"ESTRANHA" VIOLÊNCIA GRATUITA
Ricardo Rangel
 
 
Deveras estranho o filme "Os Estranhos", de Bryan Bertino, com perdão da redundância. Em uma casa isolada, após retornarem de um casamento, um casal (Scott Speedman e a sempre maravilhosa e doce Liv Tyler) é atormentado por pessoas mascaradas que cercam o local. Este filme é sobre uma espécie de "jogo" macabro, com fortes elementos de tensão, explorando o terror psicológico, que se for bem executado, diz a que vem. Afinal é a alternativa que restou para a enxurrada de péssimos filmes "Z" de terror, onde banhos de sangue tornaram-se tão banais quanto tirar a roupa nestes mesmos filmes (a mocinha gostosa aparece poucos minutos, tira a roupa, e vira picadinho... velha fórmula medíocre que muitos jovens assistem comendo pipoca e dando risada, dada a banalidade em que tudo se tornou).

Embora o terror psicológico tenha virado moda ultimamente, e não apenas em Hollywood, já que "REC" - um filme espanhol que é anterior a "Cloverfield" -, por exemplo, investe neste mote, conseguindo ser apenas razoável, e se não fosse precedente no tempo à já citada produção sobre o monstrengo que atormenta Nova Iorque com desesperados fugindo com uma câmera na mão que balança toda hora, poderia se dizer que foi "clonado", em certa medida, deste, dadas as várias semelhanças entre ambos. Não é o caso, mas bem (ou mal...) poderia ter sido, o fato é que as produções recentes não conseguem fazer aquilo a que minimamente o estilo propõe, a saber: meter medo no espectador. "Os Estranhos", apesar dos seus problemas de continuidade e de faltar "algo mais", consegue isso, e o faz com certa destreza até.

Bertino mostra-nos cenas que por vezes pulamos da cadeira de susto, nos arrepiamos e sentimos aquele frio na barriga típicos: ok, em "REC" também tem um pouco disso, mas nesta produção européia que narra uma noite na vida de um grupo de bombeiros de Barcelona, sendo entrevistados e filmados por uma dupla de jornalistas, o roteiro deixa bastante a desejar, inclusive colocando um final quase inverossímil. Mas se "Os Estranhos" dá sustos, não emplaca em outros quesitos: a sensação que fica no final é a de que se trata de um razoável filme de terror psicológico, mas sem explorar o principal, que são os próprios mascarados: quem são, de onde vem, o que pretendem, etc... tudo isso fica em aberto, um vazio na história.

Talvez Bertino tivesse desejado que fosse assim mesmo, explorar apenas a tensão na casa com os intrusos à volta causando pânico psicológico, e dar alguma vazão à violência gratuita da qual somos vítimas hoje em dia; aliás, no título faço alusão a isto por ser a tradução dada por aqui a "Funny Games", chocantíssimo filme do diretor austríaco Michael Haneke que aborda a banalidade da violência ao contar a história de uma família que é atormentada física e psicologicamente por dois jovens vizinhos insanos que invadem sua casa com o pretexto de buscar ovos para a vizinha. O motivo é fútil, a violência é banal e estúpida, tudo é gratuito. "Elefante", de Gus Van Sant, e "Tiros em Columbine", de Michael Moore, por exemplo, também se encaixariam aí, e são ainda mais chocantes caso for se considerar que vieram de casos verídicos. Não me parece que Bertino tenha pretendido fazer uma análise e/ou crítica desta espécie de violência no seu filme que é cenário da mesma. Independentemente disto, poderia ter ido mais além de onde foi, pois fica de fato aquela sensação do "faltou alguma coisa".

Contudo, é bom entretenimento, e como terror psicológico que se preze, cumpre sua função mínima, como dissemos antes: dar sustos e fazer-nos sentir o friozinho na barriga. Só não vá se engasgar com a pipoca, e cuidado para não sonhar com os mascarados...


OS ESTRANHOS (The Strangers, 2008)

Direção: Bryan Bertino.

Elenco: Liv Tyler, Scott Speedman.

Cotação: ***