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O diretor norte-americano David Lynch possui um estilo
cinematográfico peculiar, sui generis, nos seus
filmes - marca característica que pode ser percebida
até pelo mais básico conhecedor de sua obra, pontuada
pela não-linearidade das histórias narradas na maior
parte da sua filmografia, além de uma atmosfera onírica,
não convencional e a condição bizarra
de seus personagens e as situações em que os mesmos
se envolvem.
Obras impactantes pela complexidade narrativa como Twin
Peaks, A Estrada Perdida (Lost Highway)
e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive)
fizeram de Lynch um artista de culto, expondo na tela
devaneios non-sense que margeiam o limite entre a sanidade
(?) e a loucura, e delírios oníricos em universos que
transitam entre a realidade e o imaginário, o sonho
e a fantasia, causando uma espécie de torpor alucinante
no espectador com sua verve abstrata, desafiadora da
lógica em narrativas nada convencionais, muitas vezes
desconexas de um encadeamento minimamente dito racional.
Embora eu defenda uma tese no sentido de argumentar
que há uma espécie de "lógica" interna nos filmes de
David Lynch, este não é o ponto de análise e reflexão
aqui; isto certamente resultaria em um estudo sobre
a obra do mesmo sob diversas perspectivas (psicanalíticas,
artísticas, estéticas, filosóficas, e por aí vai...).
O presente objetivo é falar um pouco sobre seu último
filme, Inland Empire (traduzido aqui no Brasil
como "Império dos Sonhos", e que poderia ter
sido nomeado "Império Interior"...), do que ele
representa, bem como tecer algumas comparações e relações
desta obra com outros filmes do diretor, conjecturando
pontos de contato e ressaltando outros que distam de
um traço em comum. Império dos Sonhos é considerado
por diversos setores da crítica como o mais complexo
e difícil trabalho de Lynch. Por outro lado, uma parte
desta mesma crítica espinafrou o filme, rotulando-o
como uma espécie de opróbrio ao público, especialmente
os fãs do cinema desse realizador; os que o veneraram,
em contrapartida, o vêem como algo que irá para a posteridade
lynchiana, no sentido deste ter realizado sua obra-prima.
Discutiremos, pois, um pouco de tudo isso no que segue.
Em primeiro lugar, para começo de conversa, gostaria
de expressar minha opinião pessoal relativas à estas
considerações, a saber, se Império dos Sonhos é
a obra-prima, o melhor filme de David Lynch, o mais
complexo, difícil e intrincado roteiro seu: minha resposta
é "não". Embora seja um bom filme, com a marca
lynchiana impregnada em sua narrativa e na atmosfera
carregada e sombria de seus personagens, ele é bom quando
comparado com si mesmo. Contudo, na relação com Cidade
dos Sonhos, a qual é a que melhor cabe aqui, hajam
vistas as semelhanças entre as histórias (atriz que
quer fazer sucesso em Hollywood, a crítica ácida à indústria
do cinema, personagens habitando mundos paralelos, onde
realidade e sonho misturam-se, indistinção entre a fantasia
e o real - num interstício de existências que por vezes
remete-nos ao universo do realismo fantástico de Jorge
Luis Borges, etc...), Império... é um filme inferior,
e em todos os sentidos. Pois a narrativa não aparece
tão complexa e instigante para seduzir o espectador
quanto a troca de identidades e personalidades das atrizes
interpretadas por Naomi Watts (Betty) e Laura Harring
(Rita), que inúmeras vezes nos confundem com seu jogo
cênico.
Talvez a melhor maneira de se "entender" o aspecto dessa
"confusão de personagens" tipicamente lynchiana seja
apelando para a idéia de "estados de coisas" afirmada
por Wittgenstein no seu Tractatus Logico-Philosophicus,
em que existem inúmeras possibilidades de ser dentro
do espaço lógico dentre os diversos mundos possíveis,
existentes e não existentes, incluindo este, o nosso...).
Em Império..., Laura Dern, naquele que seria
o seu papel mais complexo até então, segundo o próprio
David Lynch vaticinara a ela antes das filmagens, interpreta
duas personagens centrais que, a exemplo de Betty e
Rita em Mulholland Drive, transitam em mundos
distintos, universos de percepção que intercambiam sonho
e vigília. Nikki/Susan são atriz/personagem, no mesmo
recurso de Lynch em Cidade dos Sonhos. Contudo,
esta transição constante em Inland Empire de
Nikki e Susan é deveras evanescente, e emperram dentro
do contexto da história: as andanças de Laura Dern para
lá e para cá pelos espaços e tempos por vezes aborrecem
o espectador nas praticamente três horas de duração
do filme - excessivamente longa, há cenas extensas e
desnecessárias nesta duração, o que acaba comprometendo
um pouco o resultado final - , e não dizem muito a que
vieram, ao fim e ao cabo (bem, isso realmente não importa
num filme de David Lynch, senão o tempo roubado). A
atmosfera onírica das viagens de Betty e Laura causam
no espectador muito mais arrebatamento e estupefação
do que as de Nikki e Susan, uma pela construção destas
personagens dentro do roteiro (que, embora complexo
e "ilógico", era sim um roteiro; Império dos Sonhos
foi filmado em boa parte no improviso, praticamente
sem roteiro prévio, e esta experimentação de Lynch para
tornar o filme mais natural e "viajandão" acabou não
tendo lá muito efeito na prática, ao menos aparentemente),
e outra pela própria Laura Dern, que embora esteja bem
em cena, por vezes parece pouco à vontade e até um pouco
travada. Jeremy Irons poderia ter sido mais explorado
pelo diretor: é um extraordinário ator, tem pique para
personagens de fôlego e intensos, mas pouco aparece
e não marca muita presença. Justin Theroux está melhor
e mais à vontade do que seu Steven Soderbergh cover
e corno em Cidade dos Sonhos.
