MEL AMARGO
Adriano de Oliveira
 
 
A cena de abertura de "O Fim da Escuridão" traz de imediato o tom soturno do filme: observe o que emerge do lago banhado pela luz lunar. Não há tempo de sobra para calmaria, pois logo se dará o estopim para uma onda de violência que se desencadeia ao longo da projeção - o assassinato brutal da estagiária de engenharia nuclear Emma (Bojana Novakovic) diante dos olhos de seu pai, o detetive Tom Craven (Mel Gibson), sob circunstâncias misteriosas. Um pouco antes e um tanto depois desse episódio-chave, o diretor Martin Campbell - o qual dirigiu em 1985 a série de TV que deu origem a este filme - carrega no sentimentalismo ao mostrar a relação pai-filha, a dor da perda, alguns simbolismos e também uma ligação espiritual que se confunde com um delírio psíquico. E todo o resto a partir de tal é um misto de suspense com ação que, se peca ao entregar alguns pontos decisivos com alguma pressa, por outro lado ganha a atenção do espectador por seus polidos diálogos que jamais se tornam maçada ou soam supérfluos, pela ação eficiente e pelo natural carisma de seu protagonista - um Mel Gibson afastado da atuação há oito anos e que reedita em parte a ironia de seu papel em "O Troco", acrescentando ao seu personagem a determinação audaz daquele de Liam Neeson em "Busca Implacável".

Aliás, a semelhança de "O Fim da Escuridão" com o filme dirigido por Pierre Morel em 2008 se torna evidente à medida que o running time avança. Em ambos temos a figura do pai justiceiro e à procura da verdade. Déjà-vu? Sim, mas sem galho. Todo filme de investigação que acaba em vendetta é esquemático, ninguém nega isso, porém é o tom no desenrolar da história que faz a diferença entre os congêneres. Diversamente da correria de "Busca Implacável", a obra de Campbell adota um ritmo mais lento, alternando passagens dialogais mais extensas com cenas de ação pontuais, porém muito bem feitas.

Gibson passa a credibilidade ao seu papel, constituindo o grande catalisador do filme com suas amargura e obstinação. Não está sozinho na empreitada, pois o excelente coadjuvante que é Ray Winstone rouba todas as cenas em que aparece. Danny Huston é um vilão adequado, mas menos ameaçador que se exigiria. E a imensa nota negativa vai para Jay O. Sanders, que, na tentativa de desempenhar um policial solidário a Craven, está muito desconfortável, lembrando um comediante mal-contido e deslocado em cena. Ele parece, pela própria semelhança física, um Will Ferrell mais envelhecido caído de paraquedas no set de filmagens.

Um ponto forte de "O Fim da Escuridão" está na parte técnica que colabora muito para estabelecer a atmosfera sombria do filme: a trilha de Howard Shore, a fotografia de Phil Mehieux, bem como a direção de Arte e o desenho de produção estão sobremaneira adequados.

Não se sabe qual a influência de Gibson sobre o trabalho do diretor Campbell (que aqui apresenta na tela um grau de violência explícita inédito ao longo de sua extensa carreira), mas as menções ao sacramento da extrema-unção e uma metáfora sobre a crucificação que surgem na história parecem tiradas do bolso do australiano, assim como a inusitada - e bela - cena final.



O FIM DA ESCURIDÃO (Edge of Darkness, EUA, 2010)

Direção: Martin Campbell.

Elenco: Mel Gibson, Ray Winstone, Bojana Novakovic, Danny Huston, Jay O.Sanders, Denis O'Hare.

Cotação: ****