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“ - Quem você acha que ganhará esta guerra
[II Guerra Mundial]?
- O amor, com certeza.”
Diálogo
extraído de Esses Amores (2010)
Claude Lelouch não muda.
Está sempre a colocar em giro seu carrossel particular
de emoções, a cantar (literalmente) o amor, a desvelar
seus painéis, a impor uma particular cromática de ver
o mundo sob um filtro enamorado. Alegria para os fãs,
munição para os detratores – cinema e emoção não se
dissociam nem do lado de cá das câmeras.
Em seu novo filme que aporta nos cinemas
do Brasil, Esses Amores, o cineasta francês mais antinouvellevaguista
de sua geração monta um amplo e longo – a narrativa
transpassa décadas - painel de personagens que se cruzam.
O tema central? Ora, o amor. O amor de uma mulher que
ama desenfreada e libertariamente, que cura a dor de
uma paixão dilacerada com outra a substituir aquela.
O amor que gera o riso, que cria a tragédia, que é gênesis,
motivo e apocalipse de um universo a gravitar em torno
dele. Ilva Lemoine (Audrey Dana, pelo visto a nova atriz-fetiche
de Lelouch, já em terceira aparição nas obras dele)
é essa mulher: enteada de um membro da Resistência francesa
na II Grande Guerra (duro período da França de Vichy,
“comandada” por Pétain), lanterninha de um cinema, tachada
de colaboracionismo para com o inimigo alemão, envolvida
emocionalmente com dois soldados americanos, casada
com um milionário, acusada de assassinato. Ufa! Duas
horas seria pouco para testemunhar esse torvelinho dramático
que percorre diversos gêneros; entanto,
Lelouch costura sua trama com objetividade e chega a
um bom resultado de peculiar modo, abrindo mão de quaisquer
medos do over
e do obsoleto – afinal, Esses
Amores se mostra um filme à moda antiga e com notável
senso de espetáculo cinematográfico, no que é ajudado
pela fotografia caprichada e de múltiplas paletas conforme
a conveniência, bem como por uma montagem esperta, acurada
direção de arte e produção vultosa.
O longa dialoga
em sua dinâmica de modo mais direto com o igualmente
lelouchiano Retratos da Vida, porém na verdade ele como um todo representa uma
síntese de toda a extensa carreira do diretor, a ponto
desse sumário se dar de maneira ainda mais palpável
e de forma despudoradamente autorreverente em uma sequência
próxima ao final, na qual Lelouch desfila cenas de seus
próprios filmes. Aliás, temos aqui a obra mais autobiográfica
dele, embebida de indiscutível caráter lírico: é um
tributo de afeição do realizador à sua arte e por isso
também inundada de metalinguagem.
Além de expressar autorreferência,
o cineasta despreocupadamente vai empilhando outras
alusões de seu gosto particular: se O Anjo Azul, O Pianista,
Cinema Paradiso, ...E o Vento Levou, filmes de Carné e de Hitchcock
figuram mais evidentes em cena, pululam também outras,
menos conscientes, mas que poderíamos divertida e descompromissadamente
supor paralelos das mesmas com passagens de Esses
Amores, como o desembarque de soldados na Normandia
de O Resgate do
Soldado Ryan, a retaliação nazista a inocentes civis
de Massacre em Roma ou mesmo a desafiadora
execução d’A Marselhesa “na cara do inimigo” que evoca
Casablanca.
Ao final do filme, tudo acaba em música,
como é, ou deveria ser, a vida – para o diretor, um imenso musical. Assim como
ela oscila entre a dor e a felicidade, também flui aos
ciclos, se permitindo rimas, tal como afirma o cineasta
no fecho da obra, o qual se passa na contemporaneidade.
Os versos do poema da vida, escrito pelo homem, rimado
pelo destino, embalado pelo amor: eis o objeto da imagética
declamação feita pelo bardo Lelouch.
ESSES
AMORES (Ces Amours-là, França, 2010)
Direção:
Claude Lelouch.
Elenco principal: Audrey Dana, Laurent Couson, Raphaël, Gilles
Lemaire, Jacky Ido, Samuel Labarthe, Salomé Lelouch,
Judith Magre, Anouk Aimée.
Cotação: ****
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