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Em 1999, o mundo descobriu M. Night Shyamalan através
do ótimo suspense "O Sexto Sentido". Não era
seu primeiro trabalho - em 1992, realizou "Praying
with Anger", um filme, dizem, semi-autobiográfico,
que nunca foi lançado no Brasil, e em 98, o existencialista
"Olhos Abertos", um embrião para seu grande filme
do ano seguinte. Com uma história envolvente e um final-surpresa
arrebatador, "O Sexto Sentido" fez de Shyamalan
uma das maiores promessas do Cinema, chegando inclusive
a ser comparado com Hitchcock.
Puro fogo de palha. À exceção de "A Vila" (2004)
- e ainda assim em grau menor - os trabalhos posteriores
do cineasta indiano jamais tocaram o céu proporcionado
por seu filme-cartão de visitas, e a decepção se tornou
um mantra quase ininterrupto. Senão vejamos: "Corpo
Fechado" (2000), uma história de super-heróis "de
verdade" - e pretensiosa -, desapontou, principalmente
pelo "desfecho surpreendente" que todos aguardavam (mal-acostumados?)
e o qual se mostrou justamente o contrário: previsível.
Depois, "Sinais" (2002), de claríssima inspiração
hitchcockiana, ficou apenas no terreno da moção: personagens
fracos, suspense em clima over, e a conclusão
da fita, até hoje, é lembrada como motivo de piadas.
Parecia que a promessa havia definitivamente enganado
a todos, mas então, a fênix ameaça se levantar: "A
Vila" traz à tona algo próximo daquele grande Shyamalan,
de quem crítica e público ansiavam por ver um trabalho
decente, leia-se, à altura do básico esperado.
Porém a ave mítica logo cai, e feio.
"A Dama na Água", seu trabalho mais recente,
é decepção na veia, na artéria, no sistema circulatório
inteiro. Fracasso previsível, talvez. O projeto do filme
foi barrado na Disney/Touchstone, estúdio responsável
por dar impulso ao cineasta, encontrando posterior abrigo
na Warner. Ate aí, nada anormal, "diferenças criativas"
acontecem, mas não se pode desprezar o faro dos executivos
do cinema, que certamente detectaram uma "bomba" no
colo, ou melhor, nas mãos do realizador. O pior estava
por vir: M. Night se mostrou ingrato com a companhia
que o projetou e saiu a escrever coisas nada agradáveis
sobre ela. Pega mal, isso. Bem, apesar do cheiro de
insucesso no ar, havia uma esperança: que ao menos tal
filme fosse satisfatório ("A Vila"
nos devolvera a crença no seu autor). Não o é.
Todos sabemos da ligação de Shyamalan com o fantástico,
o sobrenatural, de seu autoralismo e também do
tema que lhe é tão caro - a possibilidade de redenção
humana - mas desta vez ele exagerou nas tintas: ao rodar
uma trama cujo centro é uma lenda que se transforma
em realidade, o diretor/roteirista perde a sutileza
e o bom senso, acabando por nos desvelar um filme incoerente,
equivocado, ingênuo, arrogante, infantilizado...um desastre,
enfim.
Tirando o de hábito competente Paul Giamatti, todo
o restante do elenco soa capenga. Para aumentar a catástrofe,
o sr. Shyamalan resolve atacar efetivamente de ator,
não mais se contentando em fazer suas pontas à la
Hitchcock: o resultado beira o ridículo. Aliás,
num gesto de imenso egocentrismo, ele se retrata na
trama como um sujeito artisticamente incompreendido
no mundo atual, mas que será, segundo uma profecia,
enormemente reconhecido no futuro, descoberta inclusive
com caráter decisivo para a humanidade. Não satisfeito
de modo pleno com isso, estabelece, enquanto roteirista,
um triste e sangrento destino a um pobre crítico de
cinema na história, demonstrando assim toda a sua raiva
com aqueles que ousam dessantificá-lo.
A fotografia de Christopher Doyle ("Herói")
é boa - entretanto, não mais do que isso: para quem
é considerado um gênio contemporâneo da luz, espera-se
além do apresentado -, a trilha de James Newton Howard,
que oscila entre o terno e o épico, também, entretanto
não há bóia que salve "A Dama na Água" do afogamento.
"O Apanhador de Sonhos" ganhou um rival à altura
na competição pelo pior filme dos últimos anos.
A DAMA NA ÁGUA (Lady in the Water, 2006)
Direção: M. Night Shyamalan.
Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard,
Bob Balaban, Cindy Cheung, M. Night Shyamalan, Freddy
Rodríguez, Jeffrey Wright.
COTAÇÃO: *
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