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SPIELBERG
EM NOVA BRÉSCIA
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Alexandre
Mesquita
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O meu compadre jura que o frango contou uma grande
fofoca pro nosso patrão. Entregou o nome do amante da
patroa, em espanhol. Frango falando espanhol?Mas que bobagem,
nem dei bola. Aquele frango imbecil só sabe meu nome em
castelhano…hahahaha…epa!
A história acima bem poderia ser uma competidora. Na cidade
gaúcha de Nova Bréscia, a cada dois anos é disputado o
Festival Nacional da Mentira, respeitado campeonato, que
serve de preparatória para o Campeonato Mundial da Mentira,
a ser disputado na mesma cidade, quando alguém acreditar
nisso.
Se existe campeonato, então existem vencedores e vencidos.
O que a mentira vencedora tem a mais? Creio que deve ter
superado em criatividade, originalidade e na forma que
foi contada. Mas como se avalia isso? Se fosse eu a definir,
optaria por dois critérios. Estudiosos da mentira para
comprovar a originalidade, e o público em geral para morrer
de rir, ficar feliz, e atestar que ela funciona.
Steven Spielberg, junto com seu amigão George Lucas, montou
na década de oitenta uma trinca cheia de divertidíssimas
mentiras que fez um bilhão de pessoas muito felizes (apenas
em Nova Bréscia, segundo o censo da época), Os Caçadores
da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição
e Indiana Jones e a Última Cruzada. Em vez
de um frango fofoqueiro versado em espanhol, contaram
as proezas de Indiana Jones, o arqueólogo mais querido
do mundo.
Atravessar lugares abarrotados de bichos venenosos com
educados pedidos de "com licença" aqui e ali e achar artefatos
lendários, além de deixar amizades pelo caminho; duzentos
nazistas atirando ao mesmo tempo e ninguém consegue acertar
o arqueólogo que, em compensação, com um soco derruba
três; saltar de um avião desgovernado utilizando um bote
salva-vidas e, como se não bastasse, deslizando por uma
cordilheira de montanhas encontrar um rio no final; fugir
pelos trilhos de uma mina num carrinho em alta velocidade
e, num trecho que faltam trilhos, o carrinho salta, para
depois encaixar nos trilhos do outro lado; passar dois
filmes inteiros fazendo gato e sapato dos nazistas e receber
um autógrafo de algum comandante inimigo.
Embora muito do sucesso se deve ao casamento do carisma
do personagem com o carisma do ator Harrison Ford, na
época capaz de segurar um filme inteiro, foram as mentiras
no espírito das matinés dos cinemas da década de quarenta
que ditaram o ritmo do show. Spielberg, como um verdadeiro
e legítimo mentiroso do bem, estava afiadíssimo na forma
de contar. A única coisa que se lamenta até hoje é que
ele nunca trouxe seus Indiana Jones para concorrer em
Nova Bréscia. Seriam virtuais campeões, é o que todos
os entendidos da mentira dizem. E isso, eu acredito, deixou
uma lacuna no coração dele.
Portanto, eu acredito, e o pessoal de Nova Bréscia também,
que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana
Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008)
veio na verdade não como caça-níquel - como os outros
concorrentes do mesmo festival teimam em denegri-lo -,
mas para consertar esse lapso, essa falha histórica, essa
mácula no currículo do grande diretor. Spielberg esteve
com a cabeça em ganhar Nova Bréscia durante quase vinte
anos, e não agüentou mais.
Eu acredito nisso, já disse.
É bem verdade que o tempo, principalmente depois do que
fez com Harrison Ford, não recomendaria essa seqüência.
Concordo. E ainda li sobre a intenção do roteiro (de um
irregular David Koepp) de trazer situações típicas dos
filmes anteriores para manter a marca registrada do personagem.
Alerta: para funcionar em Nova Bréscia, as mesmas devem
vir abraçadas com alguma novidade para não ficar no previsível
e perder pontos. Mas por outro lado, Spielberg não deixou
um substituto à altura. Stephen Sommers e seus A Múmia
bem que tentam. Sommers é criativo, bola boas mentiras,
mas é um cara tipo oitavas-de-final em Nova Bréscia, pois
não sabe contá-las à altura do mestre.
Eufórico, fui no cinema e sentei na poltrona com tudo
esquematizado. Eu seria o especialista em mentira, e a
platéia (sala cheia) avaliaria a funcionalidade.
O começo da Caveira provoca a celebração do "rever
amigos". A seqüências na Área 51 e a perseguição de motos
são pelos bons tempos. Babei com o talento com que Spielberg
costurou a participação dos Ratos do Deserto, que aparecem
do começo até o fim de toda a seqüência inicial. E continuei
agradecendo na seqüência seguinte, a da motocicleta, que
pega algumas peculiaridades dos anos cinqüenta para os
americanos, como a paranóia da invasão extraterrestre-russa
e a convivência entre "tribos" - como os motoqueiros e
os estudantes. Indiana foge pelas ruas em alta velocidade
na garupa da moto até que um carro com vilões russos armados
emparelha com seu veículo. O arqueólogo entra por uma
janela do automóvel, bota todo mundo a nocaute e sai pela
janela do outro lado, de volta ao banco do carona. A cena
termina com ambos, ele e o motorista da moto (Shia LaBeouf),
perdendo o controle e invadindo a biblioteca da Universidade
onde Indiana dá aulas. Coincidentemente, ele cai em frente
à mesa onde está um aluno seu, que aproveitou para tirar
dúvidas. Adorei e a platéia se esbaldou de rir. O filme
já estava na semifinal em Nova Bréscia.
Até aí, eu agradeci a presença da quarta aventura.
Porém, a etapa sul-americana mostra que não foi só Harrison
Ford que apanhou do tempo. O combustível da originalidade
e criatividade foi se esvaindo. Muita repetição, muito
óbvio, muito mesmo. Parece que as situações tradicionais,
brigas em penhascos, vilões aparecendo sempre depois de
uma descoberta, auto-destruição de lugares sagrados, foram
as que mais tiveram o bom senso de mostrar que não há
mais o que esperar delas. Spielberg perdido. E se perdeu
porque acho que queria terminar rápido, estava sem saco,
ou fôlego. Emblemática é a seqüência das três cachoeiras.
Cena com potencial de Indiana levantando o troféu em Nova
Bréscia. Agucei minha atenção. A platéia medidora de felicidade
não respirava. Enorme expectativa. Passou-se uns quinze
minutos do final da cena das três cachoeiras e todos nós
ainda estávamos na mesma situação, esperando alguma coisa.
Portanto, A Caveira de Cristal frustrou o sonho
de Steven Spielberg de conquistar Nova Bréscia, e acho
que ele vai ter de conviver com isso. Bem, se serve de
consolo, eu e a platéia concordamos em conceder-lhe menção
honrosa pela cena da geladeira. Mas ele que não invente
de tentar ano que vem, até mentira tem dignidade.
INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (Indiana
Jones and the Kingdom of Crystal Skull, 2008)
Direção: Steven Spielberg.
Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen,
Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent.
Cotação: ** |
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