INFILTRANDO-SE NOS CONFLITOS
Adriano de Oliveira
 
 

Quando, na última edição do Globo de Ouro, Scorsese agradeceu o prêmio recebido de melhor diretor, ele se referiu, em seu discurso, ao filme original que causou a versão por ele dirigida, "Os Inflitrados". Para muitos que assistiam à cerimônia, tal declaração trouxe surpresa pelo fato novo, pois uma grande parte do público que conferiu nos cinemas a nova obra de Martin, até então desconhecia a existência do título precursor. Em verdade, uma fatia bastante restrita de cinéfilos já teve a oportunidade de ver "Infernal Affairs", produção de Hong Kong de 2002, a tal obra seminal a que o ítalo-americano se referiu, que no Brasil foi lançada diretamente em DVD sob o título "Conflitos Internos".

Assim, torna-se de interesse fazer uma breve comparação entre as duas películas. Em suma, a história é a mesma, e quem verificar ambas as fitas com certo cuidado, verá seqüências muito parecidas. Como explicar, então, que "Os Infiltrados" tenha uma duração sensivelmente maior que a da versão oriental? É que o roteiro do original foi adaptado para se contornar ao estilo scorseseano, o que permitiu não somente acréscimos de violência, mas também um desenvolvimento mais amplo dos personagens principais e acréscimos em papéis secundários e terciários que eram inexistentes ou atrofiados em "Infernal Affairs". Assim, a metralhadora verbal extremamente ofensiva de Dignam (Mark Wahlberg), no exemplar americano, é criação do roteirista William Monahan, responsável pela contrapartida ocidental da obra. A palavra de ordem em "Conflitos Internos", quando confrontado com "Os Infiltrados", é sutileza. Isso se reflete não apenas na metragem menor da película, mas na economia de palavras e na riqueza das imagens.

Em verdade, Scorsese poderia ter chegado a lugar melhor, dado o potencial do material que possuiu em mãos. Embora a direção de atores e a tensão impregnada sejam muito boas, a lente do diretor é quem empaca - depois de cerca de meia hora de projeção, esta cinematograficamente destacada, praticamente não mais surgem aqueles planos excepcionais a que ele nos habituou em trabalhos anteriores, e várias cenas figuram bastante similares com as daquele de Hong Kong. Estamos mal-acostumados, ou o realizador anda burocrático?

No campo das atuações, os filmes se tornam equivalentes, com grandes desempenhos dos elencos. Vale ao menos um destaque em cada um deles (curiosamente ambos os atores que fazem o papel do policial infiltrado na máfia): os ótimos Leonardo Di Caprio, na obra de Scorsese, e Tony Leung sob a direção dos orientais. Leung que tem se mostrado um dos melhores, se não o melhor, ator oriental de nosso tempo, com arrebatadoras performances em extraordinários filmes como "Herói", de Zhang Yimou, e "Amor à Flor da Pele", de Wong Kar-Wai.

"Conflitos..." faz uma referência (voluntária?) a "Fogo Contra Fogo" de Michael Mann ao contrapor, em um diálogo situado em uma loja de artigos de som, os protagonistas à moda da famosa cena envolvendo Pacino e De Niro - só que com um grácil e perspicaz discernimento em relação àquela: aqui, os sujeitos não sabem que são opostos entre si pelas malhas da lei e do crime, e têm uma conversa corriqueira e amistosa, em uma sutil ironia do destino.

A grande diferença fica quanto aos desfechos adotados. Mais coerente com sua proposta, desvelada desde as citações religiosas que surgem no início do filme, e menos preocupado em ser politicamente correto, "Conflitos Internos" leva vantagem sobre o final convencional escrito pelo roteirista Monahan. Embora que, no DVD da produção de Hong Kong, haja nos extras um final alternativo mais "certinho" (ainda bem que este é opcional).

Assistindo às duas películas, o espectador achará várias semelhanças e discordâncias entre elas, pontos de vitória ora em um, ora em outro filme. O objetivo deste texto é justamente despertar no leitor a intenção em ver as obras e compará-las.

Particularmente, julgo "Conflitos Internos" um degrau acima de "Os Infiltrados", não apenas por ser o filme precursor (que não conseguiu ser superado, de modo geral, no remake), mas também por realmente ter cara de obra-prima, por suas características de ousadia, elegância e economia. Às vezes, menos é mais.

OS INFILTRADOS (The Departed, EUA, 2006)

Direção: Martin Scorsese.

Elenco: Leonardo Di Caprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Vera Farmiga, Ray Winstone.

COTAÇÃO: ****


CONFLITOS INTERNOS (Mou Gaan Dou/Wu Jian Dao/Infernal Affairs, Hong Kong, 2002)

Direção: Wai Keung Lau e Siu Fai Mak.

Elenco: Tony Leung, Andy Lau, Eric Tsang, Anthony Wong, Kelly Cheng, Elva Hsiao.

COTAÇÃO: *****