O conjunto da vasta obra de Ingmar Bergman, 51 trabalhos
para o cinema a e para a televisão em 57 anos de carreira,
nos permite classificá-lo com um dos cineastas mais prolíficos,
cujos temas centrais das obras são profundas, emotivas
e impressionantes observações da alma e da vida humana.
O nome Ingmar Bergman suscita tramas fortemente ligadas
ao teatro e à psicologia, rigorosa direção de atores,
grande apuro estético (especialmente fotográfico) e roteiros
com histórias existencialistas muito ligadas à libido.
Durante toda a carreira, o cineasta explorou de forma
inovadora todas essas características, e seus filmes se
tornaram "a sensação" à época do lançamento (assim como
eram os filmes de Hitchcock, Fellini ou Kubrick). Hoje,
três anos após a morte do cineasta, com o lançamento no
Brasil de toda a sua filmografia em DVD, desperta a curiosidade
de cinéfilos para o início da carreira do cineasta, início
que já traria "características bergmanianas clássicas",
início que se deu em 1946, com o filme Crise (Kris).
O roteiro de Crise é uma adaptação do próprio Bergman
para a peça dinamarquesa Moderdryet, de Leck Fischer,
uma peça "familiar", intimista e comercial. Bergman, que
já tinha experiência no teatro (como escritor e diretor),
seguiu a mesma linha narrativa dos palcos quando realizou
este primeiro filme. Um narrador off, o Corifeu,
apresenta a situação inicial para o espectador: uma pacata
cidade do interior da Suécia recebe a visita da Sra. Jenny,
que após 18 anos, vai ver sua filha, Nelly, que é criada
pela Sra. Ingerborg Johnson, uma professora de piano.
Na mesma casa, mora o veterinário Ullf, pretendente de
Nelly. A visita da Sra. Jenny não é sem motivo. Após ter
alcançado um bom nível social, ela pretende levar a filha
para a capital, Estocolmo, onde possui um pomposo salão
de beleza, ao lado de um teatro. O Corifeu-narrador off
anuncia o "início" do filme:
"Que a peça comece. Eu não a definiria como uma história
grande e angustiante. É, na verdade, apenas um drama cotidiano.
Quase uma comédia. Levantemos a cortina".
A narrativa teatral que introduz e conclui o filme faz
com que a obra ganhe tonalidade de crônica. A vida e os
dissabores das personagens são apresentados aos poucos,
de maneira dinâmica: a chegada da Sra. Jenny, a irmã de
Ingerborg, Jessie (o ponto cômico do filme), a notícia
particular da morte iminente de Ingerborg, a chegada de
Jack, o "escândalo" na noite do baile, a partida de Nelly
para a cidade grande.
Com a partida de Nelly para Estocolmo a história ganha
aura mais obscura no desenrolar dos acontecimentos. Os
sentimentos vem à tona; a morte, que a todo tempo cerca
as personagens, chega, através do suicídio; o arrependimento
e a remissão fecham o ciclo em torno das personagens e
pontuam a fala final do Corifeu-narrador.
Podemos considerar Crise, um filme que arma o campo
de luta entre o desejo e a repressão (que gera a mentira,
a desilusão e a confusão emotiva das personagens). A trama,
aparentemente simples, revela o âmago do obscuro caráter
humano e a incapacidade de lidar com ele. O orgulho e
o medo da solidão temperam de modo doloroso a segunda
parte da obra. Nelly passa a ser o catalisador da alegria
tanto para Ingerborg quanto para Jenny e no caso dos homens,
tanto para Ullf quanto para Jack. Entretanto, o espírito
dionisíaco de Jack e Jenny fazem-nos trilhar o caminho
da tragédia, seja com a desilusão e o descrédito na vida
culminando com o suicídio do primeiro, seja com o abandono
e a solidão da segunda.
