UM BRINDE À EMBRIAGUEZ!!
Ricardo Rangel
 
 

"Hollywood", de Charles Bukowski, seguiu o caminho da contramão em relação a livros que inspiraram roteiros para filmes no cinema: ao invés de ser uma fonte de inspiração para "Barfly - Condenados pelo Vício", de Barbet Schroeder, o livro foi escrito por Bukowski depois do mesmo e de Schroeder terem escrito o roteiro do filme, que conta as peripécias de Henry (Hank) Chinaski, o alter ego do escritor, um personagem bêbado, vagabundo e mulherengo, aspirante a escritor que vive de pequenos bicos com o intuito de sustentar seus vícios e prazeres, a saber, bebida, mulheres e jogo (apostas em cavalos).

Mickey Rourke interpretou, e muito bem, diga-se de passagem, Chinaski em "Barfly", junto com uma Faye Dunaway igualmente excelente em cena, onde bebedeiras do casal que vive na marginalidade, e brigas em bares e no pardieiro em que vivem, são uma constante. Mas há uma outra versão da vida de Chinaski que foi levada às telas pelo cineasta norueguês Bent Hamer: bastante recente, de 2005, chamada "Factotum" (que por aqui recebeu ainda a alcunha "Factotum - Sem Destino", com tal subtítulo), com Matt Dillon vivendo Chinaski, e Lily Taylor sua namorada Jan. E esta versão, baseada em livro homônimo de Bukowski publicado em 1975, aliado a trechos de outras obras suas, nada deixa a desejar na comparação inevitável com "Barfly": Matt Dillon está impagável e muitíssimo à vontade como Hank Chinaski, nada devendo à Mickey Rourke, e o roteiro desta curiosa e engraçadíssima produção é tão bom quanto o de Barbet Schroeder em "Barfly".

Chinaski é o típico malandro embusteiro, característica marcante dos personagens dos livros de Bukowski: pula de emprego em emprego. Atividades tão em "comum" como "trabalhar" em uma fábrica de consertos de bicicleta - onde seu maior interesse é um colega seu igualmente pinguço e apostador de cavalos -, quanto ter a pretensão de ser repórter de um jornaleco de segunda, sendo admitido como faxineiro no mesmo, e ficando lá apenas um dia, pois é demitido ao ser pego tomando um drinque no bar em pleno horário de serviço! Além disso, sempre alterna seus bicos com bebedeiras homéricas, noites escrevendo seus contos alfarrábicos na escrivaninha velha e surrada, mais sexo e porres também com Jan (Lilly Taylor, daquela porcaria chamada "A Casa Amaldiçoada", com um Liam Nesson patético como um "psicólogo do sono"), assim como acha espaço para as apostas e as aventuras sexuais com outras pinguças de plantão - Marisa Tomei (e esse "tomei" é tomar todas, literalmente, numa mesa de bar!), em participação especial, faz uma delas.

Os bicos são a maneira "nobre" de Chinaski sustentar seus vícios, pulando de emprego em emprego, sem pretensão alguma neles. O sonho de ser um escritor da marginalidade e de vanguarda fascina Hank e Jan, que admira e quer manter o modo de vida miserável, underground e beberrão do casal, dando um certo "glamour" a tudo nesta hilária e simplória história. Glamour, aliás, que não é novidade em filmes deste gênero, em que a figura central do escritor/poeta/artista bêbado é onipresente: no clássico dos clássicos de "filmes de bebum", "Farrapo Humano" ("The Lost Weekend", de Billy Wilder), o personagem de Ray Milland é um alcóolatra incorrigível, que também sonha em ser escritor e passa um fim de semana inteiro bebendo na casa do seu irmão que vai viajar, apaixonando-se por uma mulher que fará de tudo para ele abandonar a bebida. Diferentemente de "Barfly" e "Factotum", em que a companheira é parceira de copo para todas as horas, em "Farrapo Humano" ela quer livrar seu amado do vício, e uma característica essencial há em comum no clássico de Billy Wilder com os filmes de Schroeder e Hamer, sendo que em "Farrapo..." esse pseudo-glamour é bastante evidenciado: os personagens principais são bêbados não por que são frustrados, ou tiveram decepções ou desilusões na vida - eles bebem simplesmente por que escolheram beber, é um modo de vida, há uma espécie de ode ao álcool, um tributo etílico dos mais comoventes - embora politicamente incorreto, dos pontos de vista sanitário e moral - e com forte identidade ideológica. Vide também "Despedida em Las Vegas", de Mike Figgis, em que um Nicolas Cage é um escritor constantemente "de fogo", na "manguaça" o temo todo, e que quer beber até morrer, vindo a conhecer uma prostituta (a bela e sensual Elisabeth Shue) que pretende "salvá-lo" do vício do álcool; aqui, de novo a figura da mulher que pretende ser redentora na recuperação do seu homem que a divide com o copo (cheio, é claro!!).

Já no nosso clássico nacional da embriaguez, "O Ébrio", Vicente Celestino faz um rapaz humilde vindo do interior que se apresenta em um show de calouros, ganha o prêmio, forma-se médico, casa-se com a enfermeira, e é traído pela mesma e pelo primo interesseiro, que o roubam, deixando-o na miséria. Ele começa a beber, aqui sim, por desilusão, mas nem por isso sua trágica e desafortunada história deixa de ser comovente, em vista da uma pretensa redenção que o seu personagem, Gilberto Silva, sofrerá no final. Também é bom citar nessa gama toda de cinematografia etílica "Crônica de um Amor Louco", também adaptado do livro de Bukowski, com Ben Gazarra e Ornella Mutti nos papéis principais.

Enfim, eles todos são filmes profundos e tocantes, que exacerbam um modo de ser e de viver, mas não dizem necessariamente ao espectador: "Largue tudo e vá encher a cara sempre!"; talvez eles queiram falar - ou tenham a pretensão de dizer - que a verdadeira "embriaguez" é manter-se sóbrio, o tempo todo, neste nosso mundo louco e insano. Um brinde à sagrada embriaguez da filmografia etílico-alcóolica!

FACTOTUM - SEM DESTINO (Factotum, 2006)

Direção: Bent Hamer.

Elenco: Matt Dillon, Lilly Taylor, Marisa Tomei.

COTAÇÃO: *****