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"A Espiã", novo filme de Paul Verhoeven, permite
sobre si ao menos duas leituras, bastante diversas entre
si. Pode ser encarado como um (ótimo) thriller
ambientado na II Guerra Mundial, e também revela uma
face mais profunda do ponto de vista analítico, então
surgindo como um pequeno estudo psicológico e social
do ser humano, ao tratar de questões tais a identidade
pessoal e a mudança de comportamento face à necessidade
de sobrevivência durante um período de caos,
como a guerra.
O filme resgata a pouco contada história da Resistência
Holandesa na II Guerra, vista au passant pelo
cinema americano, e em poucas oportunidades. Dois desses
raros exemplos aparecem em "Atraiçoados" (1954),
estrelando Clark Gable e Lana Turner, e a mega-produção
"Uma Ponte Longe Demais" (77), dirigida por Richard
Attenborough, com um elenco estelar (Sean Connery, Michael
Caine, Anthony Hopkins, Robert Redford, Laurence Olivier)
- esta, abordando a fracassada operação Market-Garden
realizada com o intuito de libertar a Holanda, tocava
muito rasamente no tema. Verhoeven já havia dado sua
contribuição ao subgênero com "Soldado de Laranja"
(77), e agora torna à questão, com maior ênfase
inclusive.
A história se passa na Holanda, no período da ocupação
nazista nos Países Baixos. Rachel Stein (Carice van
Houten, de quem falaremos em detalhe a posteriori)
é uma jovem cantora judia que tem a sua família dizimada
a rajadas de metralhadora por uma patrulha fluvial da
SS. Única sobrevivente da tragédia, Rachel se associa
ao movimento neerlandês de resistência ao ocupante.
Ela troca de nome (e também de cor do cabelo) para evitar
a perseguição étnico-religiosa imposta pelo regime de
Hitler, passando a assinar Ellis de Vries, e aceita
executar serviços de espionagem em nome da causa guerrilheira.
Recebe como difícil missão se aproximar de um influente
militar alemão do alto escalão a fim de trazer
informações necessárias a um plano de resgate de prisioneiros
holandeses condenados ao fuzilamento. Só que Rachel/Ellis
perceberá, a duras penas, que não é apenas ela a ostentar
duas identidades: ao longo da trama, agentes duplos,
mudanças de personalidades, emboscadas e traições revelarão
que, em tempos de guerra, ninguém pode ser confiável,
e, do ponto de vista individual, o instinto selvagem
de sobrevivência em meio ao caos é o que fala mais alto
- pilares das idéias que a película "A Espiã"
defende.
Naturalmente, com as tantas reviravoltas que o roteiro
oferece, é servido um filme adrenérgico, onde o diretor
não dá tempo para o espectador descansar, sempre mexendo
com a platéia bem a seu modo, seja na ação, no suspense,
na provocação, ou no olhar. E agora, mais do que nunca,
Verhoeven valoriza cada gesto, cada objeto de cena,
cada detalhe, ao mesmo tempo com um fervor de artista
que conhece seu terreno e com uma polida precisão de
engenheiro. Basta dizer que não há um
plano do filme que se apresente como excedente, desnecessário:
toda a gramática do cineasta em sua nova obra está a
serviço de suas idéias, num aproveitamento soberbo de
cenografia, atuações, planos e edição.
