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O
TRIÂNGULO DO BEM
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Alexandre
Mesquita
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Sou meio desconfiado quando presencio comentários tortos
contra os ditos blockbusters. Em alguns casos (tá
bom, talvez a maioria) eu até acabo concordando com as
críticas, mas em outros digiro algo com sabor de injustiça.
Tenho por noção de blockbuster um filme que contém
nada ou muito pouco da essência do bom cinema e que, portanto,
deve ser relegado pelos que amam esta arte. Por outro
lado alguns membros da família destes arrecadadores de
muita grana acabam pagando por isso, sendo completamente
rotulados antes que tenham alguma chance de mostrar suas
qualidades. É o caso da saga Crepúsculo, inspirada
na série literária de Stephenie Meyer, que vendeu milhões
de livros pelo mundo, e cujos filmes homônimos não vem
fazendo por menos nas bilheterias.
Será que um livro que consegue vender tanto não tem lá
seus méritos, do ponto de vista artístico, pelo menos
pensando em arte como algo que tenha a ver com uma relação
espectador-obra? Pode-se alegar que seja de fórmula, romance
adolescente água-com-açúcar, e tal - nada de estilisticamente
virtuoso ou artesanalmente encorpado com inspiração divina
(embora sinceramente não sejam essas palavras minhas,
li em algum texto sobre definição de arte). Só me questiono
se foi unicamente Crepúsculo a obra de fórmula
feita neste período, ou na verdade milhares de livros
e filmes foram confeccionados usando as mesmas desgastadas
(e eficientes) receitas. Pensando em como é bom ganhar
dinheiro, tenho certeza que milhares de "obras-lixo" foram
produzidas em todos os cantos do mundo, muito mais que
as de inspiração divina. Eu acho que é mais difícil você
se sobressair entre iguais do que sendo revolucionário.
Por esse motivo, considero os livros da saga de Meyer
cheios de méritos. E o principal deles é simplesmente
serem muito divertidos de ler, graças a uma estrutura
narrativa bem montada, tensão permanente, os subclímaxes
aparecendo na hora e no local certos e conduzindo ao grande
clímax no livro final, além das cenas muito interessantes
articuladas pela imaginação prodigiosa da autora. Se não
tem personagens dos mais profundos, ou uma história hiper-supimpa
em originalidade (particularmente, acho que tem) que denuncie
problemas sociais ou se aprofunde nas angústias da existência,
apresenta tramas bem construídas, calcadas no elemento
que lhe dá mais força: o triângulo amoroso entre Bella,
Edward e Jacob, dois mocinhos que se odeiam enquanto espécie
e enquanto rivais pela namorada em comum. É evidente,
nos livros, que todas as histórias paralelas, com as brigas
com outros vampiros, volturis, etc., são apenas para emoldurar
este conflito. A afirmação suspirada de uma garota na
fila atrás de mim, "é realmente difícil escolher..", explica
muita coisa nas vendas e bilheterias.
Em Eclipse, (Isa)Bella Swan (Kristen Stewart) é
pedida em casamento pelo vampiro Edward Cullen (Robert
Pattinson) e aceita mediante a condição de ser transformada
em vampira, para o desespero do apaixonado persistente
e lobisomem quileute Jacob Black (Taylor Lautner), pois
transformar alguém em vampiro significa quebrar a tênue
convivência pacífica entre os vampiros do bem e lobisomens
do bem na cidade de Forks. Paralelamente Vitória (a competente
e interessante Bryce Dallas Howard, aqui se divertindo
de pular e correr), a Viúva Vampira Vingativa (essa sim
mereceria o nome de V de Vingança) de Crepúsculo
planeja acabar com a raça de Bella, devido à morte do
seu parceiro James no primeiro filme, criando um exército
de vampiros. Os recém-criados são mais fortes do que os
vampiros mais velhos, e difíceis de controlar. Essa horda
Vitória pretende jogar contra os Cullen, que só conseguirão
se defender se contarem com a inusitada ajuda de seu inimigos
Quileutes para lutar pela própria vida e daquela que une
ambos no amor e no ódio.
O filme, na sua necessidade de duas horas, toma liberdades,
poda e cria em cima da história original. Um exemplo é
a participação da vampira torturadora Jane, que precisou
ganhar mais destaque para melhor aproveitar a grana, bem,
investida em Dakota Fanning. No livro Eclipse,
Jane é mais de ser mencionada (no sentido de temida) por
outros personagens, do que se manifestar de corpo presente
- o que acontece apenas no fim da batalha. Entretanto,
muitas passagens interessantes do livro foram mantidas,
em especial a esperada cena da barraca na neve, que saiu
mais curta que no livro, mas não menos interessante.
David Slade, diretor dos ótimos Meninamá.com e
30 Dias de Noite, sente-se em casa e sua mão competente
traz novidades principalmente nas tiradas humorísticas,
menos presentes nos filmes anteriores, mas sem perder
o toque sombrio light - cuidado que aparece, por exemplo,
na hora que os vampiros são trucidados, mais parecendo
estátuas de mármore quebradas. Não há grandes atores,
com certeza. Mas a frieza de Pattinson continua sendo
a melhor coisa para interpretar o vampiro galã conservador
de Meyer. Acho que sua figura, independente de seu talento
como ator - se ele tem ou não é ainda uma coisa a ser
esclarecida -, caiu bem no papel. Taylor Lautner está
convincente também, embora sou capaz de apostar que será
igualzinho nos quatrocentos e cinquenta filmes que ainda
virão na cola do sucesso do seu Jacob. Mas, pena, quem
está não sei bem aonde é Kristen Stewart. Ela dificilmente
se destaca nas cenas que aparece (mesmo quando está sozinha),
o que é chato, sendo sua personagem a central. Na família
vampira Cullen, menção honrosa para a participação dos
pouco falantes Rosalie (Nikki Reed, bonita, mas comum
demais para ser a vampira mais linda do mundo descrita
no livro) e Jasper (Jackson Rathbone - incrível, ele sabe
falar...e atuar), namorado da vidente Alice (Ashley Greene,
a gracinha com chave eterna lá de casa). Além da presença
sempre bacana do Dr. vampiro Carlisle (Peter Facinelli,
daquelas atores que a gente acha que já viu, mas nunca
lembra onde).
Acompanhar a saga Crepúsculo foi nos livros e está
sendo no cinema uma gostosa satisfação. E acredito que
para certos momentos da vida da gente, coisa melhor não
há.
A SAGA CREPÚSCULO: ECLIPSE (The Twilight Saga:
Eclipse, EUA, 2010)
Direção: David Slade.
Elenco principal: Kristen Stewart, Robert Pattinson,
Taylor Lautner, Bryce Dallas Howard, Anna Kendrick, Jackson
Rathbone, Ashley Greene, Peter Facinelli.
Cotação: **** |
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