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Ansiedade
e paranoia claustrofóbica
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Ricardo Rangel
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"O horror, o horror...!!" Esta expressão, tão
bem cunhada e consagrada pelo Coronel Kurtz ao final de
"Apocalipse Now", o "enigmático-e-lunático" personagem
de Marlon Brando que assustou gerações ao se auto-proclamar
Deus em uma comunidade no meio da selva no Camboja pós-Guerra
do Vietnã, poderia muito bem resumir, em parte, o sentimento
dominante do filme "Enterrado Vivo" ("Buried"),
de Rodrigo Cortés. A idéia e o argumento básico desta
co-produção Espanha/EUA é bem simples e pode ser sintetizada
no que se segue: Paul Conroy (Ryan Reynolds), motorista
de caminhão norte americano no Iraque, acorda enterrado
dentro de um caixão, e dispõe de apenas um isqueiro e
um celular com bateria fraca para pedir socorro e resgate.
Paul não sabe como foi parar lá, mas alguns elementos
um tanto quanto obscuros são fornecidos tanto a ele quanto
ao espectador: quem o colocou vivo embaixo da terra são
insurgentes rebeldes seqüestradores, que a princípio almejam
obter resgate com o estado e os órgãos governamentais
estadunidenses em troca de sua liberdade.
Nesse ínterim todo, Conroy comunica-se, no mais das vezes
de forma precária, com o tal líder dos seqüestradores,
um agente do FBI especializado neste tipo de situação,
outro agente do departamento de defesa americano e o representante
legal da companhia para a qual presta serviços em solo
iraquiano, além das secretárias que ficam o repassando
de um ramal para o outro sem perceberem a verdadeira consciência
da sua real situação. Com sua esposa e filho, Paul incansavelmente
tenta contato, em vão, e até com sua mãe em um asilo ele
consegue ligação. A sua luta desesperada é contra o tempo:
ele tem aproximadamente uma hora e meia, precisamente
o tempo de duração da película, para que o localizem e
o resgatem sob pena dos seqüestradores o deixarem morrer
lá embaixo, haja vista a falta de oxigênio e a areia que
começa aos poucos a entrar para o interior do caixão.
Por estas e outras razões, "Enterrado Vivo" não
é nada recomendável para quem sofre de ansiedade e/ou
quem é acometido por alguma espécie de fobia a lugares
fechados: o filme todo se passa apenas em um cenário,
o interior do caixão, e a iluminação é precária, oriunda
do isqueiro de Conroy, que é onipresente em uma atuação
razoável de Ryan Reynolds. Os outros personagens se têm
acesso apenas pelas vozes no telefone, algumas mais convincentes,
como o seqüestrador iraquiano ou o agente que busca ajudar
Paul, outras menos, como o executivo da sua firma. Há
circunstâncias por vezes um pouco inverossímeis, mas no
mais das vezes a tensão é mantida, e o suspense sobre
a condição de Conroy mantém-se até o final, com muita
adrenalina e nervos à flor da pele à espera de um desfecho
trágico ou um happy end tradicional e clichê.
Independentemente do que vá acontecer com o personagem
de Reynalds e do mérito mínimo de se fazer presente um
suspense claustrofóbico que vai "num crescendo" à medida
que a narrativa se desenvolve, e de se relevar alguns
tropeços no roteiro e também de continuidade, por poucos
que sejam, "Enterrado Vivo" tem outros méritos e virtudes
a serem destacados, e trago à baila dois deles, que julgo
serem os mais relevantes e interessantes, a saber: a exposição
da falência orgânica e da incompetência generalizada dos
serviços públicos, no caso os governamentais, de inteligência
e segurança nacional norte-americanos, no que tange desde
a prestação de informações fidedignas para o cidadão pagador
de impostos em que o direito à esta informação é condição
mínima desta cidadania (e dever do estado fornecer tais
informações e serviços de desburocratização), até os limites
da legalidade e da moralidade em situações inaceitáveis
a que Paul Conroy é submetido em detrimento das relações
de poder e da política internacional e seus interesses.
O outro ponto a se destacar e se meditar e que o filme
propõe não é nada novo, muito pelo contrário, está na
moda e em voga, que é a paranóia pós-11/09 que se estabeleceu
em território norte-americano, no primeiro-mundo ocidental
de forma massiva e globalizada. e também no Oriente Médio.
Um simples cidadão norte-americano no lugar errado e na
hora errada é feito refém do "inimigo" (o terror invisível,
que ninguém vê, que choca aviões contra prédios, que decapita
jornalistas no Paquistão e no Afeganistão e mostra os
vídeos na internet, e que também movimenta a indústria
armamentista mundial do primeiro escalão...) dentro de
um caixão embaixo da terra em pleno deserto iraquiano.
Ele paranoico, inseguro e ansioso, exatamente o reflexo
da ampla maioria dos cidadãos norte-americanos e de alguns
países europeus que convivem com esse fantasma do "terror"
há quase dez anos. "Enterrado Vivo" é, em certa
medida, uma metáfora disso tudo, pelo menos parece ser,
e pode, inclusive, ser classificado como um filme "denúncia",
denúncia a todos estes fatores, em menor ou maior grau.
"O horror, o horror..." do Coronel Kurtz aplica-se
tanto para a condição sôfrega, angustiante e atemorizante
de Paul Conroy, que clama por ajuda e não a tem como deveria,
para nosso pânico do outro lado da tela, quanto para toda
a podridão e incompetência que também é mostrada do "outro"
lado, o lado de "lá", em que tanto nós como Conroy só
ouvimos pelas vozes do sistema do outro lado da linha
telefônica, ironicamente deixada lá à revelia pelos seus
algozes, tanto os estrangeiros quanto os conterrâneos.
"O horror, o horror..."... salve-se quem puder
nesse lamaçal todo... Paul Conroy conseguirá? Assista,
sofra, angustie-se, seja solidário com ele, e julgue você
mesmo no final das contas.
ENTERRADO VIVO (Buried, EUA, 2010)
Diretor: Rodrigo Cortés.
Elenco: Ryan Reynolds.
Cotação: *** |
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