ABAIXO AS SEQÜÊNCIAS RIDÍCULAS!!
Ricardo Rangel
 
 
É inacreditável o que conseguiram fazer de mal a "Efeito Borboleta" ("The Butterfly Effect") nesta seqüência simplesmente ridícula e lamentável que demonstra ser este "Efeito Borboleta 2" ("The Butterfly Effect 2"): a indústria hollywoodiana tem a incrível capacidade de destruir seus bons filmes, que já são poucos, com continuações totalmente desnecessárias e patéticas, que não acrescentam nada, e devem mesmo só gerar lucros para certos profissionais com interesses puramente comerciais e despreocupados com a manutenção de um produto de boa qualidade. Sim, só isso deve explicar mesmo os rotundos fracassos, não só de bilheteria, mas de qualidade, das ditas seqüências; eu mesmo não teria o menor interesse em escrever sobre esta verdadeira droga, se não estivesse ela maculada pelo fato de apresentar-se sob o forte título "Efeito Borboleta 2", pois para quem viu o primeiro (e único, por favor!!!) "Efeito Borboleta", o mínimo que se poderia esperar era algo próximo àquele que se realizou com perfeição em termos de uma história bem montada, contada, amarrada e com um roteiro inteligentíssimo e dinâmico. Mas o resultado desta "seqüência" é desastroso e patético - tentando buscar na mesma fórmula o sucesso de seu homônimo, a parte 2 naufraga totalmente: é ridícula, com uma historinha besta sem nenhum atrativo, péssimos atores em atuações pobres e sem alguma empatia, e que de forma inconcebível tenta resgatar nas lembranças do seu personagem principal, Nick (fraquíssimo em cena) o que o Evan de Ashton Kutcher brilhantemente perpassou para o espectador no original e singular "Efeito Borboleta".

Talvez a clonagem de roteiro seja até válida, embora não é isso que está em discussão aqui, "Efeito Borboleta 2" até poderia ter sido razoável se a tivesse feito, mas com um mínimo, mas um mínimo mesmo de bom senso e inteligência. Volto a comentar, apenas estou fazendo esta crítica como protesto por essas continuações desnecessárias, é algo que já vem de longa data, mas que agora, com essa disparidade, isto foi a gota d'água. Esta crítica, pois, é um protesto, um manifesto contra as seqüências ridículas, como está explícito no título desta crônica.

São raras mesmo na história recente e até na mais remota do cinema de Hollywood continuações de filmes de sucesso e de boa qualidade que deram certo: "O Poderoso Chefão 2", de Francis Ford Copolla, tornou-se uma das raríssimas exceções do gênero, não apenas pelo fato de ser uma série de grande repercussão, e pela qualidade que tem, mas talvez por um fator fundamental no que se refere aos prosseguimentos, que é a preservação da equipe do original, especialmente o diretor e o roteirista; quando outros assumem as seqüências, recebem uma responsabilidade grande nas mãos: fazer no mínimo tão bem quanto foi feito no original, e isso nem sempre é tarefa das mais triviais, muito pelo contrário. Um dos casos mais patentes de uma seqüência altamente desastrosa, no mesmo baixíssimo nível desta atual de "Efeito Borboleta", foi o que aconteceu com "Highlander": o primeiro (e aqui também único, pelo amor de Deus!!) é um excelente filme, com uma belíssima fotografia, trilha sonora do Queen de alto impacto estético para o seu requintado visual estilístico, e que teve na direção de Russel Mulcahy (que, inexplicavelmente, e foi uma pena isto, não fez mais nenhum filme à altura) um autêntica aula de como se dirigir um filme que transcendeu o seu rótulo de aventura, e tornou-se um clássico, uma espécie de pseudo-épico e referência. A continuação, aguardada ansiosamente, redundou num total fracasso - rodado em grande parte na Argentina, com diversos problemas financeiros e de outras naturezas, sem Mulcahy na direção, e com um Christopher Lambert já decadente como o guerreiro Cooner McLeod, além de um roteiro que assassinou o original, "Highlander 2" destruiu com a série, que ainda viria a ter mais duas seqüências, igualmente sofríveis.

Há muitos exemplos para se darem nesse sentido, mas cito aqui somente um outro para contrapor um pouco o que está sendo colocado, mas não também sem ter estragado, de certa forma, o original: a série "De Volta para o Futuro", de Robert Zemeckis, também um clássico dos anos 80 na aventura e ficção científica, teve na sua seqüência um filme até curioso, com interessantes incursões e explicações sobre as seguidas viagens no tempo de Martin McFly e seu De Loren, o excêntrico Dr. Emett Doc Brown, seu cão Einstein e a família Biff e os diversos paradoxos que se criavam com os universos paralelos, mas que numa escrachada jogada de marketing, foi lançado junto com o terceiro, que se passava no velho oeste, e que destoou muito dos dois primeiros, especialmente do original. Foi constrangedor ir ao cinema assistir a projeção do segundo, e no final deste ter uma chamada apelativa para o terceiro; ou seja, o negócio dessa galera do showbusiness é ganhar grana mesmo com o sucesso de coisas boas, o problema cai em que eles geralmente estragam o que é bom com essa obsessão para lucros financeiros. É uma pena, mesmo, e totalmente lamentável.

O recado fica: parem com isso!! Aquilo que é bom, que fez sucesso, se é para ter uma seqüência, então que se realize uma no mínimo no mesmo nível do original, embora há casos em que isso é praticamente impossível, então deixem como está, sem promessas vãs e falsas de uma continuação à altura (certamente é o caso de "Efeito Borboleta"; imaginem, por exemplo, "Donnie Darko" tendo uma continuação, mesmo sendo feita pelo seu diretor Richard Kelly: não dá, pois é impossível ultrapassar a perfeição). David Lynch nunca pensaria em seqüências, a não ser em "Twin Peaks", mas aí é diferente, pois uma série foi derivada do piloto. Em suma, séries são produtos comerciais mesmo, e servem no mais das vezes para encher os bolsos de quem ganha com isso, os mega-investidores da indústria do entretenimento.

Pela preservação da qualidade e da inteligência. Uma sugestão para os produtores de "Efeito Borboleta 2", e para o diretor John Leonetti (que tem nome mais para goleiro do Guarani de Bagé do que de diretor de cinema...): troquem o nome do seu lixo em forma de filme - em vez de ostentar o número 2, mudem para algo como "essa porcaria que tem a pretensão de seguir a fórmula de Efeito Borboleta, o qual é infinitamente superior, mas vejam mesmo assim, tá? Nós queremos ganhar o dinheiro de vocês, espectadores babacas e sem cérebro, e não estamos nem aí para a qualidade...!!!"

EFEITO BORBOLETA 2 (The Butterfly Effect 2, 2006)

Direção: John Leonetti.

Elenco: Eric Lively, Erica Durance, Gina Holden.

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