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Quando, na última edição do Globo de Ouro, Scorsese
agradeceu o prêmio recebido de melhor diretor, ele se
referiu, em seu discurso, ao filme original que causou
a versão por ele dirigida, "Os Inflitrados".
Para muitos que assistiam à cerimônia, tal declaração
trouxe surpresa pelo fato novo, pois uma grande parte
do público que conferiu nos cinemas a nova obra de Martin,
até então desconhecia a existência do título precursor.
Em verdade, uma fatia bastante restrita de cinéfilos
já teve a oportunidade de ver "Infernal Affairs",
produção de Hong Kong de 2002, a tal obra seminal a
que o ítalo-americano se referiu, que no Brasil
foi lançada diretamente em DVD sob o título "Conflitos
Internos".
Assim, torna-se de interesse fazer uma breve comparação
entre as duas películas. Em suma, a história é a mesma,
e quem verificar ambas as fitas com certo cuidado, verá
seqüências muito parecidas. Como explicar, então, que
"Os Infiltrados" tenha uma duração sensivelmente
maior que a da versão oriental? É que o roteiro do original
foi adaptado para se contornar ao estilo scorseseano,
o que permitiu não somente acréscimos de violência,
mas também um desenvolvimento mais amplo dos personagens
principais e acréscimos em papéis secundários e terciários
que eram inexistentes ou atrofiados em "Infernal
Affairs". Assim, a metralhadora verbal extremamente
ofensiva de Dignam (Mark Wahlberg), no exemplar americano,
é criação do roteirista William Monahan, responsável
pela contrapartida ocidental da obra. A palavra de ordem
em "Conflitos Internos", quando confrontado com
"Os Infiltrados", é sutileza. Isso se reflete
não apenas na metragem menor da película, mas na economia
de palavras e na riqueza das imagens.
Em verdade, Scorsese poderia ter chegado a lugar melhor,
dado o potencial do material que possuiu em mãos. Embora
a direção de atores e a tensão impregnada sejam muito
boas, a lente do diretor é quem empaca - depois de cerca
de meia hora de projeção, esta cinematograficamente
destacada, praticamente não mais surgem aqueles planos
excepcionais a que ele nos habituou em trabalhos anteriores,
e várias cenas figuram bastante similares com
as daquele de Hong Kong. Estamos mal-acostumados, ou
o realizador anda burocrático?
No campo das atuações, os filmes se tornam equivalentes,
com grandes desempenhos dos elencos. Vale ao menos um
destaque em cada um deles (curiosamente ambos os atores
que fazem o papel do policial infiltrado na máfia):
os ótimos Leonardo Di Caprio, na obra de Scorsese, e
Tony Leung sob a direção dos orientais. Leung que tem
se mostrado um dos melhores, se não o melhor, ator oriental
de nosso tempo, com arrebatadoras performances em extraordinários
filmes como "Herói", de Zhang Yimou, e "Amor
à Flor da Pele", de Wong Kar-Wai.
"Conflitos..." faz uma referência (voluntária?)
a "Fogo Contra Fogo" de Michael Mann ao contrapor,
em um diálogo situado em uma loja de artigos de som,
os protagonistas à moda da famosa cena envolvendo Pacino
e De Niro - só que com um grácil e perspicaz discernimento
em relação àquela: aqui, os sujeitos não sabem que são
opostos entre si pelas malhas da lei e do crime, e têm
uma conversa corriqueira e amistosa, em uma sutil ironia
do destino.
A grande diferença fica quanto aos desfechos adotados.
Mais coerente com sua proposta, desvelada desde as citações
religiosas que surgem no início do filme, e menos preocupado
em ser politicamente correto, "Conflitos Internos"
leva vantagem sobre o final convencional escrito pelo
roteirista Monahan. Embora que, no DVD da produção de
Hong Kong, haja nos extras um final alternativo mais
"certinho" (ainda bem que este é opcional).
Assistindo às duas películas, o espectador achará várias
semelhanças e discordâncias entre elas, pontos de vitória
ora em um, ora em outro filme. O objetivo deste texto
é justamente despertar no leitor a intenção em ver as
obras e compará-las.
Particularmente, julgo "Conflitos Internos" um
degrau acima de "Os Infiltrados", não apenas
por ser o filme precursor (que não conseguiu ser superado,
de modo geral, no remake), mas também por realmente
ter cara de obra-prima, por suas características
de ousadia, elegância e economia. Às vezes, menos é
mais.
OS INFILTRADOS (The Departed, EUA, 2006)
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo Di Caprio, Matt Damon, Jack
Nicholson, Vera Farmiga, Ray Winstone.
COTAÇÃO: ****
CONFLITOS INTERNOS (Mou Gaan Dou/Wu Jian Dao/Infernal
Affairs, Hong Kong, 2002)
Direção: Wai Keung Lau e Siu Fai Mak.
Elenco: Tony Leung, Andy Lau, Eric Tsang, Anthony
Wong, Kelly Cheng, Elva Hsiao.
COTAÇÃO: *****
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