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Exibido
na 29ª Bienal de São Paulo, o curta-metragem O
Efeito Contrário (2008), do cineasta lituano
Deimantas Narkevicius, expõe a catastrófica
possibilidade de um ataque nuclear mútuo entre Oriente
e Ocidente, no decorrer da Guerra Fria.
O filme começa com fotografias
de bases de mísseis instalados na Lituânia (antiga República
Soviética), com projéteis apontados para o oeste. Segue-se
um detalhado processo de autorização para o lançamento
oficial da arma. O bunker ocupado pela
base do Exército lituano serve como abrigo em caso de
contra-ataque, mas o resultado final é a destruição
de toda a localidade.
Narkevicius trabalha com ampla linguagem
artística, indo da fotografia ao fotograma, fazendo
alterações e interferindo na memória histórica de seu
país – principalmente nesse impasse político-bélico
que foi a corrida armamentista e a atmosfera da Mutually
Assured Destruction (M.A.D.), surgidas com
a Guerra Fria em 1947. Ao invés de realizar um curta
que parecesse documentário, o diretor mesclou a ficção
do lançamento de um míssil a imagens e contexto
histórico reais – sua arte não diferencia a criação
da realidade histórica através da mídia (nesse caso,
o audiovisual).
O filme de Narkevicius também dialoga
com a poética da imagem de Andrei Tarkóvski, e mesmo
o uso de fotografias, escrupulosos
ângulos e montagem quase arquitetônica assemelham-se
muito aos “filmes de guerra” do diretor russo – como A
Infância de Ivan (1962) e O Espelho (1975).
A diferença entre ambos está no uso do tempo fílmico
e o modo como adulteram a realidade histórica e usam-na
em suas tramas fictícias.
Nesse perverso
jogo de ataque e contra-ataque nuclear, a matéria retorcida
domina a paisagem atingida. O trabalho poético realizado
pelo cineasta na parte final do curta, é, ao mesmo tempo, belo e inquietante. Os planos
sobre concretos, ferragens retorcidas, água parada e
ausência de som mecânico, aludem ao extermínio pleno
da vida humana naquele local, o ponto de partida para
a catástrofe. E é então que o título da obra entra com
uma indagação implícita: existiria algum tipo de ataque
(qualquer tipo) se o agressor imaginasse a devastação
que pretende causar no outro, em seu próprio território?
A ligação do homem
com a natureza (fator recorrente no cinema da região
do leste europeu, península escandinava, e Oriente com
como um todo) é também trabalhada, inclusive, com um
plano frontal elegíaco em uma árvore com um pássaro
ao entardecer – uma incursão natural completamente oposta
à temática central do filme, mas que é recorrente na
obras das regiões citadas, dentro do “enxergar a natureza
como parte indissociável da minha humanidade”¹.
O Efeito Contrário é um filme sobre
uma possibilidade historicamente superada (o contexto
da Guerra Fria), mas contemporaneamente pertinente –
em meio às armas e indústrias de guerra do nosso início
de século. Lacônico, crítico, poético, o curta-metragem
de Deimantas Narkevicius é daquelas obras que você vê
uma, duas, três vezes, e termina assim, como a chuva
que ouvimos cair após o fade-out final
do filme.
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1 – Quando escrevi sobre Brumas
de Outono, do estoniano Dimitri Kirsandoff,
eu trabalhei com mais propriedade essas questões.
O EFEITO CONTRÁRIO (The dud effect,
Lituânia, 2008).
Direção: Deimantas Narkevicius.
Cotação: ****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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