3) que diz: "A medida de um homem é o que ele faz com o poder". Mandela com poder na mão se mostrou um grande homem, daqueles que empurram a humanidade para frente. A mensagem do Grande Homem é simples, bem-vinda, necessária: perdoar para integrar. Praticante de boxe, Madiba percebeu a capacidade do esporte de criar vínculos e viu a oportunidade de costura do país pelo time nacional de rúgbi, aproveitando a Copa do Mundo da modalidade que seria realizada dentro de um ano. Contudo, a idéia da união em torno dos Springboks era desafiadora, pois este era um símbolo do apartheid. Brancos torciam a favor, negros contra. Possivelmente um contexto muito complicado de se contar nas telas.

Nada do que uma boa americanização não possa dar um jeito.

Invictus começa com os brancos de um lado da rua num clube de rúgbi que exalava poder aquisitivo, e do outro lado da rua meninos negros de uma favela jogando futebol. É realçado no filme que os negros do filme, inclusive Mandela, não entendiam muito de rúgbi. Bem, segue a linha do time desacreditado que recebe nos ombros uma missão impossível, mas totalmente digna, já que a união do país dependia deles, homens honrados, guerreiros, e por aí vai.

Com o livro Conquistando o Inimigo - Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, do jornalista inglês John Carlin, debaixo do braço, e a ajuda do roteirista Anthony Peckham, Eastwood ajustou a proposta de mostrar um país dividido, com um presidente que era considerado um herói para os negros e um temor para os brancos, e concebeu a linha narrativa de seu filme com algo bem definido, épico puro e simples, amizade entre opostos brotando até de forma infantil, como o previsível desfecho da relação dos guardas brancos e negros de Mandela, ou do menino e do policial - nada de muito novo a mostrar, nada de provocar ambigüidades, nada para se pensar muito.

E aí vemos que a linha de costura vai pegando jeito. Aqueles que no início se odiavam e não suportavam a ideia de ficarem juntos, se abraçam e comemoram a cada vitória. A final foi contra os poderosos All Blacks, a seleção da Nova Zelândia (para contextualizar: o que o futebol é para os brasileiros, o rúgbi é para os neozelandeses), sendo a Seleção Sul-Africana não era nem de longe a favorita. Daí para diante o QI necessário para deduzir o que acontecerá é mínimo, até porque aconteceu mesmo o fato.

Morgan Freeman? Sua interpretação é de certa forma padrão, mas Freeman, ator extremamente carismático, tem no seu interpretar a sensação do bom camarada, e deixa esta marca em qualquer coisa que faça. Já se sabia que ele como Mandela seria o próprio Mandela. Por isso, gostei mais de Matt Damon no papel do capitão do time, François Pienaar. Interpretação austera, pouca fala, tão pouca que nas primeiras cenas passa a impressão que veio para o filme apenas para ganhar uns trocados sem muito esforço. Mas com o andar da carruagem se percebe o que Damon notou antes: seu personagem tinha de ser assim para absorver toda a idéia fundamental. Um homem que carrega uma grande responsabilidade nos ombros, que tem de conviver por um lado com os antigos companheiros de time, a maior parte infelizmente racista, e carregar a unificação dos povos, com os pedidos do presidente Mandela, do outro. Com uma missão dessas, é melhor mais fazer do que falar. E com esse ajuste no modo de ver as coisas, Damon aparece como um corretíssimo e milimétrico ator. A reação sóbria de espanto e admiração do personagem na visita com seu time (não sei se é ficção ou real) à prisão em que Mandela ficou por 27 anos é digna de uma indicação ao Oscar (como aconteceu).

Eastwood muito simples. Não me surpreenderia se um dia na sua biografia autorizada definitiva ele assumisse que nesse filme quis simplesmente fazer um exercício de filmar esportes dentro dos campos. Nesse sentido, as imagens que consegue são interessantes, embora demandem um certo conhecimento de rúgbi para serem degustadas na dimensão certa. Mas que bom para nós que ele mostrou a Haka Maori, dança de guerra que os All Blacks neozelandeses fazem antes de suas partidas, e que faz a gente dar graças a Deus de estar nas arquibancadas e não dentro do campo.

Mas lá no apagar das luzes, Clint Eastwood cometeu um erro básico de americanização, segundo minha ótica. A cena final é ambígua. Deixa a dúvida sobre o que nos foi mostrado nas últimas duas horas. Se realmente foi a demonstração da união dos dois pólos do povo sul-africano pelo heroísmo ou, se na verdade o que houve foi a manutenção, de forma sutil, da dominação cultural de um pólo sobre o outro.

E agora?



INVICTUS (idem, EUA, 2009)

Direção: Clint Eastwood.

Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Shakes Myeko.

Cotação:***