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MEDO
E PARANÓIA
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Ricardo
Rangel
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M. Night Shyamalan realmente gosta de explorar a psiquê
humana e temas que orbitem as facetas mais obscuras e
intrigantes do ser humano. Em seu novo filme, "Fim
dos Tempos" ("The Happening"), o já conhecido
e pseudo-cultuado diretor indiano, que impregnou Hollywood
com seu estilo um tanto estranho de que se caracterizam
seus filmes, retoma questões já abordadas por ele anteriormente,
especialmente em "Sinais" e "A Vila" - este
último sua obra maior, ou ao menos, a sua mais interessante
-, como o medo e a paranóia, por exemplo.
Em "Sinais", um ex-pastor traumatizado pela perda
da esposa e um jogador de beisebol fracassado vivem confinados
em uma casa escura diante de uma presença indesejada de
ETs, que podem ser interpretados como a "personificação"
dos seus medos, angústias e frustrações (os tais "sinais"
do título, alusão aos misteriosos círculos das plantações
e campos ingleses encorpam esta metáfora aqui, numa interpretação
psicológica do filme). Já em "A Vila", o medo é
correspondido pela mentira e pela falsidade: a crença
numa ilusão e a paranóia em cima de algo nunca visto e
menos ainda conhecido, num passeio curioso pelos labirintos
e porões das obscuridades da mente humana.
No presente "Fim dos Tempos", Shyamalan volta a
lidar com estes temas, e desta vez procura ampliar seu
universo e seu domínio de discurso, passando da família
traumatizada de "Sinais" e da comunidade isolada
e desconfiada de "A Vila", para as grandes metrópoles,
as cidades interioranas estadunidenses e os pequenos grupos
de pessoas: o medo e a paranóia adquirem uma escala maior
em termos dos envolvidos no fenômeno em questão, uma estranha
epidemia supostamente causada pela liberação de toxinas
de plantas que fazem com que as pessoas enlouqueçam e
acabem por darem à cabo suas próprias existências, em
rituais constantes e sucedâneos de prática de morte voluntária.
Shyamalan, num primeiro momento, em escala global, aborda
o temor geral invocando traumas pós 11 de setembro, que
deixaram a sociedade ianque com as feridas abertas - a
suposta epidemia teria sido originada por terroristas.
Descartada esta hipótese, que em momento algum é refutada
inteiramente, apesar de ser inverossímil sob certos aspectos
(entanto, ataques biológicos em massa não estão descartados
hoje em dia...), outra explicação à la teoria da conspiração
é levantada: seria fruto de um projeto secreto da CIA
em detrimento de um possível ataque nuclear contra os
"donos do mundo", que deixou vazar tal toxina em um acidente,
e estaria afetando a todos da região. Detalhe: a tal substância
tóxica teria se espalhado apenas na costa leste norte-americana...
seria uma coincidência a mais, ou algo "plantado", com
o perdão do trocadilho, por Night? Bem, esta segunda hipótese
também não é descartada de todo; a origem de tal mal fica
sempre "no ar" (literalmente...), o que parece ser, ao
mesmo tempo, uma incursão de Shyamalan por este terreno
da crítica à própria sociedade e sistema americanos, mas
não apenas isto. Há o lado do enigma em si, do mistério
desse mal que acossou e assolou essas regiões e as vítimas
em pouco mais de 24 horas, mantendo-os isolados, perdidos
e confusos nesse manancial atemorizante-paranóico todo
com curiosos momentos de tensão psicológica. O diretor
é especialista em criar estes climas, e isto ele faz e
conduz razoavelmente em toda a trama. A terceira hipótese,
a do fenômeno ter uma causa natural desconhecida, obscura,
resultado de uma crise ambiental sem precedentes (outra
crítica sócio- ecológico-político-econômica de Shyamalan),
também não é descartada, aliás é a mais verossímil e a
que se constroem as particulares relações e as subjetividades
a que o filme se propõe.
O professor secundário de Ciências Elliot Moore (Mark
Wahlberg) e sua esposa Alma (a bela exótica de olhos azuis,
cujo exotismo também está no nome, Zooey Deschanel) são
os protagonistas e testemunhas especiais dos acontecimentos
incomuns, juntamente com a filha pequena de Julian, colega
docente de matemática de Elliot (John Leguizamo): pelos
olhos destes, suicídios coletivos e situações surreais
vão ocorrendo em cascata, num dia que era para ser mais
um no cotidiano dos mesmos, ao pegarem um trem para irem
visitar a ex-esposa de Julian. Sob a perspectiva destes
três personagens, outras nuances vão sendo abordadas por
Shyamalan, como os sentimentos de culpa, especialmente
de Alma, e de Elliot por ser um homem da ciência e não
conseguir compreender o que está acontecendo e fazer algo
para mudar tudo aquilo. No fim de tudo ("dos tempos" mesmo??
Talvez até nisso haja um simbolismo todo especial...),
há a possibilidade eminente do amor e da suposta salvação,
quem sabe, numa espécie de "escolha" divina e/ou natural/supranatural
de quem poderia e mereceria tal "salvação". Talvez aqui,
Night pudesse ter dado um desenvolvimento mais encorpado
à sua intrigante história, bem como ainda sugerir possíveis
concepções alternativas tanto para a(s) causa(s) quanto
para o(s) efeito(s) da "epidemia" em sua - mais uma vez
- fábula sobre a condição humana e os relacionamentos
pessoais, tanto de cada um com si mesmo (talvez o mais
complicado de todos) quanto com os outros, cada um convivendo
com suas loucuras e sanidades - e com as dos demais também.
Mas isto não tira o mérito de reflexão mais profunda e
tocante do seu imaginário, presente neste longa-metragem:
em tempos em que tanto se fala nisso, não custa nada parar
e pensar consigo mesmo sobre o apocalipse, e a possibilidade
de nova gênese e redenção. Talvez seja isto, dentre outras
coisas, o que Night Shyamalan tenha pretendido minimamente
no seu exercício psico-ecológico-social, e com isso tornar
as pessoas um pouco melhores, quem sabe...
FIM DOS TEMPOS (The Happening, 2008)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo.
COTAÇÃO: *** |
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