ENTREVISTA EXCLUSIVA:
ANDRUCHA WADDINGTON, DIRETOR DE "LOPE"
por Adriano de Oliveira
 
 

O cineasta Andrucha Waddington esteve em Porto Alegre há alguns dias atrás, quando ministrou uma aula magna por ocasião do 7º Festival de Verão RS de Cinema Internacional, evento que teve em sua abertura a exibição do filme "Lope", o qual estreou nos cinemas locais na última sexta-feira. O site Cine Revista realizou uma entrevista exclusiva com o diretor, a qual você confere a seguir.

Cine Revista: Andrucha, a força visual do seu cinema é algo marcante. O grande plano geral que abre "Casa de Areia", a cena do funeral em "Gêmeas"... vários fotogramas do trailer de "Lope" inclusive atestam isso, entre outras passagens. Gostaríamos de saber sobre o processo criativo na elaboração da imagem em seus filmes. É na hora da filmagem que você constrói o visual dos seus longas? Ou isso ocorre previamente, no storyboard?

Andrucha Waddington: Essa é uma coisa muito intuitiva. Na preparação, quando começamos a ler o roteiro, e então começamos também a entender o que é preciso para se ter aquele diálogo silencioso, imagético. Mas isso se trata de algo que sempre sou muito aberto a modificar, pois considero o filme como uma coisa viva. Acho que o storyboard foi feito para se jogar no lixo (risos). No caso de "Lope", eu fiz o storyboard para o filme inteiro, entanto nunca o abri. Claro que o fiz antes, para ter uma ideia de como iria filmar, mas nunca o levei para o set. Como lhe falei anteriormente, de que o filme é algo vivo, eu tenho sempre que estar muito aberto para buscar o que os atores me dão. Obviamente, sempre pensamos em imagens mais poderosas, como aquela de "Casa de Areia" que você citou, ou a chegada em Lisboa de "Lope". São nesses momentos que o espectador precisa entender a dimensão em que o personagem está entrando. Esses momentos algumas vezes são preconcebidos, e em outras vezes eles são achados.



Cine Revista: Vem aí a comédia "Os Penetras", um projeto antigo seu que você já havia comentado quando de uma entrevista concedida em 2005, e recentemente você adquiriu os direitos para o cinema do livro "Nação Crioula". Poderia nos falar um pouco de seus próximos projetos?

Andrucha Waddington: Sim. Gostei muito do livro "Nação Crioula", do José Eduardo Agualusa, é uma história absolutamente linda, e nós estamos começando a adaptá-la. As gravações do filme só deverão iniciar em 2013. É um projeto para bem mais além, pois no final do ano vem aí essa comédia adulta com o título provisório de "Os Penetras" - acho que será também este o título definitivo -, que se passa no reveillon de 2011 para 2012. Este filme trata da jornada de dois caras bem diferentes entre si, que não conseguem se desvencilhar um do outro, e nessas 40 horas de jornada que passam juntos, um modifica a vida do outro, ou seja, eles saem do filme muito diferentes em relação ao começo da história.



Cine Revista: É um filme sobre uma jornada de transformação para esses personagens?

Andrucha Waddington: Exato.



Cine Revista: Da última que você esteve em Porto Alegre, falou-nos de que gostaria, como diretor, de transitar pelos mais variados gêneros, como Kubrick. Pois bem, você já realizou um drama rodrigueano com toques de suspense em "Gêmeas", uma comédia dramática em "Eu Tu Eles", provou a força das elipses cinematográficas em "Casa de Areia" e até documentário já dirigiu. Agora em "Lope", você gera um épico, que é um gênero dos mais difíceis, porque abarca outros tantos dentro dele. São todos filmes bem distintos entre si. Ou seja, você está pondo em prática a ideia de seguir Kubrick nesse sentido...

Andrucha Waddington: Eu achava - e continuo achando - que Kubrick é um ideal, por ser um cineasta que nunca se repetia.



Cine Revista: "Um ideal" no sentido de um ícone?

Andrucha Waddington: Talvez, mas o bacana para mim é que ele nunca se repetiu. Ele saiu de um "Spartacus" e foi para algo totalmente diferente desse, que é "2001". Aí depois ele faz "Laranja Mecânica" e enfim, "O Iluminado", tudo sem medo de mudar de gênero, e acho isso muito saudável. Isso é algo realmente inspirador, digamos assim.