|
|
|
|
| |
| |
| |
|
UM
FILME FALADO NA MAGIA DO ESPELHO
|
|
Ricardo
Rangel
|
| |
 |
| |
O nonagenário cineasta português Manuel de Oliveira
mostra que trabalho, talento e sensibilidade são mesmo
os seus fortes. O mais velho diretor de cinema em atividade,
que realiza pelo menos um filme por ano, nos brinda com
reflexão inteligente e boas conversas no seu mais recente
filme, "Espelho Mágico". Conversas estas, aliás,
que são a tônica do estilo oliveiriano de filmar e expor
suas idéias: em "Um Filme Falado", uma professora
de História, em viagem com sua filha pequena pelo mundo,
vai explicando à mesma nesse interím a origem e as tradições
das diversas culturas dos povos antigos, em especial dos
europeus e do norte da África. Mas para contrapor, de
certa forma, este extremo didatismo que marca esta produção,
há uma cena emblemática a bordo de um cruzeiro em que
ambas estão, e tem a duração de praticamente a metade
do filme: em uma mesa no navio, conversam pessoas de diferentes
nacionalidades falando idiomas diferentes cada uma, e
todas se entendem perfeitamente. Destaque nesta antológica
cena para dois excelentes atores, Catherine Deneuve e
John Malkovich, que seguram as pontas brilhantemente,
com atuações de luxo e destacando esta pluralidade comunicativa
entre os personagens, um dos motes da película; mote este,
aliás, também presente em "Espelho Mágico", onde
uma mulher rica e de personalidade bastante interessante,
Alfreda (Leonor Silveira, também a citada professora de
"Um Filme Falado") tem uma obsessão em sua pacata
e melancólica existência: defrontar-se com a Virgem Maria,
assim como fizeram as meninas de Fátima, também em território
lusitano, no começo do século passado.
"Espelho Mágico" caracteriza-se por dois pontos
essenciais: diálogos consistentes e profundos, e um lirismo
sutil e cativante, características próprias de Manuel
de Oliveira. Em meio a muitas conversas com cunho filosófico,
pertinentes para o desenvolvimento intelectual da trama,
e aliado a simbolismos e metáforas que remetem aos sentimentos
e a própria crítica da razão, Oliveira trata de questões
muito profundas da psiquê humana, como a melancolia inerente
à natureza humana, além do amor e das diversas
formas de relacionamento que se instituem entre os personagens
principais. José Luciano, por exemplo, o personagem principal,
que trabalha para Alfreda, é um sujeito muito curioso
e contraditório, pois saiu da cadeia, onde convivia com
pessoas não necessariamente más, porém que praticaram
o mal, e agora querem uma espécie de redenção, e acaba
se envolvendo logo a seguir com uma "pseudo-santa" que
é Alfreda (pelo menos ela acha isso...bem, mas aí é uma
questão de interpretação e de como o filme toca cada um
nas suas crenças pessoais e idiossincráticas). A relação
dos dois é, de fato, extremamente profunda e tocante.
"Falsário", amigo de Luciano e exímio embusteiro,
toca-se ao conhecer Alfreda, e apaixona-se pela "falsa
Maria" que ambos, Luciano e "Falsário", querem
expor à Alfreda; sim, "Espelho Mágico" não é apenas
drama, tem hilários momentos de comédia (que chega a lembrar
a excelente produção mexicana "Como Água para Chocolate").
A constante discussão sobre o bem e o mal, e especialmente
sobre uma suspensão de juízo de valor sobre tais facetas
do comportamento humano é que fazem, dentre outras razões,
"Espelho Mágico" um filme humano, demasiado humano.
A figura da Virgem Maria se acha utilizada como um símbolo
daquela dicotomia, remetendo a ambos, e a santidade está
num aprisco intermediário entre o bem e o mal humanos,
finitos em sua natureza e falíveis, para uma espécie de
bondade e maldade que estariam num limite da razão humana,
numa espécie de antinomia kantiana da razão pura. Entretanto,
essa conversa, se estendida e refletida, se torna longa,
complexa e exaustiva. Nietzsche, que não é citado no filme,
mas que bem poderia ter sido, é um possível viés analítico
para o que Manuel de Oliveira quis trazer à baila nesse
seu belo trabalho - o humano abordado aqui se encontra
de forma sutil, lírica, poética, visual, reflexiva, através
do pano de fundo da religiosidade (não da religião, mas
da religiosidade, que é categorial e conceitualmente distinta
desta). Oliveira convida o espectador a fluir por vários
caminhos perceptuais, desde a crítica da razão estabelecida
canonicamente (por favor, não estou evocando exegeticamente
nem fazendo uma contraposição a Kant, de forma alguma)
até uma catarse das paixões que iria desde os pensadores
medievais até Freud e os pós-modernos, pois seu filme
é razão e paixão contrapondo-se e complementando-se mutuamente,
tudo em equilíbrio e uníssono completo e pleno.
Nosso luso-poético cineasta só peca um pouco no desfecho,
que pelo desenrolar apresentado acaba perdendo, na cotação,
uma * do que poderia ter sido, tranqüilamente,
*****. Mas é parcialmente perdoável este erro,
afinal, manter alto nível de reflexão e de sensibilidade
o tempo todo não é tarefa nada, mas nada mesmo trivial.
Manuel de Oliveira, este gajo de quase um século de vida
dedicados ao cinema, e a um cinema de qualidade e conteúdo,
que o diga... este velho sábio lusitano sabe das coisas,
ora pois!
ESPELHO MÁGICO (idem, 2005)
Direção: Manuel de Oliveira.
Elenco: Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Susana
Sá.
COTAÇÃO: **** |
| |
|
|
|