Além de Império dos Sonhos "roubar" da criatividade
e originalidade, até certo ponto, de Mullholand Drive,
também faltou a ele o humor negro característico do
realizador, presente em passagens marcantes de obras
anteriores: Cidade dos Sonhos (o personagem de
Justin Theroux e a escolha da atriz para o filme), A
Estrada Perdida (as aparições do "Misterious Man"
de Robert Blake, com sua cara de palhaço, telefonando
para Fred (Bill Pullman) numa festa psicodélica e falando
com o mesmo na sua casa, numa das cenas mais antológicas
da filmografia do autor; a perseguição de carro de Mr.
Eddie (Robert Loggia) ao mau motorista, e a carraspana
que passa no mesmo sob o olhar incrédulo de Pete (Balthazar
Getty)), a série Twin Peaks (as conversas do
agente Cooper (Kyle MacLachlan) com o xerife Harry,
e os seus sonhos malucos - bizarros e incompreensíveis
-, que ele levava tão a sério para resolver o caso Laura
Palmer, etc.). Inland Empire é sombrio demais,
muito frio, e carente desse toque de sarcasmo típico
de Lynch. A narrativa aqui arrasta-se, ora fazendo referência
ao mundo lynchiano em forma de uma ode egocêntrica,
ora fugindo por vezes deste: a irregularidade de ritmo
e estilo, infelizmente, prevaleceu nesse ponto.
Faltaram igualmente simbolismos e metáforas - não em
quantidade, mas que prendessem a atenção de modo mais
efetivo, pois vários não se resolvem, ficando a esmo
-, e fossem enigmáticos por si mesmos. Incluem-se aí
a "auto-homenagem" a Rabbits, do mesmo autor
(os humanos com cabeça de coelho, dois deles sentados
no sofá, enquanto uma passa roupa ao fundo) com uma
claque rindo às suas ações, o que não causa, conceitual
nem simbolicamente, o aspecto enigmático pretendido,
como já o fizeram o anão na sala vermelha de Twin
Peaks, falando as suas charadas em um idioma incompreensível,
ou o já referido "Misterious Man" de Lost
Highway, ou Rebeca del Rio cantando no Clube Silêncio
de Cidade dos Sonhos, bem como o Cowboy da Lâmpada
e seus enigmas para o diretor. Em verdade, além da auto-referência
citada, essas figuras bizarras de cabeça de coelho lembram
mais a criança deformada e monstruosa de Eraserhead,
em que o aspecto conceitual e estético prima mais do
que a própria significação enigmática de todo o contexto.
Para Lynch, o non-sense é um apoio narrativo em si mesmo,
e isto deve fazer referência a faceta de artista plástico
que ele possui. Vejamos: quando começou a fazer filmes,
rodou alguns curtas bastante experimentais na década
de 70, como The Alphabet, A Avó, Seis
Figuras Doentes e A Amputada, onde se percebe
que este aspecto conceitual é algo estético e de vanguarda
dentro da obra lynchiana como um todo, considerando
ele não apenas como diretor de cinema, mas como artista
de uma maneira geral, ou seja também artista plástico
enquanto cineasta, preocupado com a imagem e o impacto
da mesma no espectador.
A ausência de Ângelo Badalamenti na trilha sonora de
Inland Empire comprometeu: o parceiro inseparável
de Lynch dava, com sua música instrumental intimista
e sensível, um aspecto idiossincrático e onírico aos
filmes; isto faltou consideravelmente na nova obra.
Quanto ao uso da câmera digital, penso que há aspectos
positivos e negativos do emprego da mesma, mas na telona
do cinema sempre fica melhor, como qualidade de imagem,
a película, característica do Cinema ele-mesmo: a granulosidade
na imagem captada na forma tradicional ainda faz parte
da Sétima Arte, ao menos aos puristas. Precisa-se destacar,
entretanto, a destreza de Lynch com a câmera na mão
e suas tomadas não-usuais. Quanto ao estilo, ele não
mudou: sua habilidade incomum de criar climas de mistérios
e enigmas, e deslinearidades em roteiros altamente inteligentes
e complexos, oníricos e devaneantes por natureza, non
senses em sua essência, continuam intactas e preservadas,
dificilmente alguém virá para substituir o grande mestre,
mesmo que este nem sempre ande tão inspirado.
David, apesar de Império dos Sonhos ter suas
imperfeições, é alguém que faz coisas extraordinárias,
várias boas e outras nem tão boas assim, mas que sempre
nos faz engrandecer e aumentar o nosso imaginário fantástico.
Parafraseando Borges, no caso de David Lynch, "A
alegria de (in)compreender é maior que a alegria de
ver e de viver". Com o cineasta, tudo é possível,
onde mesmo o impossível ganha animação em nosso imaginário
infinito e transcendente, que caso fosse de um ser igualmente
infinito pelo menos nessa capacidade imaginativa e pensável,
seria também atemporal e eterno. Bem, dos seres finitos
e limitados em seus atributos, David Lynch é um dos
que mais se aproximam deste conceito...como bem poucos
outros, como o próprio Jorge Luis Borges, por exemplo.
Mas aí já começa outra história, igualmente permeada
e entranhada por criaturas fantásticas, devaneios oníricos
e delírios non-sense...
IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006)
Direção: David Lynch.
Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux.
COTAÇÃO: ***
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