A DAMA AFOGADA,
DE M. "FOGO DE PALHA" SHYAMALAN
Adriano de Oliveira
 
 

Em 1999, o mundo descobriu M. Night Shyamalan através do ótimo suspense "O Sexto Sentido". Não era seu primeiro trabalho - em 1992, realizou "Praying with Anger", um filme, dizem, semi-autobiográfico, que nunca foi lançado no Brasil, e em 98, o existencialista "Olhos Abertos", um embrião para seu grande filme do ano seguinte. Com uma história envolvente e um final-surpresa arrebatador, "O Sexto Sentido" fez de Shyamalan uma das maiores promessas do Cinema, chegando inclusive a ser comparado com Hitchcock.

Puro fogo de palha. À exceção de "A Vila" (2004) - e ainda assim em grau menor - os trabalhos posteriores do cineasta indiano jamais tocaram o céu proporcionado por seu filme-cartão de visitas, e a decepção se tornou um mantra quase ininterrupto. Senão vejamos: "Corpo Fechado" (2000), uma história de super-heróis "de verdade" - e pretensiosa -, desapontou, principalmente pelo "desfecho surpreendente" que todos aguardavam (mal-acostumados?) e o qual se mostrou justamente o contrário: previsível. Depois, "Sinais" (2002), de claríssima inspiração hitchcockiana, ficou apenas no terreno da moção: personagens fracos, suspense em clima over, e a conclusão da fita, até hoje, é lembrada como motivo de piadas. Parecia que a promessa havia definitivamente enganado a todos, mas então, a fênix ameaça se levantar: "A Vila" traz à tona algo próximo daquele grande Shyamalan, de quem crítica e público ansiavam por ver um trabalho decente, leia-se, à altura do básico esperado.

Porém a ave mítica logo cai, e feio. "A Dama na Água", seu trabalho mais recente, é decepção na veia, na artéria, no sistema circulatório inteiro. Fracasso previsível, talvez. O projeto do filme foi barrado na Disney/Touchstone, estúdio responsável por dar impulso ao cineasta, encontrando posterior abrigo na Warner. Ate aí, nada anormal, "diferenças criativas" acontecem, mas não se pode desprezar o faro dos executivos do cinema, que certamente detectaram uma "bomba" no colo, ou melhor, nas mãos do realizador. O pior estava por vir: M. Night se mostrou ingrato com a companhia que o projetou e saiu a escrever coisas nada agradáveis sobre ela. Pega mal, isso. Bem, apesar do cheiro de insucesso no ar, havia uma esperança: que ao menos tal filme fosse satisfatório ("A Vila" nos devolvera a crença no seu autor). Não o é.

Todos sabemos da ligação de Shyamalan com o fantástico, o sobrenatural, de seu autoralismo e também do tema que lhe é tão caro - a possibilidade de redenção humana - mas desta vez ele exagerou nas tintas: ao rodar uma trama cujo centro é uma lenda que se transforma em realidade, o diretor/roteirista perde a sutileza e o bom senso, acabando por nos desvelar um filme incoerente, equivocado, ingênuo, arrogante, infantilizado...um desastre, enfim.

Tirando o de hábito competente Paul Giamatti, todo o restante do elenco soa capenga. Para aumentar a catástrofe, o sr. Shyamalan resolve atacar efetivamente de ator, não mais se contentando em fazer suas pontas à la Hitchcock: o resultado beira o ridículo. Aliás, num gesto de imenso egocentrismo, ele se retrata na trama como um sujeito artisticamente incompreendido no mundo atual, mas que será, segundo uma profecia, enormemente reconhecido no futuro, descoberta inclusive com caráter decisivo para a humanidade. Não satisfeito de modo pleno com isso, estabelece, enquanto roteirista, um triste e sangrento destino a um pobre crítico de cinema na história, demonstrando assim toda a sua raiva com aqueles que ousam dessantificá-lo.

A fotografia de Christopher Doyle ("Herói") é boa - entretanto, não mais do que isso: para quem é considerado um gênio contemporâneo da luz, espera-se além do apresentado -, a trilha de James Newton Howard, que oscila entre o terno e o épico, também, entretanto não há bóia que salve "A Dama na Água" do afogamento. "O Apanhador de Sonhos" ganhou um rival à altura na competição pelo pior filme dos últimos anos.

A DAMA NA ÁGUA (Lady in the Water, 2006)

Direção: M. Night Shyamalan.

Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, Cindy Cheung, M. Night Shyamalan, Freddy Rodríguez, Jeffrey Wright.

COTAÇÃO: *