O título "Crise" ilustra bem toda a atmosfera que
permeia a obra. Embora o tom de crônica diminua o peso
dos temas tratados e os permeie de uma aparente simplicidade
(recorrência nas comédias-teatrais existencialistas de
Bergman, todas ligadas de alguma forma ao amor, às relações
amorosas, como Uma lição de amor (1954), Sorrisos
de uma noite de amor (1955) e especialmente O olho
do Diabo, de 1960), o filme de estreia de Bergman
aborda o funcionamento da vida, contrapõe a ingenuidade
reclusa dos cidadãos do interior à astúcia individualista
e desesperadora dos que vivem na cidade grande, e por
fim, conclui que tudo isso faz parte de um processo necessário
para a experiência de vida e convivência dos indivíduos.
O tom de calmaria irônica da fala final do narrador, prevê
um futuro feliz para os protagonistas, apesar de um pequeno
impasse:
"Podemos deixar a Sra. Ingerborg aqui, ao pé do sol.
Ela está olhando para dois jovens descendo juntos a rua.
Há uma certa distância entre eles, mas estão juntos. Nelly
e Ullf. A calmaria desta tarde de sábado pousa suas mãos
suaves sobre essa cidadezinha que é tão pequena."
A vida se torna amplamente comum e cheia de marasmo disfarçado
de paz. Apesar da quase-completa felicidade, há um amargor
que enlaça o final do filme, e o fato de o narrador desviar-se
do assunto principal para deixar ao espectador o destino
do casal, relembrando o início do filme ao falar da cidade,
nos faz colocá-lo no mesmo posto que o narrador de A
hora da estrela, quando, depois de perguntar "qual
é o peso da luz?" , ele cerca o tema mas desvia a
atenção para a conclusão óbvia: não há mais nada para
dizer.
"E agora - agora só me resta acender um cigarro e
ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente
morre. Mas - mas eu também?
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
Clarice Lispector
Para quem tem em mente as grandes obras de Bergman, executadas
ao lado dos fotógrafos Gunnar Fischer e Sven Nykvist (principalmente),
há de incomodar-se com todos (ou quase todos) os elementos
técnicos de Crise, a começar pela montagem. O uso
quase insuportável de fades do editor Oskar Rosander
tem um único ponto louvável: exemplificar formalmente
a confusão mental das personagens do filme. Uma sequência
deve ser destacada: quando a Sra. Ingerborg volta de Estocolmo,
a insônia acompanha sua viagem. Ela então passa a lembrar-se
de momentos alegres e tristes que envolveram Nelly, sua
filha do coração, enquanto estava em sua companhia. O
editor fez uma interessantíssima fusão dos trilhos do
trem ao rosto da personagem, que por sua vez, funde-se
a imagens do passado - uma forma muito criativa de criar
diversos flashbacks em um curtíssimo espaço de
tempo.
A fotografia de Gösta Roosling é quase neo-realista. Pode-se
perceber maior brilhantismo nas sequências filmadas no
Salão de Beleza de Jenny. Todo o restante do filme é fotografado
de modo "normal", embora faça muito uso de luz pontual,
como por exemplo, o fato do rosto da Sra. Ingerborg estar
sempre iluminado, ou dos tons escuros em planos mais abertos,
dando uma estupenda noção de profundidade de campo. Quando
classificamos a fotografia de Crise como "normal",
aludimos ao fato de as obras posteriores de Bergman (a
partir de Um barco para a Índia, de 1947), terem
uma meticulosa e incrivelmente bela fotografia.
Crise é um interessante filme de estréia. O diretor,
anos depois, afirmou que "tudo nesse filme é ruim",
no que concordamos com ele no que diz respeito aos atores,
principalmente na parte inicial da obra. O produto fílmico,
fechado, é bom, visivelmente o primeiro passo de um gênio
absoluto do cinema, embora não o seja, nesse primeiro
filme.
CRISE (Kris, Suécia, 1946)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco principal: Inga Landgré, Stig Olin, Marianne
Löfgren, Dagny Lind, Allan Bohlin, Ernst Eklund, Signe
Wirff.
Cotação: ***
Este artigo é parte do Ciclo
Bergman no Cine Revista.
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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