HULK IN RIO
Alexandre Mesquita
 
 
Direto do livro de receitas que um dia escreverei: cinco folhas de losna picadas, misturar com água da chuva, esfregar na barriga, olhar para o ponto mais alto do céu oito vezes e permitir que tudo aquilo que está preso ganhe a liberdade. Simpatia para curar gases da minha vó, tiro e queda segunda ela. As simpatias estão sumindo, coitadas, o próprio nome diz que são simpáticas. Ouvi-las é como se a gente estivesse convivendo não com a sabedoria, mas o carinho dos mais velhos. Meu estômago dói, chá de folha de pitangueira e saltar num pé só. A Gisele Bündchen me odeia, saltar num pé só e chá de folha de pitangueira. A diferença entre dor de barriga e paixão é sutil. Às vezes eu ficava doente só para curtir a criatividade bem intencionada delas.

Raiva. No mundo de hoje (e talvez no de sempre) ficar com raiva é fácil. Várias causas. Uma delas é a injustiça, evento no qual num curto instante de tempo parece que está claro que existem os bons e os maus, depois a gente começa a refletir de forma sensata a respeito da complexidade do mundo e a magia de simplificar as coisas se quebra. Se a cura dos efeitos da injustiça não vem pelos meios legais, que venha por uma simpatia. E eu conheço uma: fique verde, infle, quebre tudo, se precisar eu tenho aqui um vidrinho com raios gama.

Tiro e queda.

Alguém aí tem algum outro palpite de por quê o Hulk é tão carismático? Um monstro verde (por quê verde? - se os letais raios gama que o transformaram são invisíveis), feio e de mal com a vida, que não precisa convencer a humanidade de que é engraçado, pelo contrário (agora me dei conta, Shrek e Hulk seriam a mesma pessoa, ou simplesmente o fato de ser verde, feio e rabugento garante o sucesso?). A sua idéia de como fazer justiça num regime republicano de estado de direito é "Hulk esmaga", ensina com a confiança de quem domina sua arte. Juízes, desembargadores, advogados e outros profissionais da justiça têm, claro, o poder de discordar dos seus métodos. Mas geralmente os que estão a menos de vinte quilômetros dele concordam.

Frente à mal-sucedida tentativa de remake do Hulk por Ang Lee, cinco anos atrás, a simpatia de Hollywood é: comece de novo, praticamente do zero, ninguém vai lembrar mesmo.

Tem-se então O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, EUA, 2008). Após uma fracassada experiência militar envolvendo raios gamas, o cientista exposto Bruce Banner (Edward Norton) adquire uma capacidade de canalizar sua raiva se transformando numa criatura cor limão, gigantesca e muito poderosa. E os militares querem isso. Banner não se entrega e tem de passar a vida fugindo. Obtém sucesso até montar esconderijo na favela carioca Rocinha e trabalhar numa fábrica de refrigerantes. Devido a uma seqüência infeliz nas exportações da bebida, os militares americanos descobrem seu paradeiro e o obstinado perseguidor General Ross (William Hurt) manda uma equipe dos melhores fuzileiros navais à famosa favela carioca. Banner só consegue escapar virando o Hulk. A aparição do monstro mexe profundamente com um dos fuzileiros, Emil Blonsky (Tim Roth), que morre de inveja e se propõe a fazer todo o possível para competir de igual para igual com ele. O general Ross agradece. Uma nova experiência é feita e um final destruidor é garantido.

Nas comparações inevitáveis com seus sucessores o monstro está mais vulnerável, menos agigantalhado, caminha no meio-termo entre o recente de Ang Lee e o antigo. Antigo? Sim, da série de TV O Incrível Hulk, entre 1977 e 1982 (o Hulk de lá, Lou Ferrigno, faz uma ponta como segurança e como a voz do verdão atual). Quando o monstro só aparecia no fim (soa intolerável na alta ansiedade visual de hoje) e cada episódio terminava com uma melodia triste empurrando o solitário David Banner (Bill Bixby) para mais um pedido de carona.

A direção de Louis Leterrier e o roteiro de Edward Norton e Zak Penn diz que é por aí mesmo. O filme tenta se fazer de ontem e de hoje. Traz de lá a idéia do bom e o mau, tenta mostrar o monstro sem exageros (com exceção do fim). E, paralelamente, não se faz de rogado em usar toda a tecnologia disponível. Também procura não ser muito exigente consigo mesmo quanto à seriedade, para não cometer um dos erros comerciais de Ang Lee. Contém personagens sem muita auto-orientação, o que viola a regra de conservação de personalidade. Por exemplo, a cena do táxi em Nova York quando a namorada de Banner, Betty Ross (Liv Tyler), sempre com jeitinho meigo e voz baixa, dá um surto inexplicável e quase sai no tapa com o motorista, enquanto o "cara que se transforma no Hulk" ao seu lado acha lamentável. Ou seja, o personagem muda completamente só por uma piada. O filme abre mão de ser grande coisa, porém, "viva a diversão".

Mesmo não precisando, o elenco é famoso. Edward Norton como ator foi, e por enquanto não está, e não sei quando voltará, mas fãs como eu esperam sua volta triunfal um dia. No momento, seu Banner não está legítimo nem para pedir carona .Liv Tyler está Liv Tyler, deixa a todos sem palavras com sua beleza, e ótimo, porque daí eu esqueço de falar sobre sua quase nada atuação. Ah, ela e o Hulk fazem uma cena romântica que lembra King Kong. William Hurt e Tim Roth, ao contrário, se aproveitam da condição de secundários, sem muitas expectativas em cima, e conseguem se fazer ouvir mesmo quando não precisam falar.

Ao que parece, a Marvel sentou sólido acampamento nas telonas. Digamos que no final do filme ocorre algo parecido com o encontro à mesa entre Homem de Ferro e Hulk para discutir o futuro próximo, com o Nick Fury correndo por fora.

A nós, brasileiros, é recomendado fazer comparações e gargalhadas com a ficção científica na parte da Rocinha. O Hulk com cor de caipirinha. Hulk no futvôlei, dupla de ataque Hulk-Romário. Hulk versus Capitão Nascimento I, II e III. Não deu para segurar o riso com o dono da fábrica de refrigerantes que eu acho que era para ter sotaque de carioca da gema, mas parece ter saído de Samoa ou Guiné pelos mesmos motivos. Soldados americanos entrando na favela armados com cara de machões, e discretamente olhando para trás para ver se o Bope está lá.

Existe uma simpatia para quem não quer sair decepcionado quando for ver o novo filme do incrível Hulk: não pense muito, faça entrar por um ouvido e sair pelo mesmo ouvido, oito vezes. Funciona.



O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, EUA, 2008)

Direção: Louis Leterrier.

Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Lou Ferrigno.

Cotação: ***