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Assim como o brilhante cinema soviético das duas primeiras
décadas do século vinte foi praticamente exterminado
pelo "realismo socialista" de Josef Stálin, mesmo que
ainda houvesse filmes de Kozintsev, Trauberg e Eisenstein,
o cinema alemão dos grandes diretores do Primeiro Cinema
(Fritz Lang, F.W. Murnau, Josef Von Sternberg, G.W.
Pabst, Ernst Lubitsch), regrediu e perdeu sua genialidade
durante o período nazista (1933 - 1945), quando a produção
cinematográfica do país resumiu-se a comédias de costumes,
musicais de baixa qualidade, e filmes anti-semitas e
de propaganda. O nome de Leni Riefentahl, certamente
é de grande peso nesse período, e mesmo com duas obras
encomendadas pelo governo (O Triunfo da Vontade
(1935) e Olympia I & II, 1938), reconhecemos a sua tremenda
genialidade na direção, e o valor estético, artístico
e histórico de seus filmes. Entretanto, a cineasta alemã
foi a única a produzir obras de algum valor para o cinema,
em seu país, no período em que Hitler esteve no poder.
Como quase todas as cinematografias nacionais europeias
do pós-guerra (destaque para a italiana, com o seu neo-realismo),
a Alemanha produziu filmes de um forte caráter histórico-social,
os "filmes da destruição", ambientados na profunda crise
emocional e econômica (só para citar duas) que pairava
sobre o país¹.
Aos poucos, o cinema alemão ganhou força, e os anos
1970, foram de excepcional renovo, com obras-primas
ousadas e críticas, realizadas por nomes que se tornariam
ícones de qualquer antologia de cinema: Werner Herzog,
Wim Wenders, Volker Schlondorff e Rainer Werner Fassbinder.
Junto aos seus amigos do Teatro de Munique, Fassbinder
entrou para o cinema nesse período de renovação, e seus
melodramas ambientados no pós-guerra mostram um mundo
traiçoeiro, frustrado, avaro, viciado e violento, onde
todos buscam alguma coisa, e os mais fracos tendem ou
são obrigados a desistir no meio do caminho. Pontuado
por fortes personagens femininas centrais, doses de
homossexualismo (quando não é o tema principal) e rigoroso
uso da fotografia e planificação (com colaboradores
habituais como Michael Balhaus e Xavier Schwarzenberger)
e pontualíssimo e tocante uso da música (Peer Raben
é o compositor que acompanha o cineasta durante toda
a careira), os filmes de Fassbinder são provocantes
análises ou retratos muito particulares da sociedade
completamente perdida e oprimida pelo ambiente que ela
mesma criou e não vê como sair dele (um triunfo da ideologia).
É nesse ambiente opressivo e mortal que vivem as personagens
do penúltimo filme de R.W. Fassbinder, O Desespero
de Veronika Voss (1982)².
O filme narra a história da decadente atriz de cinema,
Veronika Voss, que, viciada em morfina, fica a mercê
de sua neurocirurgiã, dando-lhe tudo quanto tem em troca
de doses da substância. Pequenas e pertinentes histórias
paralelas se cruzam e se adaptam à trama central, especialmente
a do jornalista esportivo que tenta resgatar a atriz,
mas é vencido pelo mundo que a cerca e domina.
A primeira sequência da película é em um cinema. Uma
cortina se abre e insere o espectador na sala onde se
projeta um antigo filme em que Veronika atua. A atriz
está na plateia, e em dado momento, cerra os olhos,
para não ver a cena de desespero de sua personagem viciada,
e acaba saindo da sala escura, perturbada com a proximidade
entre a realidade diegética e a sua realidade. É dessa
sequência-chave que a atriz se lembrará, no epílogo
do filme, quando é "apresentada" ao suicídio.
À cena de abertura, segue-se um flashback que
nos leva para o momento em que se filmava a obra exibida
na sequência inicial. O flashback de Fassbinder
é extravagante e fascinante. Luzes-estrelas brilham
em diversos pontos da tela e tomam o quadro com imponente
força estética, incomodando a visão do espectador, e
salientando ainda mais o caráter pretérito da cena.
As lembranças do passado, neste filme, sempre serão
acompanhadas deste tipo de iluminação agressiva, quase
onírica.
A planificação de O Desespero de Veronika Voss
é quase uma afronta de tão bem escolhida, usada e relacionada
com a tensão dramática e especialmente cênica, do quadro.
A isso, soma-se uma estonteante mise-en-scène,
que baila junto com os atores em um cenário abarrotado
de coisas, cheio de forte luz e escuridão (um saliente
caráter expressionista pontua o filme) e muitas vezes
vistos por enquadramentos inclinados ou interceptados
em primeiríssimo plano por uma parede, uma cadeira,
um ombro: contra-campos com um personagem onipresente
(o espectador?), que faz parte da cena ou observa a
todo o tempo o cotidiano das personagens.
