DEVANEIOS NON-SENSE E
DELÍRIOS ONÍRICOS LYNCHIANOS
Ricardo Rangel
 
 

O diretor norte-americano David Lynch possui um estilo cinematográfico peculiar, sui generis, nos seus filmes - marca característica que pode ser percebida até pelo mais básico conhecedor de sua obra, pontuada pela não-linearidade das histórias narradas na maior parte da sua filmografia, além de uma atmosfera onírica, não convencional e a condição bizarra de seus personagens e as situações em que os mesmos se envolvem.

Obras impactantes pela complexidade narrativa como Twin Peaks, A Estrada Perdida (Lost Highway) e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive) fizeram de Lynch um artista de culto, expondo na tela devaneios non-sense que margeiam o limite entre a sanidade (?) e a loucura, e delírios oníricos em universos que transitam entre a realidade e o imaginário, o sonho e a fantasia, causando uma espécie de torpor alucinante no espectador com sua verve abstrata, desafiadora da lógica em narrativas nada convencionais, muitas vezes desconexas de um encadeamento minimamente dito racional. Embora eu defenda uma tese no sentido de argumentar que há uma espécie de "lógica" interna nos filmes de David Lynch, este não é o ponto de análise e reflexão aqui; isto certamente resultaria em um estudo sobre a obra do mesmo sob diversas perspectivas (psicanalíticas, artísticas, estéticas, filosóficas, e por aí vai...). O presente objetivo é falar um pouco sobre seu último filme, Inland Empire (traduzido aqui no Brasil como "Império dos Sonhos", e que poderia ter sido nomeado "Império Interior"...), do que ele representa, bem como tecer algumas comparações e relações desta obra com outros filmes do diretor, conjecturando pontos de contato e ressaltando outros que distam de um traço em comum. Império dos Sonhos é considerado por diversos setores da crítica como o mais complexo e difícil trabalho de Lynch. Por outro lado, uma parte desta mesma crítica espinafrou o filme, rotulando-o como uma espécie de opróbrio ao público, especialmente os fãs do cinema desse realizador; os que o veneraram, em contrapartida, o vêem como algo que irá para a posteridade lynchiana, no sentido deste ter realizado sua obra-prima. Discutiremos, pois, um pouco de tudo isso no que segue.

Em primeiro lugar, para começo de conversa, gostaria de expressar minha opinião pessoal relativas à estas considerações, a saber, se Império dos Sonhos é a obra-prima, o melhor filme de David Lynch, o mais complexo, difícil e intrincado roteiro seu: minha resposta é "não". Embora seja um bom filme, com a marca lynchiana impregnada em sua narrativa e na atmosfera carregada e sombria de seus personagens, ele é bom quando comparado com si mesmo. Contudo, na relação com Cidade dos Sonhos, a qual é a que melhor cabe aqui, hajam vistas as semelhanças entre as histórias (atriz que quer fazer sucesso em Hollywood, a crítica ácida à indústria do cinema, personagens habitando mundos paralelos, onde realidade e sonho misturam-se, indistinção entre a fantasia e o real - num interstício de existências que por vezes remete-nos ao universo do realismo fantástico de Jorge Luis Borges, etc...), Império... é um filme inferior, e em todos os sentidos. Pois a narrativa não aparece tão complexa e instigante para seduzir o espectador quanto a troca de identidades e personalidades das atrizes interpretadas por Naomi Watts (Betty) e Laura Harring (Rita), que inúmeras vezes nos confundem com seu jogo cênico.

Talvez a melhor maneira de se "entender" o aspecto dessa "confusão de personagens" tipicamente lynchiana seja apelando para a idéia de "estados de coisas" afirmada por Wittgenstein no seu Tractatus Logico-Philosophicus, em que existem inúmeras possibilidades de ser dentro do espaço lógico dentre os diversos mundos possíveis, existentes e não existentes, incluindo este, o nosso...). Em Império..., Laura Dern, naquele que seria o seu papel mais complexo até então, segundo o próprio David Lynch vaticinara a ela antes das filmagens, interpreta duas personagens centrais que, a exemplo de Betty e Rita em Mulholland Drive, transitam em mundos distintos, universos de percepção que intercambiam sonho e vigília. Nikki/Susan são atriz/personagem, no mesmo recurso de Lynch em Cidade dos Sonhos. Contudo, esta transição constante em Inland Empire de Nikki e Susan é deveras evanescente, e emperram dentro do contexto da história: as andanças de Laura Dern para lá e para cá pelos espaços e tempos por vezes aborrecem o espectador nas praticamente três horas de duração do filme - excessivamente longa, há cenas extensas e desnecessárias nesta duração, o que acaba comprometendo um pouco o resultado final - , e não dizem muito a que vieram, ao fim e ao cabo (bem, isso realmente não importa num filme de David Lynch, senão o tempo roubado). A atmosfera onírica das viagens de Betty e Laura causam no espectador muito mais arrebatamento e estupefação do que as de Nikki e Susan, uma pela construção destas personagens dentro do roteiro (que, embora complexo e "ilógico", era sim um roteiro; Império dos Sonhos foi filmado em boa parte no improviso, praticamente sem roteiro prévio, e esta experimentação de Lynch para tornar o filme mais natural e "viajandão" acabou não tendo lá muito efeito na prática, ao menos aparentemente), e outra pela própria Laura Dern, que embora esteja bem em cena, por vezes parece pouco à vontade e até um pouco travada. Jeremy Irons poderia ter sido mais explorado pelo diretor: é um extraordinário ator, tem pique para personagens de fôlego e intensos, mas pouco aparece e não marca muita presença. Justin Theroux está melhor e mais à vontade do que seu Steven Soderbergh cover e corno em Cidade dos Sonhos.

