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Foi a partir de 1962, com o lançamento de
Luz de Inverno (segunda parte da Trilogia do
Silêncio de Deus), que Ingmar Bergman abandonou a subserviência
às ideias cristãs em seus roteiros – que traziam uma
pesada carga dramática de culpas ético-morais,
e incessante procura por justificativas ou expiação
– e empreendeu, com o lançamento de Persona (1966),
sua revolução formal, estética e ideológica, ou a própria
recusa e transfiguração do cinema que fizera até aquele
momento. Neste filme, o mestre sueco delineou a era
de películas iconoclastas, livres de bloqueios, e mais
existenciais que traria às telas até Saraband
(2003), sua derradeira obra.
Mas eis que a alma inquieta do realizador,
logo após o seu lancinante filme-revolução, já vislumbrava
o conteúdo do próximo trabalho. Antes, ainda em 1966,
Bergman dirigiu o episódio Daniel, para o filme
Stimulantia (1967), e só então, pode mergulhar
no trabalho de um roteiro nunca filmado, mas escrito
antes mesmo do icônico Persona: Os Antropófagos.
A trama desse roteiro só chegou a ser conhecida
por Erland Josephson, amigo e integrante do triunvirato
virtuoso de atores de Bergman, ao lado de Max von
Sydow e Gunnar Björnstrand; e Liv Ullmann, à época,
companheira do diretor, já em avançada gestação.
Com a possibilidade de Ullmann mudar-se
para a Noruega, Bergman reescreveu o roteiro, adaptando-o
às possibilidades da atriz, e foi então que Os Antropófagos
transformou-se no único filme de terror do cineasta,
A Hora do Lobo (1968). Trata-se de uma película
gótica e vampiresca, que dialoga com o mundo dos vivos
e dos mortos, e semeia a perturbação.
Johan Borg é um pintor muito introspectivo,
que vai com a esposa Alma para uma das ilhas Frísias,
passar uma temporada do ano, provavelmente o outono, pelo que
podemos subtender das indicações fotográficas. Desde
o início do filme, percebemos que Alma é a personagem
que sempre rompe o silêncio, enquanto Johan sublima
desejos e expressa traumas e sentimentos através de
sua pintura, falando o essencial, e muito raramente.
Como se não bastasse a
convivência cada vez mais opressiva entre o casal, alguns
habitantes muito estranhos da ilha entram em cena para
deixar a atmosfera ainda mais tensa e densa. Sabemos
que Johan tem um contato mais assíduo com a “fauna humana”
do arquipélago, e isso nos é informado em um diálogo
que ele tem com a esposa, enquanto lhe mostra os esboços
que fez dos homens-aranha, do perigoso homem-pássaro,
da velha que não pode tirar o chapéu senão o seu rosto
cai, dos insetos, dos antropófagos, etc., todos “eles”, habitantes
da ilha.
A aparição desses habitantes, no entanto,
não é fora de propósito: “eles” surgem para causar a
discórdia e a inquietação dos protagonistas, como se
dominassem um segredo perturbador, e dessa posse, surgisse
um poder de sugestão invencível, capaz de arrastar Johan
e Alma para um mundo onde o ambiente onírico e o estado
de vigília, o consciente e o inconsciente, se entrelaçam.
Deus, ou qualquer outra indicação do divino,
sequer são aludidos durante os 90 minutos do filme.
A fim de apagar ainda mais as fronteiras
entre realidade e sonho, Bergman inseriu algumas divisões
técnicas que tem por objetivo alterar constantemente
nossa opinião sobre o filme. A primeira dessas ocasiões
é a seguinte abertura em intertítulos:
O artista Johan Borg desapareceu a alguns anos sem deixar vestígios, de sua casa na ilha de
Baltrum, uma das ilhas Frísias. Sua esposa Alma depois
me deu o diário de Johan que ela encontrara entre os
papéis dele. Esse diário e o relato de Alma são a base deste filme.
Mas em off, segundos depois, ouvimos
a gravação de uma equipe técnica trabalhando na construção
do cenário. Ouvimos a voz de Bergman dando ordens e
falando aos membros da equipe, até pedir silêncio para
começar a gravar. Então, um fade in nos apresenta
a casa dos Borg em um belo plano geral, uma mesa com
uma pequena cesta de frutas nos planos iniciais e Liv
Ullmann vindo ao encontro da câmera, e falando diretamente
para ela, como um depoimento de documentário. Há então
um flashback, representação do depoimento, que
será o corpo da obra.
Aos 46 minutos de projeção (de uma película
que possui 90 minutos), o título VARGTIMMEN reaparece,
como se marcasse o início de um “novo filme” depois
daquele já houvéramos visto. E de fato, esse segundo
momento separado pelo título, trará o medo (externo
e interno) causado pela “hora do lobo”, momento
da madrugada em que as crianças nascem, a maioria das
pessoas morrem, os pesadelos acontecem, e quem
está acordado, teme o mais ínfimo ruído.
