PRIVAÇÃO VISUAL

OU

OLHOS QUE NADA VÊEM

Ricardo Rangel
 
 
Fernando Meirelles adaptou a novela "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago para o cinema, em um antigo projeto seu que saiu do papel e enfrentou outrora a resistência do próprio autor. Saramago, após o término das filmagens, ficou satisfeito com a transposição de sua fábula onde todos os personagens contraem uma estranha cegueira que os priva do contato visual com o mundo, chegando inclusive a ir às lágrimas - cético que estava de que a adaptação não traduzisse o espírito de seu livro.

Não li "Ensaio sobre a Cegueira", o livro - pretendo fazê-lo após ter visto o filme -, e não irei, pois nem poderia, tecer um comentário baseado portanto, no texto do próprio Saramago, por desconhecer esta sua obra, bem como quase que a totalidade dela (mais uma das tantas lacunas pessoais a serem preenchidas...). O que viso aqui é apenas dar uma interpretação pessoal para o filme, e não estou tanto interessado se foi assim que Meirelles o pensou ao concebê-lo; busco tão-somente argumentar em torno desta interpretação, justificando-a através de uma leitura de suas metáforas, o que creio ser instigante pelo atual momento que vivemos em nosso mundo.

A primeira delas é um tema recorrente na nossa sociedade do século XXI, principalmente pós-11/9 - o medo e a paranóia gerais. Desde os atentados das Torres Gêmeas e do Pentágono, a paranóia desenfreada molda a vida do cidadão estadunidense, anglo-saxão e europeu de modo geral, além de toda a civilização ocidental - incluindo o Terceiro Mundo e também a Ásia mais recentemente (os recentes Jogos de Beijing refletem bem esse sentimento): a segurança é reforçada diante da iminência do terror. O terror em " Ensaio..." é o medo do outro, do próximo, que está à espreita; pode estar sem visão, sem enxergar, mas pronto para se revelar na sua selvageria e imoralidade. Ao se colocarem todos sem a percepção visual, a igualdade perante o perigo é ameaçadora, os instintos mais primitivos são revelados: as cenas dos estupros "consentidos", e da busca desesperada por comida e pela sobrevivência revelam a presença, nesse contexto aterrador, de um estado de coisas semelhante ao modelo teórico do estado de natureza hobbesiano, onde a guerra de todos contra todos emerge da ausência do poder, do soberano que julga e faz valer a aplicabilidade da lei, tanto a jurídica quanto a moral, sendo que esta segunda estaria muito mais como um imperativo categórico da razão prática que não é, ao contrário do ideal kantiano da paz perpétua na constituição republicana, seguida como mandamento de modo algum pela maioria. Isto viria da máxima "age sempre visando o outro (o homem e o cidadão) como um fim, e nunca como um meio".

Ironicamente, o personagem de Gael Garcia Bernal se auto-proclama " rei ", a saber, o rei da ala Três. Na história, os afetados pela epidemia são levados a hospitais que mais parecem presídios, sendo divididos em grupos e alas. O pseudo-rei questiona a suposta autoridade que o médico cego interpretado por Mark Ruffalo quer empregar em prol da comunidade. É importante falar aqui de um fato curioso, que nenhum personagem tem nome, em uma possível indicação de uma falta e procura de identidade por todos. Mas, seria este "rei" o anti-soberano do Leviatan de Thomas Hobbes, a antítese da autoridade racional, o semeador da discórdia e do caos social e moral que assola a todos?

A falsa escuridão que habita a visão da quase totalidade dos personagens da história, na verdade é uma cegueira "branca". Outra metáfora de Saramago, parece: com o excesso de luz, contraditoriamente não enxerga-se; seria o excesso da informação a que somos bombardeados diariamente uma espécie de "cegueira"? Creio que não precisamos ser um Pierre Levy, especialista em Hipermídia, para termos uma vaga noção disto tudo. É pois a a única que "enxerga" em meio a isso tudo, a personagem de Julianne Moore, racional nos seus atos, e com uma espécie de martirismo embutido no seu caráter de salvadora e condutora da porção de humanidade cega à quem tem e deve - este senso do dever é um imperativo da razão para ela, ao que parece - zelar pelo bem-estar e sobrevivência de todos.

Seria a cegueira momentânea, ou permanente? Esta dúvida é cruel para todos, e talvez mais ainda para ela, a quem o senso de responsabilidade moral neste contexto se torna máximo, onde nada mais, nada menos, do que essa obrigatoriedade normativa se diz necessária para a instauração da dignidade humana que está sendo, ou desde sempre foi, perdida em meio à barbárie e o caos.

Noutra metáfora, esta feita pelo próprio Saramago, todos estão enclausurados em um lugar fechado em meio às suas cegueiras, o que remete a seu livro "A Caverna". Nele, Saramago compara o Shopping Center com a caverna de Platão, refugiamo-nos do cruel mundo exterior em nossas cavernas de vidro e concreto. A nossa caverna contemporânea contempla o consumismo exarcebado e compulsivo, as sombras são as lojas, as praças de alimentação... e a luz lá fora, na favela e nas vilas, não projeta nada da "realidade" para o interior destas "cavernas chiques".

Como ensaio e reflexão moral, "Ensaio...", o filme, cumpre seu papel minimamente ao nos colocar na pele do outro que está sofrendo da ausência (ou excesso) de luz. Esteticamente, nos quesitos técnicos, esse excesso de brancura por vezes cansa os olhos da platéia, quase levando o espectador a uma pseudo-cegueira (quando acenderam as luzes da sala de projeção, pensei ter ficado cego... e saí com alguma paranóia e medo, mas tudo logo passou, na evanescência e efemeridade com que vivemos hoje em dia, ainda bem, ufa!).

Um destaque para a linda atriz brasileira Alice Braga, com sua beleza cândida e exótica. Além de bonita, interpreta um personagem interessante; poderia ter sido mais explorada na história, pois possui talento e dotes físicos interessantes para estabeelcer uma carreira bem-sucedida na indústria cinematográfica internacional... e isto ao menos, só não vê quem não quer!



ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness, Canadá/Japão/Brasil, 2008)

Direção: Fernando Meirelles.

Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, Danny Glover.

Cotação: ***