CHICOTE, CHAPÉU E CHAVÕES
Adriano de Oliveira
 
 
Indiana Jones havia se despedido magistralmente das platéias cavalgando em direção ao horizonte junto à sua trupe de aventureiros na bela cena final de "Indiana Jones e a Última Cruzada" (1989).

E tudo podia ter ficado por ali mesmo, um maravilhoso episódio a encerrar uma trilogia de respeito. Mas ao longo dos anos sempre se cogitou uma continuidade, um quarto capítulo. Roteiros foram especulados, descartou-se inclusive um deles creditado a M. Night Shyamalan, tido por irresistível aos produtores segundo os boateiros de plantão, e outro de Frank Darabont. Harrison Ford clamava que estava ficando tarde para reencarnar o personagem. Dezoito anos depois daquela que poderia ser sua derradeira película, o arqueólogo ganhou sinal verde para voltar aos cinemas quando Lucas e Spielberg bateram o martelo para o roteiro de David Koepp, autor tanto de obras interessantes como "O Pagamento Final" (1993) como de outras nem tão felizes, tal o remake de "Guerra dos Mundos" (2005).

Após assistir a uma sessão de "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008), fica a pergunta: se o roteiro escolhido para ir às telas é pouco apetecível, o que supor daqueles que foram preteridos? Em resumo: o quê levou produtores e diretor a optarem por ele? No texto de Koepp, várias vezes falta timing tanto no aspecto dramático quanto no cômico, há personagens que não convencem (o assistente Mac interpretado por um desajeitado Ray Winstone é tão sofrível que - involuntariamente - parece um esquizofrênico; o professor Oxley de John Hurt, quase o tempo todo em transe, resulta deveras patético, a Irina Spalko de Cate Blanchett nunca surge ameaçadora como convém a uma vilã - da performance da atriz, resta de positivo apenas seu sotaque ucraniano) e fica evidente o quanto ele é servil a Spielberg, introduzindo sob encomenda temas caros ao diretor como família e...ETs! Tudo recheado a muitos chavões, claro. Pois ninguém mais agüenta ver o chicote vencer a arma de fogo, inimigos chegando sorrateiramente bem na hora da descoberta de artefatos raros ou lugares sagrados se destruindo após uma profanação dos mesmos, para ficar em alguns exemplos.

Nessa linha, se concretiza um dos maiores medos de quem havia visto os trailers de "O Reino da Caveira de Cristal": que o filme servisse de ponte para continuar as aventuras do Professor Jones a partir de seu filho. Embora a cena última do longa insinue que o chapéu ainda não vai mudar de cabeça, pode também ser essa uma piada enganadora, doida para ser desmentida, como acontece na linha de diálogo finalizadora de "Homem de Ferro" (2008). Shia LaBeouf não está no filme por acaso, e sua destreza com a faca tal a de Indiana com o chicote cheira a uma perturbadora continuidade com direito a passe de bastão.

Não bastasse a apologia "made for Spielberg" a alienígenas na trama - onde reside uma citação clara ao outrora polêmico livro "Eram os Deuses Astronautas" (1968) do suíço Erich von Däniken - o roteiro de Koepp tira do até então humanamente herói Indiana a característica de se surpreender com seus feitos para agora considerá-los fatos banais: o protagonista e seus amigos descem de bote por três enormes quedas d'água das cataratas do Iguaçu (que fica na Amazônia, segundo o filme, numa péssima aula de Geografia) como se fosse algo extremamente trivial e ninguém se vangloria de sair vivo disso.

Ainda bem que resta algo de positivo ao longo da projeção. A identificação de Ford com seu personagem é imediata e bastante feliz, há um mimetismo evidente entre eles. Ressucitar a atriz Karen Allen e sua Marion de "Os Caçadores da Arca Perdida" (1981) foi algo nobre. A breve referência à Arca da Aliança de tal filme, quando da invasão da Área 51 onde fora alojada na conclusão da obra de 82, e a rima visual com o símbolo da Paramount soam nostálgicas. O penteado de Blanchett faz alusão ao de Louise Brooks em "A Caixa de Pandora" (1929) e a aparição inicial de LaBeouf é visível homenagem a Marlon Brando e a James Dean.

Entanto, a quase totalidade das cenas de ação (aquela ambientada na Área 51, no começo do filme, e a da perseguição entre a moto dos heróis e o carro dos vilões são a únicas realmente boas nas suas arquiteturas e as que soam mais naturais, a despeito da overdose de CGI das demais), as piadas fracas e os exageros fantasiosos de quem antes só tocava o sobrenatural respeitosamente continuam a apontar no sentido contrário, sendo também responsáveis pelo muito a desejar de "O Reino da Caveira de Cristal". Aliás, este que não tem o pioneirismo de reavivar as matinês trintistas de "Os Caçadores da Arca Perdida", a diversão pura de "Indiana Jones e o Templo da Perdição" (1984) nem o refinamento da fórmula trazido por "Indiana Jones e a Última Cruzada" - ah, um Sean Connery aposentado e um Denholm Elliott falecido (ambos citados em fotografias na mesa do intrépido arqueólogo) fazem muita falta.

A sensação de nostalgia que resta ao soar do inesquecível tema de John Williams quando do final desta aventura é escassa, uma vez que "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" acrescenta pouca coisa de relevante a respeito do lendário personagem-título, efeito de uma seqüência extemporânea e desnecessária, sendo então possível reafirmar o parágrafo inicial desta crítica com uma sutil alteração:

Indiana Jones se despediu magistralmente das platéias cavalgando em direção ao horizonte junto à sua trupe de aventureiros na bela cena final de "Indiana Jones e a Última Cruzada" (1989).


INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (Indiana Jones and the Kingdom of Crystal Skull, 2008)

Direção: Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent.

COTAÇÃO: **