Além de Império dos Sonhos "roubar" da criatividade e originalidade, até certo ponto, de Mullholand Drive, também faltou a ele o humor negro característico do realizador, presente em passagens marcantes de obras anteriores: Cidade dos Sonhos (o personagem de Justin Theroux e a escolha da atriz para o filme), A Estrada Perdida (as aparições do "Misterious Man" de Robert Blake, com sua cara de palhaço, telefonando para Fred (Bill Pullman) numa festa psicodélica e falando com o mesmo na sua casa, numa das cenas mais antológicas da filmografia do autor; a perseguição de carro de Mr. Eddie (Robert Loggia) ao mau motorista, e a carraspana que passa no mesmo sob o olhar incrédulo de Pete (Balthazar Getty)), a série Twin Peaks (as conversas do agente Cooper (Kyle MacLachlan) com o xerife Harry, e os seus sonhos malucos - bizarros e incompreensíveis -, que ele levava tão a sério para resolver o caso Laura Palmer, etc.). Inland Empire é sombrio demais, muito frio, e carente desse toque de sarcasmo típico de Lynch. A narrativa aqui arrasta-se, ora fazendo referência ao mundo lynchiano em forma de uma ode egocêntrica, ora fugindo por vezes deste: a irregularidade de ritmo e estilo, infelizmente, prevaleceu nesse ponto.

Faltaram igualmente simbolismos e metáforas - não em quantidade, mas que prendessem a atenção de modo mais efetivo, pois vários não se resolvem, ficando a esmo -, e fossem enigmáticos por si mesmos. Incluem-se aí a "auto-homenagem" a Rabbits, do mesmo autor (os humanos com cabeça de coelho, dois deles sentados no sofá, enquanto uma passa roupa ao fundo) com uma claque rindo às suas ações, o que não causa, conceitual nem simbolicamente, o aspecto enigmático pretendido, como já o fizeram o anão na sala vermelha de Twin Peaks, falando as suas charadas em um idioma incompreensível, ou o já referido "Misterious Man" de Lost Highway, ou Rebeca del Rio cantando no Clube Silêncio de Cidade dos Sonhos, bem como o Cowboy da Lâmpada e seus enigmas para o diretor. Em verdade, além da auto-referência citada, essas figuras bizarras de cabeça de coelho lembram mais a criança deformada e monstruosa de Eraserhead, em que o aspecto conceitual e estético prima mais do que a própria significação enigmática de todo o contexto.

Para Lynch, o non-sense é um apoio narrativo em si mesmo, e isto deve fazer referência a faceta de artista plástico que ele possui. Vejamos: quando começou a fazer filmes, rodou alguns curtas bastante experimentais na década de 70, como The Alphabet, A Avó, Seis Figuras Doentes e A Amputada, onde se percebe que este aspecto conceitual é algo estético e de vanguarda dentro da obra lynchiana como um todo, considerando ele não apenas como diretor de cinema, mas como artista de uma maneira geral, ou seja também artista plástico enquanto cineasta, preocupado com a imagem e o impacto da mesma no espectador.

A ausência de Ângelo Badalamenti na trilha sonora de Inland Empire comprometeu: o parceiro inseparável de Lynch dava, com sua música instrumental intimista e sensível, um aspecto idiossincrático e onírico aos filmes; isto faltou consideravelmente na nova obra. Quanto ao uso da câmera digital, penso que há aspectos positivos e negativos do emprego da mesma, mas na telona do cinema sempre fica melhor, como qualidade de imagem, a película, característica do Cinema ele-mesmo: a granulosidade na imagem captada na forma tradicional ainda faz parte da Sétima Arte, ao menos aos puristas. Precisa-se destacar, entretanto, a destreza de Lynch com a câmera na mão e suas tomadas não-usuais. Quanto ao estilo, ele não mudou: sua habilidade incomum de criar climas de mistérios e enigmas, e deslinearidades em roteiros altamente inteligentes e complexos, oníricos e devaneantes por natureza, non senses em sua essência, continuam intactas e preservadas, dificilmente alguém virá para substituir o grande mestre, mesmo que este nem sempre ande tão inspirado.

David, apesar de Império dos Sonhos ter suas imperfeições, é alguém que faz coisas extraordinárias, várias boas e outras nem tão boas assim, mas que sempre nos faz engrandecer e aumentar o nosso imaginário fantástico. Parafraseando Borges, no caso de David Lynch, "A alegria de (in)compreender é maior que a alegria de ver e de viver". Com o cineasta, tudo é possível, onde mesmo o impossível ganha animação em nosso imaginário infinito e transcendente, que caso fosse de um ser igualmente infinito pelo menos nessa capacidade imaginativa e pensável, seria também atemporal e eterno. Bem, dos seres finitos e limitados em seus atributos, David Lynch é um dos que mais se aproximam deste conceito...como bem poucos outros, como o próprio Jorge Luis Borges, por exemplo. Mas aí já começa outra história, igualmente permeada e entranhada por criaturas fantásticas, devaneios oníricos e delírios non-sense...


IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006)

Direção: David Lynch.

Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux.

COTAÇÃO: ***