DISTRITO 9
Alexandre Mesquita
 
 
Na década de oitenta, uma gigantesca nave espacial extraterrestre aparece à deriva e estanca flutuante sobre a cidade de Johanesburgo, África do Sul. Sem entender muito bem o que estava acontecendo e sem ter resposta às suas mensagens de boas vindas, os sul-africanos, através de uma agência militar, a MNU, invadem a nave e encontram uma população de seres humanoides, mas com cara e apetrechos corporais de camarão, doente e desnutrida. Aparentemente uma peste assolou a nave, matando o comando, e restando apenas a tripulação subalterna. Isso quer dizer que os um milhão de extraterrestres que formarão o Distrito 9 (District 9, Nova Zelândia/África do Sul, 2009), zona de quarentena criada no terreno embaixo da nave-mãe são, digamos, pouco capazes, na visão dos hospedeiros, de fazer o que se esperava deles: que depois de curados, pegassem suas coisas e fossem embora. O Distrito 9, vinte anos depois, se tornou uma zona proibida à circulação de humanos, e congrega todos os problemas característicos de regiões miseráveis - violência, tráfico de armas, prostituição. Uma gangue de nigerianos gerencia o mercado negro, principalmente com relação à droga mais valiosa que transita por ali, comida de gato enlatada. Não fica claro se os ET's enlouquecem com a comida, com a lata, ou com ambos. Mas na falta dela comem pneus.

É no mínimo divertido tentar aceitar isso, já que as armas desses comedores de pneus e catadores de lixo tem um poder de destruição e eficiência muito superior às humanas. Contudo, sua poderosa tecnologia só funciona com eles mesmos, ou seja, está adaptada apenas para ser usada por quem contém o seu DNA, para a grande frustração da indústria de armamentos MNU.

Colocado isto, podemos falar do mote da história. Por ser genro do patrão, o enrolado agente da MNU, Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley, às vezes divertido, às vezes de dar pena, mas sempre crível), é escolhido para coordenar a desapropriação do Distrito 9, a fim de aliviar as tensões sociais entre humanos e ET´s. Os visitantes do espaço serão levados para um campo de concentração bem distante da cidade. Wikus deve passar de barraco em barraco para obrigar os extra-terrestres a assinarem o termo de transferência. Ao entrar numa das malocas, o agente acaba em contato com o único extraterrestre cientista que sobrou, Christopher Johnson, que de forma camuflada há vinte anos vem catando óleo combustível em sucatas alienígenas e que recém acabara de conseguir a quantidade suficiente para voar na mini-nave escondida em seu barraco até a nave mãe e voltar para o planeta natal (por que ele não fez isso vinte anos antes, quando ainda estava lá em cima, isso não fica muito claro). Ao acidentalmente sorver uma parte do óleo combustível, Wikus passa a se metamorfosear em alienígena. Para ele uma tragédia, mas para a agência que trabalha, a sorte grande, pois cai do céu alguém (meio)humano capaz de acionar o poderoso armamento ET.

Horrorizado com o que virou seu destino, Wikus foge, tentando buscar uma cura para si enquanto sua transformação gradualmente vai aumentando. Ele retorna ao Distrito 9 e reencontra Christopher, que promete ajudá-lo a recuperar a antiga genética caso em troca o cobiçado ex-agente da MNU o ajudasse.

Entre tiroteios e bombardeios com soldados, milícias armadas nigerianas e traficantes de comida de gato, o (meio)humano e o ET partem numa jornada desesperada para recuperar o recipiente que contém o óleo combustível. A ação de certa forma cai no lugar comum dos filmes com esse propósito. Mas a originalidade da alquimia ficção-científica e tensão social do terceiro mundo compensa esse deslize da segunda parte do filme.

O ET Christopher seria propriamente o herói, pelo menos na idéia do herói mais tradicional, o da nobreza de espírito e bondade. Wikus, por outro lado, é uma interessante espécie de herói anti-herói. Incorpora de forma natural para as câmeras que filmam sua ação de despejo a filosofia gananciosa da empresa que trabalha, entanto quando exposto a situações-limite, como, por exemplo, a vida de um outro ser em suas mãos, esbanja dignidade.

Narrado em ritmo de documentário, com inserções de sociólogos e repórteres, destaca-se o humor, que vai do sutil ao macabro sem excessos. Igualmente muito bom o uso dos efeitos especiais. A produção alega gasto de trinta milhões de dólares, mas o resultado supera outros filmes cujo orçamento foi bem maior. Acho que para essa boa impressão muito ajudou o contraste entre a tecnologia dos ET´s, os próprios alienígenas e os cenários de favela. Os "camarões" tem uma língua própria e trejeitos que nunca escorregam para o forçado ou ridículo. De parabéns o diretor Neil Blomkamp, apadrinhado de Peter Jackson, com todos os méritos, e a roteirista Terri Tatchell. Porém, curiosa é a presença cada vez mais freqüente daquele exo-esqueleto, ou armadura mecânica, nos filmes de ficção-científica atuais (Avatar que o diga), só espero que não se alastrem para os filmes românticos ou de sexo.

Merece nota também os depoimentos dos sul-africanos sobre a presença dos ET´s no começo do filme. Foi revelado depois que, muitos que aparecem falando contra a presença dos extraterrestres na verdade, são pessoas comuns mesmo, que foram interrogadas sobre estrangeiros no seu país.

Um grande filme, desses que aparecem a cada vinte anos em nossa satisfação, provando que a originalidade ainda tem muito a dar para o cinema.



DISTRITO 9 (District 9, África do Sul/Nova Zelândia, 2009)

Direção: Neill Blomkamp.

Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Tim Gordon, Vanessa Haywood, William Allen Young.

Cotação: *****