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Um sucesso e posteriormente, um cult dos anos
70, o filme "Ensina-me a Viver" ("Harold and
Maude", EUA, 1971) trouxe consigo uma enternecedora
lição de vida, unindo personagens tão díspares e, ao
mesmo tempo, tão complementares entre si quanto o são
o jovem Harold e sua obsessão pela morte e a anciã Maude,
cheia de paixão pelo ato de viver intensamente. Paralelamente
a esse mote, desfilavam temas relevantes como a falta
de afeto no seio familiar, a simplicidade de ser e os
conflitos dos primeiros anos da adultidade.
Pois esse texto de Colin Higgins ganhou uma montagem
teatral em nossos palcos, e para celebrar os 150 anos
do Teatro São Pedro, Porto Alegre recebe o elenco composto
de Glória Menezes, Arlindo Lopes (idealizador do projeto),
Ilana Kaplan, Fernanda de Freitas e Augusto Madeira
para coroar tal efeméride. Na tarde da recente quinta-feira,
dia 26 de junho, esse conjunto de atores e atrizes recebeu
a imprensa e a crítica artística locais para uma entrevista
coletiva. A seguir, você confere o bate-papo do Cine
Revista com os artistas do espetáculo teatral.
CINE REVISTA: Gostaria de perguntar ao elenco
até que ponto o filme de 1971 influenciou na composição
dos personagens, na montagem da peça, nas impressões
pessoais de cada um a respeito dele.
ARLINDO LOPES: Eu vi muitas vezes esse filme,
umas oito vezes, acho. Lembro de que antigamente eu
tinha que me esforçar muito para poder vê-lo, pois devido
a questões de censura na TV, ele passava muito tarde,
nos Corujões. Entanto, ele não me chamou a atenção
diretamente por esse meio para se pensar numa montagem
dele. Foi quando o texto chegou às minhas mãos que fiz
a ligação com o filme a que eu tanto tinha visto. E
olha só que curioso: o diretor da peça, João Falcão,
não viu o filme até hoje!
GLÓRIA MENEZES: Nada. Nada, de minha parte. A
peça é bastante diferente do filme, no meu entender,
até porque ela tem por base o texto adaptado pelo Millôr
(Fernandes), que é de um humanismo ímpar, muito sensível.
Ela se passa de um modo muito diferente daquele do filme.
O que posso te dizer nessa comparação é que só vendo
a peça para sentir como ela é, esse sentimento difere
muito daquele que o filme transmite.
FERNANDA DE FREITAS: Vi o filme uma única vez,
dois dias antes da estréia da montagem - e por
curiosidade. Mas não me influenciou quanto aos meus
personagens.
AUGUSTO MADEIRA: A sua pergunta é interessante,
e é muito compreensível que se faça essa relação entre
ambos, porque o filme fez realmente muito sucesso, sobretudo
na época dele. E aí é claro que fica, sim, a comparação.
A transferência de uma peça para um filme é mais fácil,
pelos recursos que o cinema oferece. Nós estamos fazendo
o mais difícil, que é adaptar o cinema para o teatro.
CINE REVISTA: Quanto ao teor da peça, vejo
nela um aspecto muito peculiar, algo que ao mesmo tempo
é complementar e paradoxal, algo de antítese e harmonia,
que está nessas aparentes oposições, como vida x morte,
amor x falta de amor, juventude x velhice. Questiono
como isso surge para vocês: a vida, nas suas opiniões
pessoais, é assim mesmo, há essas complementaridades
onde deveriam haver contraposições - e aí a peça seria
um reflexo da vida real? Ou é tal argumento algo de
registro "menos naturalista" e mais devotado
a provocar emoção?
ARLINDO LOPES: Acho que há no teor da peça uma
conexão com a vida de várias pessoas, é possível
para muitos fazer uma identificação com ela. Por exemplo,
particularmente falando, há uma ligação forte
de aspectos da peça, e também do filme, com a minha
vida. Sou filho único como o Harold; tive pouco afeto
familiar, numa relação com os pais de maior distanciamento
que a normal, e inclusive cresci assim. Hoje em dia,
essa questão da afetividade ainda me pega, até meio
que sem perceber. Esses dias, liguei para a minha mãe,
e por sugestão da Fernanda (de Freitas, colega de
palco), me dirigi a ela por telefone com um carinho
maior do que está acostumada de mim, e ela estranhou
isso. As dificuldades pessoais do Harold também foram
as minhas, não posso negar que o personagem dele mexeu
muito comigo.
FERNANDA DE FREITAS: A peça tem muito dessas
antíteses mesmo. E a vida também é assim,
acho. O texto é rico nisso, e esse é um tema que me
agrada muito. Inclusive para te ilustrar melhor o que
falei, queria dizer que uma de minhas músicas preferidas
é "Monte Castelo", do Legião Urbana, que fala
muito nisso.
GLÓRIA MENEZES: É sem dúvida uma relação interessante.
Aqui nos bastidores e na leitura do texto, costumamos
dizer que é uma história de uma jovem de 80 anos com
um velho de 19 anos.
AUGUSTO MADEIRA: É evidente que a finalidade
desse aspecto é, a princípio, emocionar, provocar
choque. O drama precisa ser sentido pela platéia. E
além disso, tem também um aspecto real, da vida. O legal
é você no palco sentir a platéia se emocionando com
os eventos em cena, essa comunicação entre o palco e
o público.
CINE REVISTA: Ocorre então algo como uma simbiose,
então, entre atores e platéia.
AUGUSTO MADEIRA: Exato. Há humor, há drama, há
emoção nessa relação. O espectador sente isso, vários
deles vão para casa pensando no que viram, até
um pouco transformados pela peça. É isso
que queremos transmitir, a emoção.
Peça teatral "ENSINA-ME A VIVER"
Direção: João Falcão.
Elenco: Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana
Kaplan, Fernanda de Freitas e Augusto Madeira.
De 26 a 29 de junho.
Quinta, sexta e sábado, às 21h e domingo às 18h. No
sábado, sessão extra às 17h30min.
Theatro São Pedro - Praça Marechal Deodoro, s/n - Porto
Alegre
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