O mundo de Veronika Voss é burocrático, e essa burocracia
alcança todos os níveis da sociedade. Através da corrupção,
facilitada pelos muitos papeis e departamentos, algumas
pessoas desfrutam de grandes privilégios (em geral,
financeiros), e não hesitam em cometer crimes de todas
as ordens para manterem sua posição de destaque e sua
fonte inesgotável de dinheiro, mesmo que a vida de algumas
pessoas sejam destruídas. Os criminosos estão sempre
bem e felizes, ricos, e gozam de livre trânsito na sociedade,
sob a alcunha de bons profissionais e bons cidadãos.
O mundo das artes funde-se ao mundo real. Já dissemos
que ao fim da fita, Veronika Voss (lancinante interpretação
de Rosel Zech) repete um trecho do roteiro de um antigo
filme que atuara. Durante toda a película, é difícil
definir com certeza se ela realmente sente o que expressa,
ou só atua.
A música de Peer Raben faz simbólicos todos 100 minutos
de duração do filme. Usando a seu modo o princípio da
não-coincidência, o compositor "ataca" algumas cenas
com uma melodia tranquila, quando a mise-en-scène
caminha em sentido oposto; mas também cria a expectativa
típica do suspense, com trechos graves e em tons menores,
e também incita a impaciência, o medo e o incômodo,
em diversos momentos, mesmo com a música não original,
ou com os tambores, cada vez mais fortes através da
melodia principal, como se marcassem os batimentos do
coração das personagens em cena.
Xavier Schwarzenberger arrebata o espectador através
de sua fotografia tendenciosamente expressionista. Junto
à direção de arte a aos figurinos, ressalta ainda mais
a opressão e o desespero pretendidos por Fassbinder.
Podemos citar como exemplo dessa perfeita junção, o
consultório da neurocirurgiã Marianne, ambiente terrivelmente
branco, que destaca as figuras de Veronika, seu amante,
de outros pacientes, ou os policiais, todos vestidos
de preto, cinza, etc., em diferentes momentos do filme.
A câmera fixa não exclui os movimentos de planos ou
internos, o que equilibra as sequências e dinamiza o
filme, dando à morbidez do estrelato, uma fluidez irônica
e incômoda.
A edição de Juliane Lorenz é um caleidoscópio matemático,
e suas transições incomuns clamam o exótico ou o irreal
- aqui, ressaltamos que as transições incomodam, de
fato, e só são entendidas dentro de seu contexto fílmico,
quando a trama já vai bem avançada. Cada sequência é
um ato. O corte, aqui, tem um papel temporal e às vezes,
de transição psicológico-espacial.
Fassbinder dirige os atores dentro de "espaços de personalidade".
Cada persona em cena é um universo, que vive em um universo
maior, manipulando-o, reflexo de sua alma e personalidade.
O mundo pós-guerra criado pelo diretor alemão conclama
a morte pelo desespero, pela busca de um significado
ou de uma paz que é impossível porque o vício ou as
sequelas de um passado recente atormentam a memória
e empurram o indivíduo para a morte. O Desespero
de Veronika Voss esquadrinha a alma e a existência
em uma Alemanha que se reconstrói, porém, sob
os mortíferos pilares do capitalismo e da indiferença.
1 - O olhar de Roberto Rossellini para
a Alemanha desse período chega a um ponto lancinante
em Alemanha ano zero (1947), comovente e dura
visão sobre o homem castigado pelas consequências de
seu tempo histórico, tendo o apelo para que se deixe
o lamento e a desesperança de lado, e se parta para
a re-construção da vida e do meio onde se vive.
2 - R.W. Fassbinder foi um dos mais prolíficos diretores
da história do cinema. Dirigiu o seu primeiro filme,
O Vagabundo da Cidade, em 1969, aos 23 anos,
e o seu último, Querelle, em 1982, ano de sua morte.
Em 13 anos de carreira, o cineasta dirigiu 30 filmes,
escreveu e dirigiu diversas peças de teatro, e ainda
fez trabalhos para a televisão, incluindo a lendária
série Berlin Alexanderplatz.
O DESESPERO DE VERONIKA VOSS (Die Sehnsucht
der Veronika Voss, Alemanha Ocidental, 1982)
Direção: Rainer Werner Fassbinder.
Elenco principal: Rosel Zech, Hilmar Thate, Cornelia
Froboess, Annemarie Düringer, Doris Schade, Erik Schumann,
Peter Berling, Günter Kaufmann, Sonja Neudorfer, Lilo
Pempeit, Volker Spengler.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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