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Um documentário tem a capacidade de buscar uma situação
específica dentro de uma realidade contextual. Ou, mais
ainda, trazer o que se encontra nas 'entrelinhas' de
dada situação. A relação cinema-história é inevitável,
pois, é feito um recorte temático, e acima de tudo se
busca uma reflexão e determinadas relações, fatos ocorridos;
além do mais, o papel do documentário é o de refletir.
Podemos citar milhares de exemplos, começando por nosso
Brasil, onde temos documentaristas do porte de João
Moreira Salles, Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, entre inúmeros
outros.
Ao contrário de sensacionalismos baratos, muito em voga
também hoje em dia em documentários, o documentário
de Emmanuel Laurent, escrito por nada mais, nada menos,
do que o eminente historiador do cinema e biógrafo de
Truffaut, Antoine Baecque, Godard, Truffaut e a Nouvelle
Vague (Les Deux de la Vague, 2009) carrega
uma particularidade eu diria que uma raison d'être
ao ter a capacidade de explorar a gênese de um movimento
do porte que foi e pela importância que o mesmo tem
para a História do Cinema. Mas, Emmanuel Laurent não
faz somente isso: sua busca é a de dissecar a relação
entre as suas duas maiores estrelas, o grande artista
e revisor do cinema clássico americano François
Truffaut, e o polêmico diretor Jean-Luc
Godard.
A começar, o documentário faz um passeio pelas relações
entre os dois, suas origens diferenciadas, seus gostos,
suas influências, e claro, o que os unia. O documentário
tem ares de cinefilia em estado bruto; mostra como o
cinema tinha (e eu diria que ainda tem), papel essencial
na França, o cinema como forma de combate. Explora as
origens da Nouvelle Vague como movimento revisor do
cinema até então de caráter local, que mais tarde ganharia
status mundial. Algo muito prazeroso de ver são as cenas
de um tímido Godard conversando, entrevistando um tranquilo
e jocoso Fritz Lang.
Vemos também uma verdadeira aula de História, vemos
as câmeras não só combatendo o cinema 'enfadonho' que
Truffaut criticava como ninguém na Cahiers du Cinéma,
como também vemos cenas polêmicas do Maio de 1968, onde
os diretores saem às ruas contra a deposição do Henry
Langlois do cargo de Diretor da Cinemateca Francesa
(dentre esses diretores vemos até Nicholas Ray),
o polêmico cancelamento do Festival de Cannes do mesmo
ano (no que Carlos Saura juntamente com
Andrzej Wajda pularam no palco e impediram
a abertura das cortinas onde ocorreria a primeira exibição),
e também a mudança de rumos dos dois. Observamos um
Truffaut claramente compromissado com um estilo cinematográfico
mais puxado para o clássico, porém poético, e um Godard
mais engajado politicamente, demarcado e fechado em
suas fronteiras ideológicas, caminhando para o que seria
o Grupo Dziga Vertov junto com Jean-Pierre Gorin. O
que restou disso, fora apenas os filmes e o 'filho'
do movimento, o ator Jean-Pierre Léaud, que era disputado
por ambos.
O documentário tem grande importância por fazer muito
bem um resgate histórico cultural do movimento, de mostrar
os altos e baixos de ambos os diretores e, ainda por
cima, desmistificar as personalidades mostrando suas
fraquezas e anseios. Ao mesmo tempo em que vemos um
desfile de imagens nostálgico, de recortes de jornais,
em tempos que o cinema estava além do simples, do previsível.
Como diria Godard "o melhor filme de ficção é o
que parece um documentário e o melhor documentário é
o que parece uma ficção".O documentário de Emmanuel
Laurent consegue nos transmitir essa magia que o cinema
tem por si só, transitando pelos dois gêneros tranquilamente
e com uma beleza única.
GODARD, TRUFFAUT E A NOUVELLE VAGUE (Les Deux
de la Vague, França, 2009)
Direção: Emmanuel Laurent.
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