Além das mudanças de narrativa ao longo
da fita, é curioso observarmos que os seus trinta primeiros
minutos são editados como uma espécie de diário, ou
seja, nenhuma sequência se completa, e todas são intercaladas
por um fade. Esse ritmo pausado, reticente, que
se arrasta na primeira meia hora do filme, muito sutilmente
se arrefece, e as fusões de imagem ou o simples corte,
evidenciam-se no decorrer das cenas seguintes.
Assim como em outros dois filmes perturbadores
do diretor, O Rosto (1958) e O Rito (1970), temos artistas como protagonistas principais deparando-se
com um imenso obstáculo que aparentemente não podem
transpor. O dueto de filmes citados representam a corrida das personagens
para libertarem-se de um sufoco interno e a uma coação
externa ao homem-personagem que são. Mas em
A Hora do Lobo, esse
homem-personagem está completamente subjugado pelas
“regras” dos demoníacos habitantes da ilha, que ao fim
de tudo, arrastam Johan para ser humilhado na frente
de todos eles, seguindo-se a sequência da tortura e
da vingança, na floresta, onde a aparente humanidade
da “fauna humana” do arquipélago se revela uma farsa.
Em A Hora do Lobo, temas recorrentes
na obra do mestre sueco compõem a atmosfera da ilha.
O primeiro deles está ligado à localização geográfica
do espaço cênico macro escolhido: a água. Sugestão de
uma infinidade de possíveis, a água que cerca as personagens
tem uma função opressora, algo mais evidente na penúltima
sequência do filme, em uma floresta pantanosa. O segundo
tema é a criança, aqui, uma possível representação do
pai de Johan – o homenzinho no armário, conforme história
do próprio artista –, ou apenas a figuração de seu medo
mais íntimo, o medo de ser mordido. O terceiro tema,
é a representação teatral, que acontece no castelo do
Barão von Merkens, ao som de
uma sombria ária. Sobre essa representação, penso ser
a própria ironia da realidade: Johan e Alma são como
as duas personagens em cena no pequeno palco de marionetes,
movidos com macabra maestria pelo demoníaco mestre de cerimônias.
O que muito intriga o espectador, são as
várias possibilidades de interpretação para o terror
bergmaniano. A ilha poderia ser o inconsciente com suas
muitas neuroses, repressões e traumas, ou apenas um
lugar geograficamente perfeito para um terror psicológico
do nível de A Hora do Lobo.
Sven Nykvist acompanha as reticências da
edição em sua fotografia, que aqui, prima pelo extremo
contraste e por iluminações em primeiro plano, deixando
os espaços mais afastados na penumbra ou na completa
escuridão. O uso de velas e de meia-luz no rosto dos
protagonistas, ao lado de ângulos simples e planos descritivos,
tornam simples esta película angustiante, mas a sombria
simplicidade, intensificada pela música arrepiante,
faz do todo, um inferno disfarçado em ilha.
Os atores de A Hora do Lobo são visivelmente
vindos do teatro, e carregam uma dramacidade quase cínica,
o que realça a personalidade maligna de cada um. O destaque
vai para o casal protagonista magnificamente interpretado
por Liv Ullmann e Max von Sydow, duas lendas vivas do cinema sueco (Ullmann, hoje,
é cineasta, sendo o seu belíssimo Infiel (2000),
com roteiro de Ingmar Bergman, uma das melhores produções
suecas da década; e Sydow continua atuando, sendo alguns
de seus últimos trabalhos em O Escafandro
e a Borboleta (2007), episódios da série The
Tudors (2009), Ilha do Medo (2010) e Robin
Hood, 2010).
A Hora do Lobo é um olhar perturbador para o abismo, seja ele do próprio
homem, ou da maldade que o cerca. Difícil encontrarmos
um filme que tenha tantas alusões ao mundo e aos medos
pessoais exteriorizados, e ao mesmo tempo, deixe o espectador
embasbacado e com a pele arrepiada pelo medonho e pela
desesperança deixada pelo desfecho. Ao olharmos com
atenção para o filme, não sabemos se nos vemos refletidos,
ou julgamos racionalmente o que acreditamos ver.
Nietzsche disse, em seu Além
do bem e do mal: “quem enfrenta monstros deve
ficar atento para não se tornar também um monstro. Se
olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo
também olhará para dentro de ti”. Essa é a tese
sustentada por Bergman. O resto, é
o terror de não podermos ter certeza de que tudo o que
vimos foi pura ficção, pois, em algum momento de nossas
vidas, os relógios já marcaram a hora do lobo, e o mundo
que se nos apresentou não estava lá tão distante da
ilha que acabamos de conhecer.
A HORA DO LOBO (Vargtimmen, Suécia, 1968)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco
principal: Max von Sydow, Liv Ullmann, Ulf Johansson, Naima Wifstrand, Erland Josephson,
Gertrud Fridh, Bertil Anderberg, Gudrun Brost, Ingrid
Thulin.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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