DIFÍCIL DE EXPLICAR, FALA SÉRIO
Alexandre Mesquita
 
 
O assunto é válido porque tem muita gente na fila. Só da Marvel, vem aí Capitão América, Thor - o Deus do Trovão, Princípe Namor.

Fazer com seriedade uma mistura de realidade com fantasia e atingir o equilíbrio coerente para conseguir ser levado a sério, mesmo que não seja sério. Eu sei, é confuso, é difícil de explicar, um dilema. O dilema dos filmes de super-heróis de hoje. Hulk de Ang Lee quis se fazer profundo, buscou discutir paternidade e limites da pesquisa científica. Acabou sendo prejudicado pela história complicada e pelo alface anabolizado digital que chamaram de monstro. O Demolidor, além do conhecido cego supensensorial, foi feito cego de amor. Coitado, acabou sexualmente frustrado, nem a roupa colante de couro vermelha ajudou. A sua cria Elektra foi pior ainda, em vez da poderosa ninja assassina do original, começou e terminou como uma Jennifer Garner de canivete. Os X-Men tem pinta de exemplo a ser seguido, mas na minha humilde opinião, houve excesso de comoção com os pobres super-seres discriminados. O Batman de Christopher Nolan, o seu medo e sua culpa, o seu fazer justiça com as próprias mãos, foi mais feliz que os demais, por enquanto, talvez devido a ser o primeiro. Já que o Homem-Aranha veio bem, veio ingênuo, veio engraçado, veio com a morte do tio, e veio quebrando recordes de bilheteria entre os críticos. Com as continuações, virou novela das oito.

São poucos os bons exemplos que deram certo. Entenda-se, agradar ao mesmo tempo fãs e não-fãs.

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008), vejamos. Jovem magnata da indústria armamentista americana, bon vivant e bom de genialidade destrutiva, Tony Stark (Robert Downey Jr.) só quer vender armas, manter a média de uma bela mulher por dia, e gritar aos mortais: morram de inveja!. Um absurdo de ausência de valores. Portanto, mudará ali adiante. Um dia, Stark chega ao Afeganistão para demonstrar seu mais poderoso míssil. Depois de explodir algumas cadeias de montanhas, é preso por terroristas numa emboscada. Passa por uma cirurgia para a instalação de uma bobina sobre seu coração para que materiais ferrosos lançados em seu sangue não atinjam o órgão vital. Os terroristas ordenam que construa um míssil igual para eles, fornecendo um laboratório improvisado, um ajudante e lhe dão poucos dias. Com a lábia de quem está acostumado a vender metralhadoras de porta em porta, Stark faz o ajudante virar a casaca e o ajudar, sob as barbas dos terroristas, a construir uma armadura de ferro que lhe permitirá sair dali derrubando portas pesadas, lançando fogo, agüentando no peito tiros de bazuca e, acreditem, voando.

É isso, mesmo. Em clima de perder o amigo, mas não perder a piada, surge o Homem de Ferro.

Stark volta aos EUA e faz duas coisas: a) muda de, e passa a aprimorar, sua armadura, enchendo-a de armas para lutar por um mundo melhor, livre de armas; b) esnoba o sistema de saúde americano, preferindo ficar dependente da bobina de ferro-velho afegão do que operar e virar um ser humano normal.

Depois dessas "coerências", fica evidente qual linha o diretor (o sempre ator coadjuvante Jon Favreau), produtores (Kevin Feige e Avi Arad ), roteiristas (Art Marcum, Mark Ferguns, Hawk Otsby e Matt Holloway) escolheram para trabalhar sério e dar dignidade ao seu Homem de Ferro.

E acho que mais conseguiram do que não.

Robert Downey Jr. é bom ator e carismático, por isso ele tem a toda hora segundas chances desde que inaugurou sua fábrica de mancadas na vida. Gwyneth Paltrow como a secretária leal Pepper Potts está querida. Mas, gozado, se os dois atores convencem individualmente, basta juntá-os e temos dois cubos de gelo se beijando só para fins reprodutivos. O apenas reconhecível pelo meio do caminho, Jeff Bridges, se fez interessante no jogo: primeiro acreditem que sou realmente Jeff Bridges e depois descubram o que pretendo sorrindo o tempo todo.

Quando fui para o cinema, eu estava temeroso do que ia encontrar. Me passavam na cabeça bobagens tipo, vai parecer falso demais, pois todas as armaduras de ferro terminam em Robocop. Os caras da computação gráfica - Phil Saunders e Avi Granov - me derrubaram nessa. Saí do filme achando super importante terem feito uma armadura crível, isso me fez feliz.

Sim, eu sei. O porquê de gostar de alguma coisa às vezes é difícil de explicar.

Homem de Ferro não irá fazer pensar sobre as armas no mundo, não irá de encontro às lágrimas da platéia, muito menos entrará na lista dos dez mais românticos. Porém, rir talvez ele o faça, e não só de momentos engraçados - mas também do seu lado mais levado a sério, o absurdo.



HOMEM DE FERRO (Iron Man, EUA, 2008)

Direção: Jon Favreau.

Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Jeff Bridges, Terrence Howard.

Cotação: ***