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TRIDIMENSIONALIDADE
ENCANTADA
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Alexandre
Mesquita
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Após o bem sucedido Shrek, os contos de fada
nunca mais foram os mesmos. Inversão de valores e novas
leituras entraram na ponta da caneta dos roteiristas de
projetos envolvendo personagens outrora símbolos da pura
bondade ou da pura maldade. Hoje, pensa-se que as histórias
das vovós podem ter mais pimenta que comida baiana para
inimigos. E nem precisa trocar de livro, basta dar uma
sacudida na maneira de ver as coisas. Diria um engenheiro
que elas estão mais tridimensionais do que bidimensionais.
Podem ser vistas de mais ângulos. Deu a Louca na Chapeuzinho
(Hoodwinked, EUA, 2005) explora as possibilidades
desse novo patamar.
Na floresta de Chapeuzinho Vermelho (voz original de Anne
Hathaway, de O Diabo Veste Prada) estão acontecendo
uma série de crimes hediondos, o roubo de receitas secretas
de doces. Como muita gente lá vive disso, a descoberta
do segredo de suas guloseimas levou à quebradeira geral
das confeitarias. A mais famosa das doceiras, a Vovó de
Chapeuzinho Vermelho (Glenn Close), ainda não havia sido
atacada, mas a menina estava preocupada com o bem-guardado
livro de receitas da família. Tenta protegê-lo, levando-o
em segredo para a casa da Avó. Lá encontra um Lobo Mau
(Patrick Warburton) usando roupas, cama e máscara da velhinha.
Inicia-se uma perseguição, não fica claro de quem contra
quem. A Vovó salta de uma armário toda amarrada, e o Lenhador
(James Belushi), com um machado em punho, invade a cena
pela janela, sem antes abri-la. Chega a polícia. Os personagens
ficam detidos na casa e são chamados a depor individualmente
sobre o que aconteceu. Essa seqüência será contada em
quatro versões diferentes, do ponto de vista dos quatro
personagens envolvidos. Cada um terá o direito de se colocar
como vítima. E vemos que nem tudo é o que parece, bordão
do filme. A versão do Lobo Mau sobre os acontecimentos
é a mais interessante por causa do choque cultural sobre
quem ele realmente é. A da Vovó me pareceu um pouco, como
diria um amigo, "exageração" de barra.
A técnica utilizada pelo roteiro de Cory Edwards, Todd
Edwards e Tony Leech e pela direção do próprio Cory Edwards
é a humanização profissional dos personagens. O Lobo não
é apenas o Lobo Mau famoso, ele é O Lobo, Profissão Repórter.
O Caçador não é Caçador, é o Ator mais frustrado da região.
A Vovó faz coisas que uma vovó de noventa e tantos não
deveria. E a Chapeuzinho não é tão ingênua, no sentido
carateca de ser. A história avança e retrocede no tempo
várias vezes à medida que as personagens contam suas versões.
A análise exige que se divida o filme em duas partes.
A primeira é exatamente o jogo de gato e rato das versões.
Fica muito interessante graças ao bom desenvolvimento
da idéia, criatividade ao levar a MTV para os contos de
fadas e aos personagens, principalmente os secundários.
Alguns garantem momentos hilários, como o Bode enfeitiçado
que nunca pára de cantar, o fotógrafo esquilo ligeirinho,
o inspetor de polícia sapo perna-longa, o chefe de polícia
urso, os policiais porcos. Todos falando num vocabulário
de filmes policiais noir. Um bom contraste. No geral,
a primeira parte funciona bem.
A segunda, após as quatro versões contadas, involuntariamente
funciona como estraga-prazeres da primeira. A volta da
rotina das fadas que exatamente Shrek quis combater. Surge
um vilão, correrias e tudo que já foi visto em milhares
de histórias, incomoda pela mesmice. Pena. Quase como
se o diretor dissesse: Então é isso aí gente, tomem
bastante cuidado para botarem a perder o que foi feito,
não quero ver nada de bom sobrando. Conseguiu, em
parte. O filme tem oitenta minutos de duração e é bom.
Mas se acabasse com vinte minutos a menos seria excelente.
DEU A LOUCA NA CHAPEUZINHO (Hoodwinked,
2005)
Direção: Cory Edwards.
Elenco com vozes originais de: Anne Hathaway, Glenn
Close, James Belushi.
COTAÇÃO: *** |
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