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"Hollywood", de Charles Bukowski, seguiu o caminho
da contramão em relação a livros que inspiraram roteiros
para filmes no cinema: ao invés de ser uma fonte de
inspiração para "Barfly - Condenados pelo Vício",
de Barbet Schroeder, o livro foi escrito por Bukowski
depois do mesmo e de Schroeder terem escrito o roteiro
do filme, que conta as peripécias de Henry (Hank) Chinaski,
o alter ego do escritor, um personagem bêbado,
vagabundo e mulherengo, aspirante a escritor que vive
de pequenos bicos com o intuito de sustentar seus vícios
e prazeres, a saber, bebida, mulheres e jogo (apostas
em cavalos).
Mickey Rourke interpretou, e muito bem, diga-se de passagem,
Chinaski em "Barfly", junto com uma Faye Dunaway
igualmente excelente em cena, onde bebedeiras do casal
que vive na marginalidade, e brigas em bares e no pardieiro
em que vivem, são uma constante. Mas há uma outra versão
da vida de Chinaski que foi levada às telas pelo cineasta
norueguês Bent Hamer: bastante recente, de 2005, chamada
"Factotum" (que por aqui recebeu ainda a alcunha
"Factotum - Sem Destino", com tal subtítulo),
com Matt Dillon vivendo Chinaski, e Lily Taylor sua
namorada Jan. E esta versão, baseada em livro homônimo
de Bukowski publicado em 1975, aliado a trechos de outras
obras suas, nada deixa a desejar na comparação inevitável
com "Barfly": Matt Dillon está impagável e muitíssimo
à vontade como Hank Chinaski, nada devendo à Mickey
Rourke, e o roteiro desta curiosa e engraçadíssima produção
é tão bom quanto o de Barbet Schroeder em "Barfly".
Chinaski é o típico malandro embusteiro, característica
marcante dos personagens dos livros de Bukowski: pula
de emprego em emprego. Atividades tão em "comum" como
"trabalhar" em uma fábrica de consertos de bicicleta
- onde seu maior interesse é um colega seu igualmente
pinguço e apostador de cavalos -, quanto ter a pretensão
de ser repórter de um jornaleco de segunda, sendo admitido
como faxineiro no mesmo, e ficando lá apenas um dia,
pois é demitido ao ser pego tomando um drinque no bar
em pleno horário de serviço! Além disso, sempre alterna
seus bicos com bebedeiras homéricas, noites escrevendo
seus contos alfarrábicos na escrivaninha velha e surrada,
mais sexo e porres também com Jan (Lilly Taylor, daquela
porcaria chamada "A Casa Amaldiçoada", com um
Liam Nesson patético como um "psicólogo do sono"), assim
como acha espaço para as apostas e as aventuras sexuais
com outras pinguças de plantão - Marisa Tomei (e esse
"tomei" é tomar todas, literalmente, numa mesa de bar!),
em participação especial, faz uma delas.
Os bicos são a maneira "nobre" de Chinaski sustentar
seus vícios, pulando de emprego em emprego, sem pretensão
alguma neles. O sonho de ser um escritor da marginalidade
e de vanguarda fascina Hank e Jan, que admira e quer
manter o modo de vida miserável, underground e beberrão
do casal, dando um certo "glamour" a tudo nesta
hilária e simplória história. Glamour, aliás,
que não é novidade em filmes deste gênero, em que a
figura central do escritor/poeta/artista bêbado é onipresente:
no clássico dos clássicos de "filmes de bebum", "Farrapo
Humano" ("The Lost Weekend", de Billy Wilder),
o personagem de Ray Milland é um alcóolatra incorrigível,
que também sonha em ser escritor e passa um fim de semana
inteiro bebendo na casa do seu irmão que vai viajar,
apaixonando-se por uma mulher que fará de tudo para
ele abandonar a bebida. Diferentemente de "Barfly"
e "Factotum", em que a companheira é parceira
de copo para todas as horas, em "Farrapo Humano"
ela quer livrar seu amado do vício, e uma característica
essencial há em comum no clássico de Billy Wilder com
os filmes de Schroeder e Hamer, sendo que em "Farrapo..."
esse pseudo-glamour é bastante evidenciado: os
personagens principais são bêbados não por que são frustrados,
ou tiveram decepções ou desilusões na vida - eles bebem
simplesmente por que escolheram beber, é um modo de
vida, há uma espécie de ode ao álcool, um tributo etílico
dos mais comoventes - embora politicamente incorreto,
dos pontos de vista sanitário e moral - e com forte
identidade ideológica. Vide também "Despedida em
Las Vegas", de Mike Figgis, em que um Nicolas Cage
é um escritor constantemente "de fogo", na "manguaça"
o temo todo, e que quer beber até morrer, vindo a conhecer
uma prostituta (a bela e sensual Elisabeth Shue) que
pretende "salvá-lo" do vício do álcool; aqui, de novo
a figura da mulher que pretende ser redentora na recuperação
do seu homem que a divide com o copo (cheio, é claro!!).
Já no nosso clássico nacional da embriaguez, "O Ébrio",
Vicente Celestino faz um rapaz humilde vindo do interior
que se apresenta em um show de calouros, ganha o prêmio,
forma-se médico, casa-se com a enfermeira, e é traído
pela mesma e pelo primo interesseiro, que o roubam,
deixando-o na miséria. Ele começa a beber, aqui sim,
por desilusão, mas nem por isso sua trágica e desafortunada
história deixa de ser comovente, em vista da uma pretensa
redenção que o seu personagem, Gilberto Silva, sofrerá
no final. Também é bom citar nessa gama toda de cinematografia
etílica "Crônica de um Amor Louco", também adaptado
do livro de Bukowski, com Ben Gazarra e Ornella Mutti
nos papéis principais.
Enfim, eles todos são filmes profundos e tocantes, que
exacerbam um modo de ser e de viver, mas não dizem necessariamente
ao espectador: "Largue tudo e vá encher a cara sempre!";
talvez eles queiram falar - ou tenham a pretensão de
dizer - que a verdadeira "embriaguez" é manter-se sóbrio,
o tempo todo, neste nosso mundo louco e insano. Um brinde
à sagrada embriaguez da filmografia etílico-alcóolica!
FACTOTUM - SEM DESTINO (Factotum, 2006)
Direção: Bent Hamer.
Elenco: Matt Dillon, Lilly Taylor, Marisa Tomei.
COTAÇÃO: *****
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