Porém, por qualquer dos prismas que se queira olhar,
uma imagem figura em comum: é inegável que se trata
de uma obra de Verhoeven. As características temáticas
mais básicas de sua filmografia aqui novamente podem
ser encontradas sem fazer qualquer força. São elas a
violência, o sexo e a sordidez, tríptico ao qual poderíamos
incorporar um quarto elemento: o choque causado pelas
imagens (este, no mais das vezes decorrente natural
de qualquer um, ou da soma, dos três anteriores). Embora
a película flua por entre tais aspectos, em vários momentos
eles se tornam mais pungentes, e o estilo verhoeveniano
salta aos olhos. Afinal, no cinema de que outro cineasta
poderíamos encontrar, juntas, tantas cenas inusuais,
reunindo fuzilamentos, desenterro de cadáveres, mortes
violentas, imundícies, nudez, humor negro e uma vingança
que culmina numa das cenas mais agonizantes que o Cinema
poderia testemunhar? Mas não se resume apenas a isto
a marca simbólica do diretor: é em uma homenagem
- a mais escatológica possível - ao clímax de "Carrie,
A Estranha", e na transformação total de
uma morena em loura (quem assistiu ao filme entenderá
o porquê do grifo em itálico na palavra "total") que
a película clama seu realizador e a veia tão peculiar
dele.
Uma das felicidades na escolha do elenco, Carice van
Houten brilha no filme, mostra talento e beleza. Mais
talento do que se esperaria, menos beleza do que se
alardeou por aí. A atriz é capaz de segurar as cenas
em que aparece com boa competência - e olhem que ela
está presente quase o tempo todo na tela -, mostrando
muita entrega ao papel e dotes extras muito bem-vindos,
tal seu desempenho como cantora, sem qualquer necessidade
de playback. Somente não é, esteticamente falando,
a diva a qual alguns quiseram pintar como qual: resulta
bela sem ser espetacularmente linda, lembrando um tanto
de Miranda Otto ("O Retorno do Rei") com um pouco
de Jean Harlow - quando penteada e maquiada para isso,
como aponta uma frase do próprio filme. Um gol de placa
a favor da fita também está no seu roteiro, que coloca
uma heroína como protagonista de uma obra de guerra,
algo raríssimo: palmas para quem rompe paradigmas.
"A Espiã" marca o retorno do diretor em rodar
filmes em seu país natal. Graduado em Matemática e Física,
Paul Verhoeven obteve reconhecimento longe das Ciências
Exatas, destacando-se como cineasta. Seu segundo trabalho
em longas-metragens, o incendiário "Louca Paixão"
(1973) - uma mistura desconcertante de elementos
de "Love Story" e "Laranja Mecânica" com
a mão única da quadra violência/sexo/sordidez/choque
visual típica do diretor, da qual dissemos
anteriormente - foi considerado, em escolha de há alguns
anos atrás, como o Melhor Filme Holandês do século passado,
batendo inclusive os oscarizados (e excelentes) "Caráter"
e "A Excêntrica Família de Antônia". Após tal,
o diretor enfileirou uma série de obras ("Os Amores
de Katie", "Soldado de Laranja", "Spetters"
e "O Quarto Homem") que arregalaram os olhos
dos produtores americanos. Seu cartão de visitas ao
mercado estadunidense foi o contundente "Conquista
Sangrenta", em 85, que lhe abriu portas para o seu
sucesso em Hollywood representado pela trinca "Robocop"
(87), "O Vingador do Futuro" (90) e "Instinto
Selvagem" (92), todos eles dispensando comentários
acerca de seus êxitos junto à imprensa especializada
e ao público. A derrocada veio com o fracasso retumbante
de "Showgirls" em 95, fazendo com que Verhoeven
fosse então visto com desconfiança. Isto prejudicou
"Tropas Estelares" (97) e "O Homem Sem Sombra"
(2000), ambos interessantes mas incompreendidos. Após
o retorno ao solo pátrio com o presente "A Espiã",
Paul mostrou que não consegue ficar muito tempo longe
de Hollywood: está prevista sua reestréia americana
com a continuação de "Thomas Crown - A Arte do Crime",
ainda no final deste ano. Boa volta, Verhoeven, torne
à Holanda quando quiser, e hartelijk dank*!
A ESPIÃ (Zwartboek, Holanda/Alemanha/Bélgica,
2006)
Direção: Paul Verhoeven.
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom
Hoffman, Waldemar Kobus, Halina Reijn, Dolf de Vries,
Derek de Lint.
COTAÇÃO: *****
*Muito obrigado, em holandês.
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