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A
RAINHA QUE CASOU COM A INGLATERRA
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Adriano
de Oliveira
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Às vésperas do lançamento de "Elizabeth - A Era de
Ouro" (2007), é pertinente falar de seu antecessor,
o filme de 1998 intitulado simplesmente "Elizabeth".
Fato curioso: essa obra de há quase dez anos atrás sobre
a célebre monarca inglesa que reinou de 1558 até 1603
foi levada às telas principalmente por mãos de vários
profissionais oriundos de ex-colônias britânicas, como
o diretor indiano Shekhar Kapur, os protagonistas Cate
Blanchett e Geoffrey Rush, bem como o compositor David
Hirschfelder - estes, australianos - e o produtor neozelandês
Tim Bevan.
Declarada como ilegítima herdeira do trono, mais tarde
presa sob acusação de traição, para depois ser coroada
rainha. Mulher de temperamento forte, decidida, consolidadora
de uma monarquia - absolutista e centralizada - em terras
inglesas. Uma biografia rica como a de Elizabeth I merecia
de fato uma grande versão cinematográfica. E é isso que
ocorre em tal filme, que aborda os primeiros anos de seu
reinado, com enfoque às intrigas palacianas.
Um dos soberbos méritos da película está na representação
de Cate Blanchett. A australiana, revelada aos cinéfilos
no sensível "Oscar e Lucinda" (1997), de Gillian
Armstrong, ficou conhecida popularmente por sua indicação
ao Oscar de Atriz de 1999 no filme de Kapur. Viria a perder
o prêmio numa das mais discutíveis edições dele (a insossa
Gwyneth Paltrow venceu, por "Shakespeare Apaixonado",
película que também teve a infâmia de derrotar a obra-prima
"O Resgate do Soldado Ryan" na categoria de Filme).
Porém o que realmente conta, está na atuação de Cate:
ela evolui, com fluidez e veracidade, de uma jovem nobre
assustada com suas responsabilidades para uma monarca
de opinião firme, sapiente de seus poderes e da manutenção
dos mesmos em prol de um Estado que necessitava, pelas
suas contingências, de uma mão de ferro para se organizar.
Como a soberana que abdicou de se desposar com pretendentes
estrangeiros (e nacionais, posteriormente) em nome de
um reino independente de intercessões externas, Blanchett
não apenas convence, como também vence: no majestoso epílogo
do filme, sua frase "Eu sou casada com a Inglaterra"
proferida a Lord Burghley (Richard Attenborough) não apenas
é a síntese da afirmação pessoal de sua personagem, mas
além mais, resulta no traço final de uma curva psicológica
por ela muito bem delineada.
No elenco de coadjuvantes, brilha o sempre competente
Geoffrey Rush, como o sanguinário Francis Walsingham,
conselheiro de Elizabeth (figura que de fato existiu,
embora aqui pintada de cores fortes para a dramaticidade
pedida pelo roteiro; sabe-se que ele tinha opiniões irremovíveis
e foi o braço-direito da rainha, inclusive criando o molde
do futuro serviço de espionagem britânico. Daí a ser mostrado
como um canalha e assassino, é literalmente outra história).
Embora com várias inverdades históricas, exageros e minimizações
(como todo épico), "Elizabeth" guarda algumas acuracidades
com os fatos da época, como o aprisionamento da candidata
ao trono na Torre de Londres.
Destaque também para um desfile de atores e atrizes. Alguns
que viriam a se tornar conhecidos no futuro: Daniel Craig
(o atual 007), Christopher Eccleston ("Os Outros"),
Emily Mortimer ("Querido Frankie"), Vincent Cassel
("Doze Homens e Um Segredo"), James Frain ("Jogo
Duro"). Outros já consagrados, como os portadores
do título de sir, Richard Attenborough ("Fugindo
do Inferno") e John Gielgud ("A Fórmula").
Também há as conhecidas no meio cult, Kelly Macdonald
de "Trainspotting" e Fanny Ardant de "Além das
Nuvens" e "Retratos da Vida". E os que até
agora não eclodiram na carreira, como Joseph Fiennes,
o qual, mesmo com papéis de destaque ("Shakespeare
Apaixonado", "O Mercador de Veneza") não consegue
se afirmar.
A trilha de David Hirschfelder é uma das melhores já realizadas
para um filme de época. Em várias passagens, o compositor
soube emular como ninguém a música do século XVI - um
período de transição entre a polifonia sacra e o barroco,
que assinalou também o surgimento de uma música instrumental
pura. Inclusive essa pluralidade de formas ele aproveita
para estabelecer um soundtrack adequadíssimo: enquanto
a parte musical do Banquete de Coroação reflete o instrumentismo
típico das composições feitas para o deleite da realeza
vigente, a introdução do filme apresenta um coral que,
moderna e ousadamente, funde a solenidade sacra do Canto
Gregoriano em forma polifônica à uma profanidade que remete
às cantatas hedonistas de Carl Orff. Entanto, a gema mais
preciosa do gentil tesouro de suas composições originais
para o filme está em uma tema executado tradicionalmente,
sem emulação histórica, em uma forma mais clássica: o
emocionante, sensível e contidamente portentoso "Love
Theme", que ilustra a relação de Elizabeth com Lord
Robert Dudley. Agregando à trilha original peças da época
(há uma de William Byrd) com outras atemporais
(o assombroso - no bom sentido - intróito do "Requiem"
de Mozart e o ameno Nimrod das "Variações Enigma"
de Sir Edward Elgar), Hirschfelder fornece
um panorama sonoro amplo, que até vai além das
fronteiras do tempo abarcado pela película com a pura
intenção de, em primeiro plano, retratar o campo das emoções.
Para mais do já citado e dos excelentes desempenhos nos
quesitos Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Desenho
de Produção, Maquiagem e Edição, em "Elizabeth"
é preciso salientar o belo trabalho de direção que Shekhar
Kapur realizou (e o Oscar de 99 sequer o indicou...tende
piedade deles, São Hitchcock!). Além de fazer belos
enquadramentos e mostrar domínio do campo dramático, Kapur
conhece bem a gramática cinematográfica e sabe escrever
com a câmera, dotado de invulgar poesia: são movimentos
graciosos, plongées, panorâmicas, focus pull,
closes, valorização da profundidade de campo...tudo
em nome de um Cinema bem realizado.
Se "Elizabeth - A Era de Ouro" tiver a metade da
qualidade de seu predecessor, será no mínimo um bom filme.
ELIZABETH (idem, 1998)
Direção: Shekhar Kapur.
Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Christopher
Eccleston, Richard Attenborough, Joseph Fiennes, Fanny
Ardant.
COTAÇÃO: ***** |
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