OS AMORES DE LELOUCH
Adriano de Oliveira
 
 

- Quem você acha que ganhará esta guerra [II Guerra Mundial]?

 - O amor, com certeza.”

 Diálogo extraído de Esses Amores (2010)

 

Claude Lelouch não muda. Está sempre a colocar em giro seu carrossel particular de emoções, a cantar (literalmente) o amor, a desvelar seus painéis, a impor uma particular cromática de ver o mundo sob um filtro enamorado. Alegria para os fãs, munição para os detratores – cinema e emoção não se dissociam nem do lado de cá das câmeras.

 

Em seu novo filme que aporta nos cinemas do Brasil, Esses Amores, o cineasta francês mais antinouvellevaguista de sua geração monta um amplo e longo – a narrativa transpassa décadas - painel de personagens que se cruzam. O tema central? Ora, o amor. O amor de uma mulher que ama desenfreada e libertariamente, que cura a dor de uma paixão dilacerada com outra a substituir aquela. O amor que gera o riso, que cria a tragédia, que é gênesis, motivo e apocalipse de um universo a gravitar em torno dele. Ilva Lemoine (Audrey Dana, pelo visto a nova atriz-fetiche de Lelouch, já em terceira aparição nas obras dele) é essa mulher: enteada de um membro da Resistência francesa na II Grande Guerra (duro período da França de Vichy, “comandada” por Pétain), lanterninha de um cinema, tachada de colaboracionismo para com o inimigo alemão, envolvida emocionalmente com dois soldados americanos, casada com um milionário, acusada de assassinato. Ufa! Duas horas seria pouco para testemunhar esse torvelinho dramático que percorre diversos gêneros; entanto, Lelouch costura sua trama com objetividade e chega a um bom resultado de peculiar modo, abrindo mão de quaisquer medos do over e do obsoleto – afinal, Esses Amores se mostra um filme à moda antiga e com notável senso de espetáculo cinematográfico, no que é ajudado pela fotografia caprichada e de múltiplas paletas conforme a conveniência, bem como por uma montagem esperta, acurada direção de arte e produção vultosa.

 

O longa dialoga em sua dinâmica de modo mais direto com o igualmente lelouchiano Retratos da Vida, porém na verdade ele como um todo representa uma síntese de toda a extensa carreira do diretor, a ponto desse sumário se dar de maneira ainda mais palpável e de forma despudoradamente autorreverente em uma sequência próxima ao final, na qual Lelouch desfila cenas de seus próprios filmes. Aliás, temos aqui a obra mais autobiográfica dele, embebida de indiscutível caráter lírico: é um tributo de afeição do realizador à sua arte e por isso também inundada de metalinguagem.

 

Além de expressar autorreferência, o cineasta despreocupadamente vai empilhando outras alusões de seu gosto particular: se O Anjo Azul, O Pianista, Cinema Paradiso, ...E o Vento Levou, filmes de Carné e de Hitchcock figuram mais evidentes em cena, pululam também outras, menos conscientes, mas que poderíamos divertida e descompromissadamente supor paralelos das mesmas com passagens de Esses Amores, como o desembarque de soldados na Normandia de O Resgate do Soldado Ryan, a retaliação nazista a inocentes civis de Massacre em Roma ou mesmo a desafiadora execução d’A Marselhesa “na cara do inimigo” que evoca Casablanca.

 

Ao final do filme, tudo acaba em música, como é, ou deveria ser, a vida – para o diretor, um imenso musical. Assim como ela oscila entre a dor e a felicidade, também flui aos ciclos, se permitindo rimas, tal como afirma o cineasta no fecho da obra, o qual se passa na contemporaneidade. Os versos do poema da vida, escrito pelo homem, rimado pelo destino, embalado pelo amor: eis o objeto da imagética declamação feita pelo bardo Lelouch.

 

 

ESSES AMORES (Ces Amours-là, França, 2010)

Direção: Claude Lelouch.

Elenco principal: Audrey Dana, Laurent Couson, Raphaël, Gilles Lemaire, Jacky Ido, Samuel Labarthe, Salomé Lelouch, Judith Magre, Anouk Aimée.

Cotação: ****