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A
VERTIGINOSA FEIRA DOS DÉJÀ-VU
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Alexandre
Mesquita
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Ser ou não ser? Anões, elfos, cavaleiros, dragões, uma
princesa de nome Arwen, digo, Arya, Roram (quase Roham),
monstros assassinos Urgal (Uhruk Hai bonitos?), um cara
que traiu para ser rei vilão, e minha cabeça coçando.
Esse filme não se chamaria Aragorn? Não, é Eragon
(Eragon, 2006, EUA) mesmo.
História. Galbatorix (John Malkovich), era um cavaleiro
de dragão que matou todos os companheiros para conseguir
o posto de rei, encerrando uma "nobre era de nobreza"
governada por estes homens sábios e quase imbatíveis.
Mas a bela princesa Arya (Sienna Guillory) faz parte de
uma pequena resistência, liderada pelo povo Varden. Ela
consegue roubar de Galbatorix uma pedra oval, na verdade
o último ovo de dragão, que é a coisa mais importante
que um rebelde pode ter (my precioussss...). Para
escapar da perseguição de Durza (Robert Carlyle) - capanga
do Rei e mistura de Língua de Cobra com Espectro Fura-Frodo
-, Arya usa magia para enviar o ovo a Eragon (Edward Speelers),
um simples fazendeiro de dezesseis anos que gosta de caçar
gamos, e que de repente vira a grande esperança da humanidade.
O ovo eclode e dá origem a Zafira (voz de Rachel Weisz),
um jovem dragão fêmea, que tanto quanto o protagonista
precisa ser ensinado a atingir todo o seu potencial. Para
isso, aparece o cavaleiro Brom (Jeremy Irons) que andou
exilado devido a mancadas no passado, mas sabe tudo de
dragões e é do bem. Ele vai ensinar a Eragon coisas como
o elo entre dragão e cavaleiro. Um dragão escolhe seu
cavaleiro e fica ligado a ele. Se o cavaleiro morrer,
o dragão morre. Ambos também compartilham poderes através
da linguagem mágica dos elfos, como a palavra que faz
um cavaleiro enxergar como seu animal enxerga (o filme
não fala, mas por essa lógica deve haver outra palavra
que faça um cavaleiro cuspir fogo).
Déjà-Vu na feira. A terra de Algäesia, onde acontece
todo esse entrevero, é daquelas regiões míticas que, além
de abrigar etnias folclóricas, ainda dá a sensação de
que se você morasse nela, numa caminhada à feira pode
esbarrar no Chewbacca, dar uma esmola para Lord Voldemort,
assoviar para a Trinity com sua roupa apertada e óculos
escuros, e melhor, sem o Neo, que anda flertando com uma
hobbit. Pode ir na feira comprar frutas e verduras nas
tendas do Conan, O Bárbaro e do Obelix, e quando chegar
em casa encontrar o Yoda no meio dos limões ("Ai, querido
tem um limão orelhudo aqui! Transgênico, espreme que o
suco é bom"). Ou seja, além do mencionado O Senhor
dos Anéis, Harry Potter, Matrix, Guerra
nas Estrelas, Dungeons and Dragons, Asterix,
entre outros, contribuem em peso para a sensação do "já
vi isso em algum lugar". E ninguém fica vermelho.
Origem. Baseado na obra do escritor teen Christopher Paolini,
o livro Eragon vendeu que nem água, desbancou Harry
Potter, e tem pedigree de trilogia. Só que
o filme Eragon é uma sombra raquítica do livro.
Além da sensível modificação na história faltaram, em
excesso, detalhes e personagens. O segundo livro se chama
Eldest, daqui a pouco seu filme estará nos cinemas.
Especula-se que trará a história do duende que rapta Eragon,
e lhe oferece uma pílula vermelha e uma outra azul, para
que ele tenha o desprazer de descobrir que seu mundo de
Senhor dos Anéis pouco modificado nada mais é do
que uma criação de máquinas para extrair energia elétrica
do seu dragão. Bem-vindo ao mundo real.
Diretor. O diretor Stefan Fangmeier (olha eu aqui pensando
na floresta Fangorn) deu uma caprichada nos efeitos especiais,
compreensível por se tratar de um diretor made in
Industrial Light e Magic. Porém, os cenários, quesito
analisado com rigor pelos juízes desse tipo de filme,
comprometem: natureza bonita mas repetitiva, castelos
sem graça, vilas de duas ou três casas e fortaleza de
rebeldes de não dar inveja à casa do Tarzan. Sensação
de que botaram um zero a mais nos cem milhões de dólares
anunciados no orçamento.
Atores. Difícil de admitir que a produção tenha escolhido
como protagonista Edward Speelers (reza a lenda que Elijah
Wood esteve cotado entre 180 mil candidatos). A diferença
de nível entre ele e Jeremy Irons (que encara com profissionalismo
o seu projeto ganhar uns trocados) é constrangedora. Quanto
aos outros, John Malkovich recebeu por minuto, apareceu
pouco, e foi ele mesmo. O quase sempre muito bom Robert
Carlyle está meio sem saco com seu Durza. Djimon Hounson
estagnou na categoria coadjuvante de épicos (recém soube
que ele concorrerá ao Oscar com Diamante de Sangue,
adivinhe em quê?). Rachel Weisz na sua voz de dragão não
faz muito diferente do que qualquer um com um cachê menor
faria.
Problema Vertiginoso. É um filme juvenil, que pensa na
ação mais do que na justificativa da ação, e não há mal
nisso. O problema é o excesso. Para esclarecer, resgato
uma entrevista do Jô Soares. Certa vez ele perguntou a
uma astrônoma quanto tempo se poderia levar numa viagem
a, se não me engano, Marte. A astrônoma respondeu que
a velocidade limite conhecida é a velocidade da luz. Então,
no máximo seria o tempo que a luz leva. Aí, o sábio Jô
fez uma pergunta que nunca esqueci, "Mas a velocidade
do pensamento não é mais rápida?". Pelo que entendi,
o amado gordo imaginava que pensar não só é uma ferramenta
evolutiva, mas um meio de locomoção, tipo "duzentos
cavalos de potência, cinco marchas, ar condicionado".
O roteiro, juvenil em excesso, de Peter Buchman consegue
ser mais rápido do que a velocidade do pensamento na física
do Jô Soares. O caçador de gamos, que ganha um ovo, que
gera um dragão, que sai voando, que já é adulto, que fala
enquanto pensa e não pensa enquanto fala; que transforma
Eragon em cavaleiro, feiticeiro, amor da princesa, que
tira do armário um outro cavaleiro...isto deixa a gente
com poucas opções que não sejam a de ficar zonzo. O que
prejudica a procura por algo mais que, de repente, o filme
poderia dar. Como, por exemplo, a pergunta que me ocorreu
só três dias depois. E se cavalgar em dragões for uma
metáfora? Se tivesse me tocado disso na hora do filme,
possivelmente ele conseguiria tocar no fundo da minha
memória, a ponto de me emocionar dentro da sala de cinema.
Cavalgar em dragões: no colégio fui muito conhecido por
isso, mas essa já é uma outra história, ou outra perspectiva,
uma outra calúnia.
ERAGON (idem, 2006)
Direção: Stefan Fangmeier.
Elenco: Edward Speelers, John Malkovich, Djimon
Hounsou, Sienna Guillory, Robert Carlyle.
COTAÇÃO: ** |
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